Último capítulo?

O encontro entre Portugal e Finlândia no próximo dia 21 de novembro, pela última rodada do Grupo A das Eliminatórias para a Eurocopa-2008, não poderia ser mais simbólico. A partida marca a volta do técnico Luiz Felipe Scolari, após suspensão de três jogos em virtude do “affair” com o sérvio Dragutinovic. Mais do que isso, trata-se do retorno de Felipão ao Estádio do Dragão, de propriedade do FC do Porto, cujo presidente (o lendário Pinto da Costa) foi desde sempre um dos maiores opositores do treinador. E, para completar o script, o jogo decide a segunda vaga do grupo – e Portugal está proibido de perder, sob pena de protagonizar o maior vexame de sua história futebolística.
As contas são fáceis de serem feitas: com 26 pontos e o segundo lugar do Grupo A, Portugal classifica-se com um mero empate, já que a Finlândia aparece em terceiro com 23 pontos (a Polônia, com 27, já garantiu uma das duas vagas da chave). Se perder para a Finlândia em casa, Portugal simplesmente dá adeus à Eurocopa. Ao contrário do que foi noticiado por alguns veículos no Brasil, o primeiro critério de desempate das eliminatórias não é o saldo de gols (Portugal tem hoje um saldo positivo de 14, contra apenas 6 dos finlandeses), mas sim o confronto direto. Como o jogo na Finlândia acabou em 1 a 1, a seleção nórdica fica com a vaga se fizer apenas 1 a 0 no Dragão.
Quem ainda corre por fora nessa história é a Sérvia, que tem 20 pontos e ainda dois jogos a realizar em casa (a partida com o Cazaquistão, prevista para o último dia 17, foi adiada para o dia 24 de novembro, em virtude das fortes nevascas que atingiram a capital Belgrado). Se a Finlândia vencer Portugal, a Sérvia fica com a vaga desde que vença a Polônia (dia 21) e o Cazaquistão. Teríamos um tríplice empate na segunda colocação do grupo, e a Sérvia levaria vantagem por ter empatado duas vezes com Portugal e vencido a Finlândia uma vez e empatado a outra. E o que os Tugas têm a ver com essa história? A obrigação de não repetir o que fizeram diante da Grécia na Eurocopa-2004.
Será a despedida de Scolari em Portugal?
É óbvio que, se a equipe lusa perder em casa, Felipão será sumariamente demitido no mesmo dia por Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Depois da alegada agressão a Dragutinovic no Portugal 1 x 1 Sérvia, em Lisboa, Scolari viu sua imagem arranhada como nunca junto à opinião pública lusa. Sua permanência à frente dos Tugas, mesmo se conseguir a classificação para a Eurocopa, ainda é uma incógnita – e há quem diga que essa partida, de fato, será a despedida do brasileiro. Para embaralhar o cenário, os adeptos do Porto não deverão poupar o time se a exibição for insatisfatória – à semelhança do que já ocorreu em Leiria, no fraco 1 a 0 sobre a Armênia no último sábado (17 de novembro).
A favor de Scolari está o fato de o treinador saber preparar com maestria suas equipes para uma partida como essa, contra a Finlândia. Ao contrário do que ocorreu nas duas derrotas para a Grécia na Eurocopa de 2004, Portugal não tem agora a obrigação de vencer. E dificilmente o time repetirá uma exibição pouco convincente como a que fez com a Armênia – quando ainda foi beneficiada pela arbitragem, que poderia perfeitamente ter assinalado um pênalti de Ricardo quando o jogo ainda estava no 0 a 0. Agora, engana-se quem achava que a Armênia seria um adversário fácil, pois ela causou encrenca para as quatro primeiras seleções do Grupo A: em casa, ganhou da Polônia e empatou com Portugal, Sérvia e Finlândia.
De qualquer forma, Portugal deixou para a última rodada algo que já poderia estar resolvido há muito tempo. Nenhuma seleção do grupo mostrou atributos para assustar, e o nivelamento por baixo foi a marca. A Finlândia, por exemplo, venceu a Polônia fora de casa por 3 a 1, mas também perdeu em casa para Sérvia por 2 a 0. A Sérvia, por sua vez, perdeu para o Cazaquistão e para a Bélgica, fora de casa. Se os Tugas não tivessem cedido o empate nos últimos minutos dos jogos que fez em Lisboa com a Polônia e a Sérvia, no mês de setembro, a vaga já estaria garantida. A dificuldade de manter um time base, entretanto, pode explicar essa instabilidade.
Portugal paga um preço alto pela renovação
Mais uma vez, é preciso reconhecer as dificuldades que Scolari vem tendo após Figo ter anunciado sua aposentadoria compulsória da seleção – o que causou um vácuo de liderança em campo ainda não suprido. Mas o técnico brasileiro já tem uma obra fortemente consolidada à frente dos Tugas: primeiro, renovou um elenco envelhecido e viciado que disputou a Copa de 2002, e foi responsável pela união do país em torno da seleção em 2004, na Eurocopa – a despeito do fracasso na final. Agora, sofre com outra renovação, em busca de valores que possam suprir o grupo que disputou a Copa de 2006.
Dos jogadores que têm sido convocados, nada menos do que 12 não estiveram no Mundial da Alemanha – e todos têm condições de figurar no elenco que – espera-se – esteja na Eurocopa em 2008. São eles: Bruno Alves, Pepe, Bosingwa, Jorge Ribeiro, Abel, Raul Meireles, Miguel Veloso, Manuel Fernandes, Quaresma, Nani, Hugo Almeida e Makukula. Além deles, a pergunta que fica é se o próprio Felipão estará à frente de Portugal após este 21 de novembro. Tudo depende, também, dos acertos com Gilberto Madaíl, que inclusive tem defendido, ainda que timidamente, a candidatura de Portugal para a Copa de 2018. Se levado a cabo, o projeto faria com que dois Mundiais seguidos acontecessem em países de língua portuguesa. Não custa sonhar, nem com uma, nem com outra possibilidade.
Golo de Letra
Lembro-me das noites em que me fazem deitar
tão cedo e te oiço bater, chamar e bater,
na fresta da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
Vem agora,
no bico dos pés
para que eles não te sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
Bons dias, amigo.
(Trecho do poema “Carta de amigo”, de Carlos de Oliveira)



