Um ano em branco para o Sporting

O Sporting entra em campo no próximo domingo, 24 de maio, para encerrar sua participação na temporada 2008/2009. Enfrenta em casa o Nacional, da Ilha da Madeira, em jogo válido pela última rodada do Campeonato Português. O segundo lugar do campeonato já está assegurado para os Leões. No entanto, a equipe de Alvalade corre o risco de contar com apenas dois goleiros e nove jogadores de linha do elenco profissional para atuar nessa partida. Os atletas restantes estão contundidos ou suspensos, o que obrigará o técnico Paulo Bento a recorrer a juniores.
Mais uma vez, este colunista chegou a apontar em 2008 os Leões como os maiores favoritos ao título nacional, já que a equipe havia mantido praticamente a mesma estrutura da temporada anterior. Só que, mais uma vez, este colunista equivocou-se ao superestimar o poderio sportinguista. Chegar ao fim do campeonato sem elenco para disputar o último jogo da época é um retrato bem acabado do que foi a temporada do Sporting: nenhum título conquistado e um vexame europeu de antologia, vivido na eliminatória da Liga dos Campeões com o Bayern de Munique (um gol feito contra 12 sofridos).
De bom mesmo, apenas a segunda colocação no campeonato nacional, o que dá aos Leões o direito de disputar a pré-eliminatória da próxima Liga dos Campeões (LC). Espera-se apenas que a agremiação tenha maior estofo para não sofrer novo vexame nas competições européias na próxima temporada. Portugal vai necessitar muito das boas prestações de seus clubes nas competições continentais, de forma a melhorar seu coeficiente e angariar mais vagas na LC ou na próxima Liga Européia.
Os maus resultados em campo do Sporting refletem ainda a instabilidade política que o clube vem atravessando nos últimos meses, com dirigentes e ex-dirigentes trocando insultos em público. Os sócios escolherão em breve o novo presidente leonino, e a cada semana surge um potencial e novo candidato, messianicamente apresentado ao público. Outros candidatos são agredidos apenas por manifestarem a intenção de concorrer ao pleito. Não é à toa que, no próximo domingo, faltem até jogadores para encerrar a temporada de maneira mais tranquila.
O adeus de Figo
A semana que passou também fica marcada pelo anúncio de aposentadoria do jogador Luís Figo, coincidentemente revelado ao futebol profissional no mesmo Sporting. Não teve o virtuosismo de Cristiano Ronaldo, nem a maestria de Rui Costa ou a eficiência de Eusébio. Mas Figo reuniu ao longo de sua carreira alguns predicados que faltaram aos três anteriores: o poder de liderança junto ao elenco e aos treinadores, aliado a uma disciplina tática de dar inveja a qualquer um. É impressionante notar como as equipes em que Figo atuou sempre contaram com esquemas táticos azeitados, em equilíbrio perfeito entre defesa e ataque.
A imprensa brasileira nunca morreu de amores por Figo. Também pudera: o português sempre foi avesso às badalações e ao marketing fácil. Além disso, em sua época na Espanha, teve que rivalizar as preferências com Ronaldo, Rivaldo, Beckham, Roberto Carlos e Zidane – só para citar alguns. Mas Figo sempre foi um vencedor, em todas as equipes por que passou. Nos tempos do Barcelona, por exemplo, foi alçado a capitão num time repleto de holandeses, a começar pelo técnico. E é ainda o recordista histórico de presenças na seleção portuguesa, com 127 partidas disputadas.
A expressão sisuda e casmurra de Figo também fez com que o jogador colecionasse detratores no próprio país. Nunca teve unanimidade em Portugal – um pouco por ter sido revelado pelo Sporting, o que automaticamente gerou rejeição dos benfiquistas, a maior torcida do país. Algo que só piorou com a saída conturbada do Barcelona e o acerto com o Real Madrid, episódio que contribuiu para criar a pecha de “pesetero” e mercenário, algo contra o qual o jogador nunca se esforçou em lutar. A Seleção de Portugal é uma antes de Figo e outra depois de Figo. Cogita-se que ele poderá assumir futuramente a presidência da Federação Portuguesa de Futebol. Será uma bela oportunidade de ele poder continuar dando seu contributo ao futebol de seu país.
Golo de Letra
Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.
(Poema de Eugénio de Andrade)



