Sob nova direção

Os quatro títulos em cinco campeonatos levaram o Porto a ser um dos grandes destaques da temporada europeia recém-findada e elevaram André Villas-Boas de técnico promissor em Portugal ao de um dos principais treinadores do continente. Até por isso – e pelas inacabáveis comparações com José Mourinho -, uma eventual saída sua para uma liga mais competitiva não seria nada absurda. O que surpreendeu a todos foi ela ter ocorrido antes mesmo de AVB chegar a sua segunda época pelos Dragões. E como se não bastasse, foi para o mesmo Chelsea que Mourinho, logo após fazer história pelo Porto, rumou depois do sucesso europeu.
O adeus chateou muitos torcedores, que em sua grande maioria, consideram-no um traidor. A principal revolta está, por assim dizer, na forma como a saída se deu. Há pouco tempo, Villas-Boas assinara um novo vínculo com os Dragões e insistira no discurso que estava no cargo de seus sonhos. Além disso, ele mesmo já “cutucara” Mourinho pela forma como este deixara o clube – alguns portistas avaliam que o hoje comandante do Real Madrid “usou” o Porto para promover seu trabalho e que encarou com arrogância a conquista europeia de 2003/04, como se a vitória fosse responsabilidade apenas sua.
Mas para além do polêmico adeus, os portistas já precisam se preocupar com a nova temporada, evidentemente mais desafiadora que 2010/11. A começar pelo novo treinador: Vítor Pereira, adjunto de Villas-Boas e alguém que, se não é neófito na função, assumirá uma bronca muito maior do que aquelas às quais já foi submetido. Em sua carreira, passou por clubes menores, como Sanjoanense e Espinho, e dirigiu equipes de base do próprio Porto. Fez um trabalho elogiável no Santa Clara, chegando duas vezes a rodada final da Liga de Honra com chances de acesso, mas sem conseguir promover a equipe para a elite portuguesa.
A favor, pesa o perfil de Pereira ser bastante adequado ao futebol português. É conhecido por seu enorme apego tático, oriundo de seus anos como jogador. É também um estudioso da bola e um técnico “da casa”, por assim dizer, tanto no ponto de vista de formação técnica como no coração (é portista assumido). Combinação, aliás, muito valorizada no Dragão, como se viu com AVB, Octávio Machado ou José Maria Pedroto. Seu nome, curiosamente, já estava no hall dos favoritos de Pinto da Costa desde a última temporada, vislumbrando uma eventual substituição futura a Villas Boas, ao lado de Leonardo Jardim – ex-Beira-Mar, hoje no Braga.
Outro fator que promete ser favorável a si é o fato de ter chegado, enfim, ao cargo que esperava desde que foi anunciado como adjunto de Villas-Boas, em 2010. Na ocasião, rejeitou convites para assumir a Acadêmica (deu espaço a Jorge Costa) e Paços de Ferreira (veio, então, Rui Vitória). Conhece bem o elenco que terá em mãos, e conforme pessoas próximas aos treinos diários do Porto, era inclusive mais incisivo que AVB nas atividades. Não mostra ter o mesmo estilo enérgico de Mourinho ou Villas-Boas, mas, como dito, além de conhecedor de futebol, é da escola de futebol portista. Sabe o que a torcida quer e o que o time precisa.
Por sua vez, Pereira é um treinador que ainda não encarou experiências em primeira divisão estando no leme da equipe – e apesar de bem mais jovem, Villas-Boas já vinha de um trabalho muito bom na Acadêmica e uma maior rodagem como auxiliar. Vem na sombra de um técnico campeão e estará sob os olhos de uma torcida magoada com o antigo detentor da cadeira em que agora está, e que certamente irá querer o repeteco de ao menos parte do visto em 2010/11 – com especial cobrança na Liga, já que as Taças de Portugal e da Liga estão longe das prioridades e a Liga dos Campeões, embora palpável, é muito mais complicada do que a Liga Europa.
Além disso, as próprias incertezas da atual janela europeia podem crescer com a saída de Villas-Boas. E as duas primeiras são João Moutinho e Radamel Falcão, ambos na mira do novo treinador do Chelsea – que também deseja Hulk, tal qual boa parte da Europa. Fernando é dúvida, e o promissor James Rodriguez, que deverá ter mais oportunidades (caso fique) na nova época, já é observado por vários interessados. Com AVB, a garantia da continuidade do trabalho que trouxe sucesso (inclusive continental) era claramente maior, bem como a confiança justificada para que estes atletas permanecessem.
Sem o treinador e com a natural e complicada sensação de “o que vai acontecer agora?”, a aposta portista deverá ser em seu histórico de boas negociações – um dos pontos fortes e decisivos no sucesso dos Dragões nos últimos anos e a principal carta na manga de Pinto da Costa. A resistência na venda de jogadores – e a negociação cara dos que iam embora – e as contrações cirúrgicas ajudaram o Porto a ter os atletas certos na hora certa. Mantida a base do elenco, o provável é que Pereira não mude o modus operandi do Porto de Villas-Boas, e, tal qual o antecessor, encontre aos poucos a forma de dar a sua cara à equipe.
O favoritismo portista em Portugal ainda é inquestionável. Tem o melhor elenco do país, é o grande candidato a levar Liga e Taças, e a conquistar a Supercopa, em algumas semanas. Em gramados europeus, porém, terá que mostrar não ter um time limitado ao sucesso de um treinador, mas que conta com um grupo vitorioso por si só, capaz de galgar um bom caminho na Liga dos Campeões. Do ponto de vista técnico, o Porto é forte concorrente, ao menos, a alcançar as quartas de final, quiçá uma semifinal. Título? Possível, mas ainda uma incógnita. Ainda mais sob nova direção em campo, ainda que pautada pela ideia da continuidade “possível”.



