Portugal

Timoneiros da nau portuguesa

Quando Portugal foi derrotado pela Dinamarca há um mês, na partida que custou a classificação direta para a Eurocopa do ano que vem, este colunista alertou aos que já pediam a cabeça do técnico Paulo Bento: muita calma nessa hora. O tropeço na Escandinávia, em que pese a atuação ruim dos tugas naquele jogo, pode ser considerado normal e à bem da verdade, não fora exatamente decisivo para que a equipe precisasse do playoff – afinal, não fossem os dois pontos perdidos em casa para o inexpressivo Chipre, antes da chegada do treinador, a seleção das Quinas já estaria garantida na Euro. Além disso, a evolução da equipe desde que o comandante assumiu, em setembro de 2010, dava as credenciais para se acreditar que, diante da Bósnia, os portugueses eram francos favoritos para avançarem.

Na última terça-feira, o “alerta” acabou se confirmando e Portugal fez o que, no fundo, dele se esperava: passou sem grandes dificuldades pelo rival e carimbou o passaporte para o torneio na Ucrânia e na Polônia. O 0 a 0 do jogo de ida, na verdade, mascara o que foi a partida. Mesmo em um gramado ruim, os portugueses atuaram muito bem, dominaram as ações e criaram as melhores oportunidades. No Estádio da Luz, porém, a seleção das Quinas mostrou estar bem mais a frente dos bósnios do que se dizia com base nas memórias de 2009, quando Portugal passou enorme sufoco para passar pela Bósnia e se garantir na Copa do Mundo. E nessa “ressurreição” pós-Copa dos tugas, dois nomes despontam como símbolos deste verdadeiro “vira”: Cristiano Ronaldo e o próprio Paulo Bento.

O atacante é, talvez, o melhor espelho desta retomada. Até o Mundial da África do Sul, cobrava-se muito Ronaldo por uma atuação que fizesse jus a seu status. Na Copa, o jogador foi uma grande decepção. Tecnicamente, esteve muito longe do jogador que era por seu clube. Em campo, acabou enquadrado como um atleta pouco focado no objetivo do grupo e mais atento na meta de voltar a bater Lionel Messi na Bola de Ouro. Até por isso, foi muito contestado – inclusive por este colunista, que creditou-lhe uma parcela razoável da pífia atuação de Portugal na Copa. Afinal, ainda que prejudicado pela formação de Carlos Queiroz, era preciso que o camisa 7, como astro e capitão do time, mostrasse aplicação e passasse confiança para os companheiros. Algo que, na África, não ocorreu.

Então, Ronaldo acordou com a camisa rubro-verde. Começou a emplacar atuações muito boas – algumas de grande destaque, como no 6 a 2 de terça-feira – pela seleção. Nem tanto como o goleador que é pelo Real Madrid, mas pela presença ofensiva que impôs, ajudando na articulação do ataque e, quando necessário, aproximando-se dos meias para ajudar na armação. Sem a bola, passou também a ser um marcador, e ver o jogador dividir com zagueiros, cena antes rara com a “camisola” portuguesa, virou costume. E é aquela história: quando o capitão e grande estrela dá o exemplo, o time ganha em motivação. Não que a seleção seja dependente de Cristiano – e diferente de pouco tempo atrás, não é – mas é fato que, quando Ronaldo está bem, Portugal acaba indo muito bem também.

Não bastaria, porém, Ronaldo voar em campo se a equipe estivesse desorganizada ou acanhada. Quando Queiroz deixou o cargo de técnico, estava claro que era necessário um comandante capaz de alavancar a confiança dos jogadores e dar um padrão de jogo ao time. O nome prioritário era, logicamente, José Mourinho. O “Special One” até mostrou interesse na aventura, mas o Real Madrid não topou “dividí-lo” com Portugal. O plano B, acabou sendo Paulo Bento. Treinador esse com apenas quatro anos de experiência no cargo, somente um clube no currículo (Sporting), poucas conquistas (duas Taças de Portugal) e marcado não exatamente por ser um motivador – haja vista o abatimento dos jogadores leoninos com a grande fase do Benfica em 2009/10, admitida pelo próprio treinador.

Mas Paulo Bento deixou para trás os questionamentos quando começou a implantar seu trabalho na seleção. Taticamente, manteve o 4-3-3, mas recuperou o meio-campo, retornando Pepe para a zaga e apostando em volantes com saída de jogo e meias de aproximação com o ataque. Isso deu mais liberdade a Ronaldo e Nani e valorizou um jogo com mais toque de bola, mas também velocidade. Outro ponto foi a preocupação em que a equipe buscasse impor o próprio jogo diante do rival. Foi assim com a Espanha, no histórico 4 a 0 de um ano atrás: Portugal anulou o “tiki-taka” espanhol e, com os meias aproximando-se dos atacantes e a liberdade aos pontas, sufocou a campeã do mundo. E um terceiro destaque é a manutenção de uma base, com menos de 40 jogadores convocados em mais de um ano.

O caminho, apesar de tudo, teve percalços. Primeiro, a abrupta saída de Ricardo Carvalho, após o defensor recusar ser reserva de Pepe – e depois mostrar algum “arrependimento” com a forma que deixou a delegação antes dos jogos finais da fase de grupos. Depois e mais recentemente, a decisão de Bosingwa em não mais defender a seleção enquanto Paulo Bento fosse o técnico, após ter sido preterido na convocatória para os jogos contra a Bósnia por opção do treinador, que acusou o lateral de ter simulado uma lesão para não enfrentar a Argentina, em fevereiro – algo que Bosingwa diz ser uma “insinuação falsa”. Em ambos os casos, porém, o comandante acabou saindo por cima, com as afirmações de Pepe na zaga e de João Pereira na lateral direita, e o apoio do elenco.

Os resultados apareceram, reforçando a importância tanto de Paulo Bento como de Cristiano Ronaldo para o grupo. Já contando os jogos contra a Bósnia, foram 13 partidas, com 9 vitórias, 2 empates e apenas 2 derrotas – além do tropeço contra a Dinamarca, houve um 2 a 1 vendido muito caro a Argentina – 74,35% de aproveitamento, portanto. Ao todo, são 35 gols marcados (2,7/partida) e 12 sofridos (0,9/partida). Com 9 gols, Ronaldo é o principal “matador” da “era Bento” – ultrapassando Luís Figo e se tornando o terceiro maior artilheiro da história d'Os Navegadores com 32 gols. Também foram às redes Postiga (7), Nani (5), Hugo Almeida (4), Ruben Micael (2), Carlos Martins, Raul Meireles, João Moutinho, Eliseu, Silvestre Varela, Fábio Coentrão, Miguel Veloso e Danny.

Com isso tudo, naturalmente, vem a questão: até onde Portugal pode ir? Se em 2010 havia um discurso (utópico) na terrinha de que a seleção deveria se comportar como candidata a título pela presença de Cristiano Ronaldo, agora enquadrar os portugueses na lista de concorrentes reais ao caneco europeu não é exagero. Pelo futebol que a equipe das Quinas tem apresentado, e a determinação de Ronaldo com a camisa rubro-verde, é difícil enumerar muitas outras seleções que estejam melhores que os tugas. Os alemães, sim. Mas será que a Holanda está tão a frente? Ou mesmo a Espanha? Mais do que a vaga europeia conquistada em Lisboa, Portugal tem recuperado respeito no Velho Continente enquanto seleção. E, como em 2004, quando sediu o torneio, já se permite novamente sonhar alto.

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Equipe Trivela

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