Um tiro no pé?

A ameaça foi lançada à imprensa na última semana pelo presidente do Gil Vicente, Antônio Fiúza: se a decisão da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) sobre o alargamento do Campeonato Português de 16 para 18 clubes, sem rebaixamento na atual temporada, não recebesse o aval da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), os times “pequenos” iriam paralisar o torneio. Pode-se dizer que a FPF pagou para ver ao vetar a proposta votada na Liga. O fato de, na terça-feira, os clubes que disputam as competições profissionais em Portugal terem tornado a se reunir com o presidente da FPF, Fernando Gomes, evidencia que o assunto está longe de ser encerrado.
A polêmica toda teve início na Assembleia-Geral extraordinária da Liga, realizada na última semana, em que seria votado o alargamento do campeonato. A proposta do presidente da Liga, Mário Figueiredo, era de que, para se completar os 18 participantes da temporada seguinte, fosse realizada uma espécie de miniliga entre os dois últimos da primeira divisão e os terceiro e quarto colocados da Liga de Honra. A ideia, porém, foi rejeitada pela maioria dos votantes – que, por sua vez, aprovou a decisão de não haver rebaixamentos na atual época. Após a Assembleia, o clima era de esperança e alegria entre os pequenos, e de revolta entre os grandes (em especial Porto e Sporting) e alguns médios, como o Nacional.
Foi quando Fiúza assumiu o papel de “porta-voz” dos pequenos. Segundo o presidente do Gil Vicente, o atual calendário prevê uma média de 35 jogos por temporada, em um ano com 52 finais de semana. “Façam as contas e vejam quanto é que os clubes gastam com jogadores quando estes são obrigados a terem quase três meses de férias”, disse o mandatário gilista, segundo o jornal A Bola. Criticou também a rejeição dos grandes à sugestão, afirmando que a mesma, se aprovada, reduziria o tempo para estas equipes fazerem excursões a outros países e continentes e “encherem os bolsos”, enquanto as agremiações menores têm que dar férias aos jogadores nesse período de entressafra de jogos.
Já na defesa ao não-rebaixamento – ponto mais polêmico e adverso de toda a discussão, uma vez que a alteração iria por em questão a “verdade desportiva” do torneio – Fiúza analisou em que outros episódios em que houve alguma mudança na primeira divisão (como o Caso Mateus, que rebaixou o próprio Gil Vicente em 2005; a queda do Boavista na época do Apito Dourado, em 2008; e a descida de divisão do Estrela da Amadora por falta de recursos em 2009), não houve “repescagem” entre equipes da Liga Portuguesa e da Liga de Honra. Ou seja: o clube “salvo” com o rebaixamento de outro time não teve de disputar com o terceiro colocado da segunda divisão a vaga na elite.
Nem o posicionamento de Fiúza, nem a alta aprovação da proposta do alargamento sem rebaixamentos na Liga, porém, foram suficientes para dobrar a FPF – que, na verdade, limitou-se a explicar que o veto defendia a “óbvia salvaguarda da integridade das competições e da verdade desportiva”. A decisão fez com que um grupo de clubes dos dois primeiros escalões se reunissem e, ao término do encontro, reafirmassem a ideia de ameaçar a paralisação do campeonato. Curiosamente, o discurso aí já não abordava tanto a questão da descida de divisão, mas o aumento para 18 times na Liga Portuguesa. “O alargamento terá de ser resolvido, é irreversível”, disparou ao site Mais Futebol o presidente do Oliveirense, José Godinho.
Convenhamos que – em que pese o argumento de Fiúza – um novo erro não justificaria outros tantos já feitos no futebol do país, e que anular o rebaixamento dos dois últimos colocados seria uma virada de mesa vergonhosa. Desta forma, a discussão mais válida é mesmo sobre elevar ou não o número de times na primeira divisão. Ainda assim, a posição dos clubes menores soa mais como uma tentativa de mostrar força contra os grandes do que para “gastar menos com férias”. Faz algum sentido. Hoje, por exemplo, a distribuição das cotas de TV é cruel em Portugal: 70% da verba vai para Porto, Benfica e Sporting, enquanto os outros 30% são divididos pelos 29 clubes que pertencem às duas divisões principais do país.
No entanto, será que alargar a Liga Portuguesa é a melhor saída para dar fim a desigualdades? Nessa mesma Assembleia, o presidente Mario Figueiredo afirmou que iria protestar para que a Liga seja a única negociadora dos direitos televisivos da primeira divisão, ao invés de estes serem acertados com os próprios clubes – ideia rejeitada por Benfica e Porto no encontro, por razões óbvias e evidenciadas no montante aos quais eles hoje têm direito. Se a LPFP de fato assumir essa negociação (que realmente tem condições de ser interessante), a parcela que caberá aos pequenos será tão superior assim à atual, visto que haverá dois times a mais para dividir uma grana que – diga-se – seguirá dominada pelos grandes?
Pode até ser, de fato, significativamente superior. Mas a ponto de compensar os quatro jogos a mais a serem feitos na temporada – que, fatalmente, darão mais prejuízo do que lucro? Basta lembrar que a média de público de 11 dos 16 times da primeira divisão não chegou aos 10 mil pagantes na temporada passada, e que as cinco piores médias da elite das seis principais ligas europeias em 2010/11 foram exatamente de times portugueses, como mostrou a revista Placar em outubro. Além disso, se com 16 clubes o nível técnico do torneio já é escasso – tornando-o, de quebra, pouco atraente para transmissões no exterior – mudará muita coisa com 18? Resumindo: vale MESMO a pena o alargamento?
Restam poucos jogos e o risco de punições futuras (não federativas, mas políticas) deve acalmar os “rebeldes”, pelo menos até o fim da temporada. Daí em diante, a tendência é de que o assunto volte com força. Contudo, mais que o alargamento, talvez valesse aos clubes menores discutirem com mais intensidade a distribuição das cotas de TV — defendendo, por exemplo, a proposta de que os times que optarem em manter equipes “B” na Liga de Honra não fossem incluídos na divisão de direitos de transmissão da divisão, mantendo o dinheiro realmente entre os pequenos — e formas para, de forma conjunta, buscarem outras fontes de renda. Planejamento e objetivos condizentes com a realidade ainda são um (óbvio, porém pouco usual) caminho mais consistente do que discussões que geram mais interrogações do que certezas. Braga e Marítimo, em diferentes proporções, vêm comprovando essa tese.
Temos um candidato
Não se fala aqui do Braga, que chegou a sua 12ª vitória seguida no Campeonato Português e permanece colado a Porto e Benfica na briga pelo título. Mas do Sporting, que espantou a Europa na última semana ao eliminar o milionário e poderoso Manchester City da Liga Europa. Em que pese times como Valencia e Atlético de Madrid ainda estarem vivos no torneio, é fato que o resultado sobre os ingleses credencia os portugueses a concorrerem ao troféu. Porém, além da natural importância da classificação às quartas do torneio europeu, a vaga arrebatada diante dos Citizens foi celebrada em Portugal como o triunfo da humidade sobre a soberba. O que, de alguma forma, não deixa de ser verdade.
Antes do duelo de ida, em Alvalade (vencido pelo Sporting por 1 a 0), o discurso de Edin Dzeko, de que não conhecia nenhum jogador dos Leões, não foi bem recebido na terrinha – algo como a imagem de Didier Drogba fazendo ironicamente sinais de assustado ao saber que o Chelsea enfrentaria o Benfica na Liga dos Campeões. Em campo, os ingleses também não foram sombra do time que disputa acirradamente o título da Premier League com o Manchester United. Na partida de ida, caíram na bem armada formação de Ricardo Sá Pinto. Nos 45 minutos iniciais da volta, voltaram a ser superados pela aplicação tática e determinação sportinguista. E o 2 a 0 na etapa inicial na Inglaterra poderia até ser mais elástico.
No segundo tempo, o City foi mais próximo do City que todos conhecem. O Sporting fez 15 minutos muito bons, mas sofreu nos 30 seguintes. Nem tanto por jogar mal, mas porque a diferença técnica entre os dois times, enfim, estava evidente. Os mancunianos viraram e, no último lance do jogo, Rui Patrício salvou uma cabeçada do goleiro (!) Joe Hart que poderia selar a classificação dos ingleses, mas que acabou confirmando a vaga europeia aos Leões – que, exaustos e em uma atuação fraca, foram facilmente derrotados pelo Gil Vicente, ficando ainda mais distante do G3 que qualifica a próxima Liga dos Campeões. Ao que parece, no entanto, o foco do Sporting agora é outro: conquistar o continente pela Liga Europa.
O colunista não modificou a opinião de que a diretoria errou ao demitir Domingos Paciência naquele momento. O trabalho do ex-técnico do Braga deixava a desejar, mas mandá-lo embora era repetir a sequência de quebras de projeto realizadas em gestões anteriores no Sporting. Contudo, há de se admitir que o presidente Godinho Lopes tem estrela. Afinal, Sá Pinto vem apresentando um trabalho bastante sério em Alvalade. Recuperou o grupo – que parecia escapar das mãos de Domingos – e o acertou defensivamente. Acertou, inclusive, em apostar na dupla Xandão e Anderson Polga no miolo, com Daniel Carriço a primeiro volante. Se os Leões hoje são também favoritos à Liga Europa, muito disso se deve a Sá Pinto.
Curtas
– O Benfica é o primeiro finalista da inodora Taça da Liga, ao derrotar o Porto por 3 a 2, dando fim a uma série de resultados ruins contra o rival na Luz — casos da derrota que culminou no título português aos Dragões na última temporada (e que ficou marcada pelos encarnados terem “apagado a luz” do estádio) ou do recente 3 a 2 válido pelo campeonato nacional, que recolocou os portistas na liderança. As Águias agora aguarda o vencedor do confronto entre Braga e Gil Vicente, que ocorre nesta quinta. É a quarta vez consecutiva que o Benfica alcança a final da Taça da Liga — é o atual tricampeão do torneio.
– Na Liga de Honra, o Estoril segue firme rumo a primeira divisão. No final de semana, a equipe bateu o União da Madeira por 1 a 0 e foi a 48 pontos, oito a frente do vice-líder Desportivo Aves, que também venceu na rodada: 2 a 0 sobre o Santa Clara. Ainda vivos na briga pelo acesso à elite estão Moreirense (que fez 3 a 1 no Penafiel e foi a 38 pontos, em terceiro) e Naval (derrotou o Trofense por 2 a 1 e atingiu 37 pontos, em quarto). O Belenenses, por sua vez, respirou ao superar o Oliveirense por 2 a 1 e rumar a 26 pontos, em 12° lugar, um ponto a frente da zona de rebaixamento, encabeçada pelo Freamunde.
– O Boavista deve permanecer mais um ano na terceira divisão de Portugal. Campeão nacional em 2001, os axadrezados ficaram apenas no 1 a 1 com o Amarante, em casa, e atingiram só 43 pontos, ficando a nove de Tondela e Espinho, líderes da chave Centro da competição com 52 pontos (o Tondela está a frente no saldo de gols). Apenas o campeão dos três grupos (Centro, Norte e Sul) chega ao triangular final. Na chave Norte, o Varzim lidera com 52 pontos, seis a frente do vice-líder Chaves. Já no equilibrado grupo Sul, a ponta é do Toreeense com 48 pontos, dois diante do Oriental. Carregado (45) e Fátima (45) ainda estão vivos.



