Portugal

Tudo embolado

É dito que quanto mais molho for colocado numa história, mais gostosa ela fica, seja para a imprensa, seja para quem a acompanha. E, pelo menos na atual temporada, tanto a mídia portuguesa quanto os torcedores não tem muito que reclamar. Apesar das (eternas) denúncias de favorecimento a equipes A ou B, não se pode negar o equilíbrio da Liga Sagres até o momento, com disputas em todos os blocos e o principal: com uma dificuldade imensa em se apontarem favoritos.

A última rodada foi crucial para reforçar esse equilíbrio, já que o Porto mostrou porque não pode ser tão facilmente descartado da disputa pelo título, e aplicou inapeláveis 5 a 1 na sensação Braga. Uma vitória de um time que ficou 90% do tempo no campo do adversário — que, no jogo em que precisava se portar como o postulante ao troféu que realmente é, atuou mais recuado do que deveria. Um resultado que levou o Dragão aos 43 pontos e a apenas seis do líder, com quem ainda jogará, e em casa.

Acontece que esse líder também demonstra estar no alto do seu melhor equilíbrio. A goleada sobre o Hertha Berlim, pela Liga Europa, foi mais uma mostra do poder de fogo do Benfica na atual temporada, agora ainda mais motivado por ter assumido a liderança do campeonato graças à vitória portista sobre os bracarenses. Os encarnados têm contado, também, com a estabilidade da equipe, defensiva e ofensivamente. Não à toa, é o time mais valorizado financeiramente hoje em Portugal.

Por sua vez, líder em 18 das 20 rodadas, o Braga vê o cenário que mais temia se formar: além de perder a ponta para um motivado Benfica — e ainda precisar encarar as Águias na Luz —, sofreu nas mãos do outro rival na briga pelo título, que também vem inspirado. Não bastasse, os arsenalistas já há dois jogos apresentam um futebol fraco, sentindo claramente a falta de Vandinho, ainda suspenso em virtude do já aqui comentado caso do túnel no Braga-Benfica do primeiro turno.

No desenho da briga pelo título, é natural que encarnados e portistas pintem como os candidatos mais fortes, já que os bracarenses precisarão, literalmente, juntar os cacos do massacre sofrido no Dragão. A diferença de pontos para o concorrente mais tradicional (seis), além da vantagem parcial no confronto direto, e o fato de encarar o Braga em casa dão uma margem de manobra melhor ao Benfica, ainda que o passado do clube das Antas seja mais positivo em momentos decisivos, e isso coloca pressão na Luz.

Por sua vez, o Porto tem uma nova chance de ganhar mais gás para essa briga, já nessa rodada. O time encara o combalido Sporting em Lisboa, e, mesmo visitante, é disparado o grande favorito, inclusive pela péssima fase dos rivais verdes da capital. Mesmo assim, triunfar (novamente) contra os Leões seria um plus à ascensão da equipe iniciada em janeiro, além de, matematicamente, também ser relevante, já que os benfiquistas ainda enfrentarão os sportinguistas no returno. Fatalmente, pressionados a vencer.

Independente disso, é interessante avaliar que, por mais que o ambiente seja mais propício a uma disputa entre Benfica e Porto, o Braga não pode ser descartado. Não somente pela questão matemática (tem 48 pontos, está um atrás dos benfiquistas e cinco a frente dos portistas), mas porque já mostrou que, em condições normais, tem time para seguir na briga até o fim. Além disso, os arsenalistas estão com o foco somente na Liga Sagres, enquanto os rivais dividem-se nas competições européias.

Bloco seguinte

Decididamente, ver dois grandes e um considerado médio juntos numa briga acirrada assim é um cenário positivo ao futebol português, já que disputas com essa natureza movimentam estádios, colocam equipes que nem sempre têm mídia na boca do povo e deixam a própria liga mais animada. E, naturalmente, se dentre os três candidatos, não está o outro clube grande, é sinal de que este está envolvido em outra disputa — dando também um bom espaço na mídia para esta outra frente da tabela.

É o que acontece com o Sporting, 4º colocado e que está no que pode ser considerado o “segundo bloco” da competição. Com só 29 pontos, os Leões distam apenas três do 9º colocado, o Paços de Ferreira, e ocupam a última vaga portuguesa para a Liga Europa 2010/11. A fase é tão ruim e o futebol apresentado pelos lisboetas é tão fraco que “perdeu-se o respeito”, por assim dizer, e União de Leiria, Vitória de Guimarães, Marítimo, Nacional e mesmo o Paços já falam abertamente que também são candidatos à Europa.

A “arrogância” dos médios-pequenos faz sentido, especialmente após a partida medonha do Sporting frente a Olhanense, em que os rubro-negros do Algarve perderam pelo menos duas chances claras, na segunda etapa, de matar o jogo. À bem da verdade, o time da capital só não caiu do 4º lugar ainda porque já há pelo menos três rodadas os concorrentes diretos tropeçam na hora H. O que, aliado às patinadas sportinguistas, permitiu que novos times entrassem na luta pela última vaga européia.

Nesta rodada, porém, uma derrota para o Porto, em Alvalade, pode ser decisiva para tirar o Sporting do 4º lugar, já que Leiria e Guimarães se enfrentam e podem, ou ultrapassar os lisboetas, ou encostar de vez no rival, a quem ainda enfrentarão — Vitória e Sporting jogam, em Lisboa, em duas rodadas. Mais: olhando atentamente para a tabela, a ascensão de Acadêmica e Naval, que, teoricamente, brigam contra o rebaixamento, são perceptíveis e dão mais “molho” à briga. Hoje, o clube de Figueira da Foz, 12º colocado, está somente cinco atrás dos Leões.

Dos concorrentes mais diretos, três merecem uma atenção especial. Tecnicamente mais limitado, o Paços de Ferreira vem motivado: ainda não perdeu neste ano, e já arrancou empates contra Porto (fora) e o próprio Sporting (casa). Se ofensivamente, não tem brilhado, defensivamente, os Castores têm destacado, em especial com Leonel Olímpio e Maykon. Também em alta está o Leiria, ainda na toada do fantástico acesso de divisão na temporada passada, conquistado após um segundo turno quase perfeito na Vitalis.

O Guimarães, por sua vez, surge com o time, no papel, mais forte, ainda que seja também o mais irregular. O clube vive um 2010 complicado, com apenas duas vitórias — a última delas na rodada passada — e um pesado clima em virtude de suas eleições internas. É, no entanto, o mais “tradicional” dentre os adversários leoninos rumo à Europa, e conta com nomes razoáveis no meio, como Desmarets e Nuno Assis (ex-Benfica), embora peque pela falta de centroavantes de qualidade. Sem contar que, pelas recentes declarações à imprensa, é quem mais acredita ser possível bater o Sporting.

É evidente que, nesse bloco, o favoritismo para essa única vaga é sportinguista, haja vista a tradição e a estrutura do clube lisboeta, além deste ter um elenco mais “completo” que os outros cinco pleiteantes. Mas o desenho — e aqui, com ainda mais incertezas que no bloco “superior” do campeonato — é ainda mais abstrato e de final imprevisível. Mais do que o poder de fogo das equipes, será testado, daqui em diante, o psicológico. Como se sabe, algo que faltou muito ao Sporting nesta temporada.

É justamente por isso que o lema da Libertadores “si, se puede” está mais forte do que nunca em Portugal. O que, no fundo, é, como a própria manutenção da “interferência” do Braga na briga do título, bom para o futebol luso, já que incentiva clubes antes sem grandes perspectivas a, ao menos, sonhar em ir um pouco mais além do simples “jogar para competir”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo