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Sinal amarelo no Estádio do Dragão

A equipe é a líder do Campeonato Português e ainda é a grande favorita ao caneco da competição. No entanto, depois de um 2010/11 quase perfeito, naturalmente chama atenção o momento irregular do Porto na temporada. Nos últimos seis jogos, foram duas vitórias, três empates e uma derrota. Mas os números por si só são perigosos para qualquer tipo de análise. É preciso olhar melhor o que se decorreu nestes jogos e filtrar a significância desses dados. O primeiro passo é, de fato, ignorar o 8 a 0 aplicado (com um time misto) no Pero Pinheiro, time da quarta divisão local, na Taça de Portugal.

Outro ponto é observar que, das três igualdades, duas delas foram, no mínimo, surpreendentes — 18 de setembro, com o Feirense (fora) e principalmente a desta quarta, com o Apoel, em pleno Dragão, pela Liga dos Campeões — e o outro (2 a 2 com o Benfica, em casa) foi fruto do quão irregular está o atual Porto. “Ah, mas o APOEL é o líder do grupo”. Sim, porque não só Porto, mas Shakthar Donetsk e Zenit (responsável por essa única derrota portista) conseguem ser tão inconstantes quanto os portugueses, a ponto de o bem organizado time cipriota já ter feito pontos em Portugal e na Ucrânia e ter dois jogos em casa. O que parecia um grupo fácil aos Dragões começa a ficar complicado.

Diante do Apoel, viu-se um Porto muito diferente daquele que, facilmente, estava entre os cinco melhores da Europa na temporada passada. James Rodriguez teve um começo de época bastante promissor, voando com a camisa azul e branca, mas quando não está em um dia bom, deixa a equipe por demais dependente de Hulk. O “Incrível” tem conseguido atuar em nível muito bom, mas, como cada vez mais se torna uma referência quase única, é ainda mais marcado. Na área, Kleber é muito dependente de a bola ir para ele — no Marítimo, muitos de seus tentos saíam porque, com ele em campo, ele era a referência — e não tem a mesma facilidade de Radamel Falcão Garcia com a bola no pé ou no posicionamento.

Um dos grandes diferenciais do Porto da temporada passada estava no meio-campo. João Moutinho fez sua melhor temporada como profissional e teve ao lado dois jogadores que, quando foram titulares, estavam voando: Belluschi e Freddy Guarin. Este ano, Guarín tem sido o escolhido, mas tem se mostrado inerte — como ocorreu diante dos cipriotas — e Moutinho tem “revivido” um pouco do drama que teve no Sporting, no sentido da responsabilidade de atuar quase que sozinho na armação. Além disso, o reserva que poderia mudar essa situação, Rúben Micael, acabou negociado junto com Falcão. O que chama atenção é: tudo isso acontece com praticamente o mesmo elenco, os mesmos atletas.

Antes do péssimo resultado de quarta, já havia um sinal de alerta no ar. No supracitado empate com o Feirense, por exemplo, o Porto sufocou, mas pareceu sem vontade e displicente, consagrando a excelente atuação tática do clube recém-promovido da Liga de Honra. Diante do arquirrival Benfica, depois um bom primeiro tempo, o equilíbrio inicial — no qual se viu o gol de empate encarnado e o que recolocou os portistas a frente — deu lugar a uma letargia geral e inexplicável nos Dragões, com doses mais fortes em jogadores como Álvaro Pereira, Guarín e Jorge Fucile. As Águias não só arrancaram o empate como saíram fortalecidas do clássico, com a certeza de que o bicho não era mais tão feio.

Veio então a chance da redenção, no “jogo do aniversário”, diante do Zenit. Mas se ante Feirense e Benfica a equipe até conseguiu ter o domínio das ações na maior parte do tempo, o que se viu em São Petesburgo foi o inverso. Apesar de começar a partida bem e sair na frente ainda nos primeiros minutos, o Porto encontrou problemas em sair para o jogo. Conhecida por seus avanços muito úteis ao ataque, a dupla de laterais Fucile e Pereira acabou mais presa que o de costume na marcação e mostrou dificuldade com o fundamento. Após a expulsão infantil de Fucile e a ausência de um centroavante no banco que pudesse substituir Kleber, lesionado, os portugueses ficaram totalmente reféns do Zenit.

Os últimos jogos levantaram a pulga atrás da orelha dos torcedores. Maravilhados pelo trabalho de André Villas Boas, os portistas já pedem a cabeça de Vítor Pereira. Para os adeptos, há três questões que preocupam. A primeira é o técnico “inventar” demais, algo que ganha apoio por Pereira, nos dez primeiros jogos da época, ter repetido o onze inicial uma única vez e com apenas três jogadores (Helton, Fucile e Kleber) sendo parte constante da equipe, enquanto Villas Boas repetiu o time titular cinco vezes em seus 10 primeiros confrontos, sendo que cinco jogadores (Álvaro Pereira, Rolando, Moutinho, Fernando e Falcão) foram titulares em todos eles.

É claro que esse troca-troca envolve um pouco de sorte. Afinal, Villas Boas demorou a “sofrer” com lesões ou suspensões em sua equipe, enquanto Vítor Pereira já as enfrenta desde o começo. Mas a corneta ao treinador não se limita à rotatividade — até porque, embora o time possua jogadores novos, a base foi praticamente toda mantida, a exceção de Falcão. Pereira vem sendo contestado por torcedores, em fóruns e comentários de sites esportivos, por substituições “questionáveis” e por não saber “ler” o jogo, tanto antes das partidas como depois. Mas, principalmente, critica-se veementemente o técnico por ainda não ter conseguido dar a este Porto a “garra” que o time, com AVB, mostrava em campo.

As duas últimas contestações são mais precisas que as reclamações quanto a utilização de vários jogadores — em especial a última delas, considerando que, de fato, o Dragão 2011/12 passa longe de ser o time aguerrido de 2010/11. Algo até ter a ver com o próprio perfil dos treinadores (Villas Boas é mais agitado e participativo, enquanto Pereira é mais contido), mas que não poderia estar tão diferente, tendo em vista que o atual comandante foi auxiliar do atual treinador do Chelsea na vitoriosa temporada passada e, inegavelmente sabe o time que tem em mãos. Esse tipo de crítica, aliás, foi bem comum na época 2009/10, na qual o Porto, ainda treinado por Jesualdo Ferreira, também padeceu dessa “carência de chama”, que Villas Boas acabou retomando ao assumir.

Apesar disso, não se pode dizer que o Porto está vivendo uma crise ou coisa parecida. Justamente porque, embora sejam perigosos, os números são argumento relevante e o time é, hoje, o líder do Campeonato Português. No entanto, o crescimento do Benfica e a “ressurreição” do Sporting não podem ser desprezados no cenário nacional, bem como a situação incômoda na Liga dos Campeões. Seria o Porto de 2010/11 supervalorizado por um trabalho excepcional de André Villas Boas, ou trata-se apenas de uma má fase temporária, que pode ser ajustada com algumas vitórias? O tempo dirá, é claro, mas para Vítor Pereira, ele começa a ficar mais curto.

Benfica sobrando; Sporting classificado; Braga irregular

Se na temporada passada a dupla lisboeta Sporting e Benfica estava longe de poder ser apontada como páreo ao Porto, hoje são os times da capital que têm feito mais bonito em solo europeu. As Águias tiveram uma atuação bastante segura contra o Basel, vencendo por 2 a 0 e fora de casa o time que complicou a vida do Manchester United em Old Trafford. Chamou atenção a aposta (bem sucedida) de Jorge Jesus em Rodrigo, hispano-brasileiro de muito boa partida na Suíça, e a opção em preencher o meio-campo com jogadores de eficiência na armação, como Bruno César, Nico Gaitán e Pablo Aimar. Aliás, o ex-meia do Corinthians tem sido um dos bons nomes do Benfica nesse início de temporada. Com 7 pontos e mais duas partidas em casa, os Encarnados estão encaminhados rumo às oitavas.

Já os Leões engataram uma notável oitava vitória consecutiva. Mais uma vez, uma atuação sem brilhar ou dar show, mas eficiente, como foi a máxima de Domingos Paciência no Braga, nas últimas duas temporadas. O 2 a 0 diante do Vaslui, em Alvalade, selou a classificação do Sporting à próxima fase da Liga Europa — primeiro e único time a conseguir isso, aliás — e dá ainda mais confiança a um time que, a cada jogo, acerta-se cada vez mais em campo. Matías Fernandez foi o destaque contra os romenos, com um gol e uma assistência. Diego Capel e Stjin Schaars também tem tido atuações muito boas, para além do artilheiro Ricky van Wolfswinkel. A três pontos dos líderes no Campeonato Português, o Sporting dá sinais de que deseja ser candidato ao título.

Por fim, o Braga de Leonardo Jardim tropeçou na Liga Europa e faz contas. O empate contra o lanterna Maribor não estava nos planos dos atuais vice-campeões do torneio, que com 4 pontos, ocupam o terceiro lugar de seu grupo, atrás de Birmingham e Club Brugge (6 pontos). O time ainda tem dois jogos em casa (Maribor e Birmingham), em que a vitória é praticamente obrigatória, já que vencer na Bélgica será muito mais trabalhoso. Contra os eslovenos, o time até criou chances, assumindo um diferente papel ofensivo, mas pecou nas finalizações e chegou ao gol somente nos acréscimos da etapa inicial, em lance duvidoso. Encontrou dificuldades também com o gramado, muito molhado pela chuva, mas em que pesem as condições adversas, era jogo para se vencer. Agora, é correr atrás da bola.

Em quinto, por enquanto

Com os resultados das rodadas desta semana na Liga dos Campeões e na Liga Europa, Portugal conseguiu ultrapassar a França no ranking de coeficientes da Uefa. O empate do Paris Saint-Germain e a vitória do Sporting ajudaram os tugas a chegar a 49.346 pontos, diante de 49.344 pontos dos franceses. Claro, é uma diferença ínfima e que um resultado melhor dos times da França na próxima semana já muda tudo. De qualquer forma, está clara aquela que tende a ser a principal disputa por posições no ranking europeu nesta temporada. Vale lembrar que com o sexto lugar na Uefa atingido na época passada, Portugal retomou uma terceira vaga à LC que estava com a Rússia.
 

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Equipe Trivela

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