Portugal

Trancos e barrancos

Os dois últimos jogos do Sporting na temporada tiveram desfechos bastante significativos. Pela Taça da Liga, na primeira partida do ano, o time criou pouco, mas graças a um gol salvador, de fora da área, do volante Miguel Veloso, superou o Braga por 2 a 1. Já no último final de semana, pela Liga Sagres, a armação foi melhor, mas o ataque esteve em dia tétrico, e o goleiro Diego, do Leixões, em noite quase perfeita. Quase, pois coube ao zagueiro Tonel, aos 39 do segundo tempo, salvar os leões do que seria um vergonhoso empate em casa.

Mais do que a vitória, a forma como elas vieram — como o próprio título diz, aos trancos e barrancos — tem sido uma constante nos últimos meses em Alvalade, e ilustram bem a temporada leonina: sofrida, difícil, e imprevisível, além de bem aquém do esperado para um dos três grandes portugueses. Falar em título é assunto quase proibido. Em quarto lugar, o clube está 12 pontos atrás dos líderes Braga e Benfica, além de outros oito por alcançar para se igualar ao Porto. E ao que parece, garantir um posto na Liga Europa deverá ser o máximo que o Sporting alcançará.

O sufoco sportinguista já foi pior, é verdade. Quem acompanha um pouco do futebol português, lembra do fraco início de campeonato leonino. Mesmo mantendo a base vice-campeã em 2008/09, o Sporting não conseguiu transformar o entrosamento em resultado. A dificuldade de Paulo Bento em encaixar seu criticado esquema, com um losango no meio-campo, aliado ao que o próprio treinador, após deixar Alvalade, confessou existir — uma instabilidade emocional em virtude da boa fase do Benfica — praticamente inviabilizaram a temporada.

A chegada de Carlos Carvalhal deu novo ânimo ao elenco e promoveu algumas mudanças na equipe, como a saída de Anderson Polga do time titular (e a afirmação do jovem e promissor Daniel Carriço), a manutenção de Grimi como lateral esquerdo, a entrada de Adrien Silva no time titular e, inicialmente, a colocação de Liédson como atacante único (o que mudou nas últimas partidas, com a volta de uma dupla na frente). Porém, mesmo com a aparente evolução na defesa e a melhora na armação de jogadas, um ponto segue sob desconfiança: justamente o ataque.

Para jogar ao lado de Liédson, o Sporting já tentou de tudo. Caicedo foi tão mal que na presente janela de transferências, foi negociado com o futebol espanhol. Helder Postiga, também tétrico, não marcou gols até o momento na temporada. O limitado Yannick Djaló teve que se desdobrar, e, mesmo sendo ponta, precisou atuar muitas vezes mais preso no ataque. O resultado, como era de se esperar, não foi positivo. Hoje, é Saleiro que tem sido aposta na frente, e embora tenha agradado a Carvalhal, ainda não inspira confiança ao torcedor, bem como Sinama-Pongolle, contratado recentemente.

Com a decifiência ofensiva, um dos reflexos naturais é a escassez de gols, visível nas estatísticas da competição. Em 15 jogos, foram apenas 16 tentos, sendo nove deles de jogadores não-atacantes. Mesmo Liédson, antes indiscutível e ídolo, já recebe críticas pela baixa produtividade: somente 4 gols, em 14 partidas. A consequência é clara: jogos duros, mesmo contra rivais de baixíssimo nível técnico, com as ações concentradas principalmente no campo adversário, mas sem objetividade e, principalmente, tranquilidade — para jogadores, técnico e torcedores.

O consolo sportinguista tem sido a recuperação na equipe na tabela, apesar das dificuldades, com triunfos como contra Naval, Leixões e Vitória de Setúbal. Encerrar em quarto lugar o primeiro turno não foi o planejado no início do certame. No entanto, o retorno das vitórias e o fato de ainda ter a Liga Europa pela frente (onde também avançou aos trancos e barrancos, ainda que por antecipação), além das taças da Liga e de Portugal, dão esperança aos leões para que sigam acreditando no final feliz possível para a temporada, por mais difícil que isso possa parecer ser, por enquanto.

Eternamente em crise

Erros de arbitragem e decisões pós-jogo polêmicas são comuns (às vezes, mais do que deveriam) em todos os lugares do mundo. Em Portugal, porém, desde o escândalo do Apito Dourado, todo e qualquer deslize ou decisão são motivos para se suspeitarem de novos complôs a favor de times A ou B. E o que não faltou na atual temporada, com exemplos nas últimas semanas, foram mais erros e polêmicas. O Benfica reclama, por exemplo, que Porto foi beneficiado no duelo contra o Leiria pela expulsão inexplicável do goleiro Djuricic.

Os portistas, por sua vez, afirmam que os dois tentos anulados no confronto supracitado foram equivocadamente avaliados pela arbitragem. O atual tetracampeão estendeu as críticas à Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), lembrando da suspensão preventiva a Hulk e Sapunaru, por supostamente terem agredido seguranças após a derrota do clube das Antas para os encarnados. Curiosamente, o presidente Pinto da Costa, principal nome do caso Apito Dourado, chegou a exigir a abertura do “Apito Encarnado”, em alusão a supostos benefícios das arbitragens ao Benfica.

A situação está tão complicada que nesta semana, o presidente da comissão de arbitragem, Vitor Pereira, assumiu que “as coisas não andam bem”. Mais: declarou à mídia lusa que “houve desempenhos que não cumpriram com a missão de garantir imparcialidade no jogo”. Desnecessário lembrar que, via de regra, os erros geralmente beneficiam os grandes, e que, até por isso, quando os mesmos acabam sendo prejudicados, cria-se uma polêmica inútil. Haja vista a eterna discussão proveniente da final da Taça da Liga do ano passado, em que o Sporting ainda reclama a marcação do pênalti cometido por Pedro Silva.

Mais do que descobrir culpados, o grande desafio da LPFP e da comissão de arbitragem é apagar a imagem de que ambas estão ensopadas de corrupção. O pensamento desconfiado por parte de torcedores e, como se vê, dirigentes, não é recente, mas volta à tona com as acusações que são feitas na mídia. Cabe também aos próprios clubes colaborarem, sejam eles quais forem, deixarem de elocubrar hipóteses e jogá-las ao ventilador, por vezes, para ganhar destaque. A recuperação do futebol de clubes luso no cenário europeu passa pela resolução desse entrave, bem como uma maior especialização dos homens de preto, que têm errado mais do que o aceitável. 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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