Sentimento de justiça

Ainda que com algum atraso, em virtude do balanço do Campeonato Português finalizado na última semana, a coluna vem apresentar o primeiro dos dois promovidos à elite lusitana para a temporada 2010/11. Acessos, aliás, que geraram enormes celebrações. Um, pelo retorno após longo tempo afastado da primeira divisão (Feirense). Outro, pela volta por cima após um polêmico descenso há cinco épocas (Gil Vicente). E o primeiro time a merecer atenção aqui é justamente este último, um “velho conhecido” do público que acompanha há algum tempo o futebol de Portugal.
O acesso dos gilistas é bastante simbólico. Para os torcedores, mais do que voltar à elite – e ainda por cima com o título da Liga de Honra conquistado na última rodada com vitória sobre o Fátima –, a sensação é de que a justiça foi feita. Afinal, há cinco temporadas, o clube se viu rebaixado ao segundo escalão do país em virtude do polêmico Caso Mateus, em que o Gil Vicente foi acusado de utilizar o angolano Mateus sem este ter tido sua inscrição autorizada pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) e pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
Entendamos: em janeiro de 2006, a LPFP e a FPF recusaram aceitar a inscrição de Mateus por este ter supostamente mudado sua condição de jogador profissional para amador quando contratado pelo Lixa, seu clube antes de vir ao Gil Vicente. A FPF indica que o atleta que tenha feito esse percurso deverá permanecer pelo menos um ano como amador – o angolano ainda não teria cumprido tal prazo, alegavam os órgãos. Os barcelenses acionaram a Justiça Comum, justificando que o contrato de Mateus com o Lixa não era desportivo, mas de “contínuo”, e que o caso transcendia a esfera esportiva, rumando à trabalhista. Com tal alegação, portanto, os minhotos avaliavam ser pertinente o acesso aos tribunais não-desportivos.
O Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto entrou com uma intimação para que a Liga aceitasse o atacante, que fez quatro partidas na temporada com a camisa gilista. Em março, porém, armou-se nova polêmica, com a diretoria executiva da Liga cancelando a inscrição de Mateus. O Gil Vicente reagiu judicialmente, mas a Comissão Disciplinar da Liga considerou a reclamação improcedente por ter ocorrido “fora do prazo”. E em maio, a Comissão abriu processo disciplinar contra os barceleneses, por estes terem acionado a Justiça Comum no ato da recusa à inscrição de Mateus.
Após inúmeras idas, vindas e uma votação anulada pelo Conselho de Justiça da FPF, o Gil Vicente acabou rebaixado à segunda divisão, salvando o Belenenses. Os barcelenses recorreram novamente à Justiça Comum, e em agosto, conseguiram uma medida cautelar com o Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa, que os garantia na primeira divisão. No entanto, pressionada pela FIFA – que proíbe ações que saiam da órbita desportiva e ameaçava a FPF de sanções –, a Federação, a partir de uma Resolução Fundamentada, aprovada pelo mesmo Tribunal de Lisboa, conseguiu reverter a decisão.
O Gil Vicente ainda seria punido com a ausência da Taça de Portugal 2006/07 e o impedimento da participação de equipes de base em torneios nacionais – determinações julgadas inconstitucionais, em 2010, pelo Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, tendo como uma das alegações a de que a Federação feriu o artigo 1º da Constituição, acerca do “acesso ao direito e aos tribunais”. Até hoje, os gilistas buscam, na Justiça, vitória quanto à punição dada pela Liga por terem procurado a Justiça Comum e o pagamento de “danos morais” referentes às consequências do rebaixamento.
Internamente, porém, os problemas iam além dos tribunais. Pouco após o Caso Mateus, havia sido até cogitado o fim do futebol profissional no clube, pela necessidade de um corte de pelo menos 30% do elenco, que contava com salários que, em alguns casos, rondavam os 8 mil euros (cerca de R$ 18 mil) – quantia elevada para um clube do porte do Gil Vicente, que obtinha uma arrecadação média de 3 milhões de euros/ano. A estimativa do presidente Antônio Fiúza é de que cerca de 15 milhões de euros deixaram de ser captados nos cinco anos fora da primeira divisão, pelo fato de a Liga de Honra ter, nas palavras de Fiúza, “lucro zero”.
Além disso, a equipe perdeu patrocinadores e teve que negociar alguns de seus principais nomes (como o lateral direito João Pereira, hoje titular da seleção) por valores muito inferiores ao de suas rescisões. O supracitado Fiúza, aliás, é tido como um dos símbolos recentes gilistas. Encabeçou as contestações ao rebaixamento de 2006, até hoje está na Justiça discutindo a polêmica envolvendo o atacante angolano e coordenou uma série de “engenharias financeiras” para manter a equipe viva. Uma delas partiu dele próprio, que, conforme revelado ao Jornal de Barcelos, emprestou cerca de 1,5 milhões de euros para manter o caixa dos Galos operante.
Foram cinco temporadas na segunda divisão até o recente acesso. Na primeira delas, os barceleneses poderiam até ter brigado pela promoção, não fossem os nove pontos deduzidos como punição já no início do torneio, que logo distanciaram os gilistas das primeiras posições e os deixaram mais próximos da zona de perigo. Enfraquecido financeiramente, o clube fez campanhas apenas medianas, ficando perto do acesso somente em 2007/08, quando terminou a temporada em 5º lugar, um ponto atrás do vice-campeão Rio Ave. Para 2010/11, porém, o discurso que pregava a disputa pela promoção era latente desde o princípio.
A confiança foi consolidada desde as primeiras rodadas. A equipe começou bem, chegando a liderar o torneio entre a 4ª e a 8ª jornada. No entanto, da 7ª rodada a 11ª, o time caiu um pouco de produção, chegando a sete jogos sem vencer. A regularidade, que já esboçava ser recuperada com o retorno às vitórias nos jogos seguintes, voltaria de vez na hora certa: na 23ª rodada, com a equipe emplacando, na reta final, seis triunfos e apenas um empate. A reação acabou aliada à irregularidade que acometeu os concorrentes diretos Trofense e, principalmente, Oliveirense.
A campanha foi bastante pautada no ataque. Foram 55 gols marcados em 30 partidas, com destaque ao trio Zé Luis, Luís Carlos e Hugo Vieira – este último uma espécie de 12º jogador e autor do gol que garantiu o acesso e o título dos gilistas. Juntos, os três atacantes marcaram 35 dos tentos assinalados pelo Gil Vicente. Atrás, os principais olhos estiveram em Rodrigo Galo, veloz lateral direito revelado pelo Avaí que marcou presença em praticamente todos os jogos da equipe na temporada. O acesso também foi especial ao goleiro Jorge Baptista, que esteve no elenco “rebaixado” em 2006.
Outro destaque na campanha gilista foi a torcida. Considerando as duas principais divisões de Portugal, o Gil Vicente teve a sétima melhor média de público, com 4.075 pagantes/jogo – apesar de baixa se comparada ao padrão “Europa”, não se pode esquecer que a torcida dos clubes menores de Portugal é bastante inferior ao dos grandes e médios, além de muito regionalizada. No confronto decisivo, contra o Fátima, foram 12.550 os espectadores presentes no Estádio Cidade de Barcelos – aliás, um dos estádios mais elogiados de Portugal. Ou seja: lotação total.
Naturalmente, o grupo sofrerá mudanças para a nova temporada. Os elogiados Galo e Zé Luís, por exemplo, já estão de saída para o vizinho Braga. Por outro lado, o Gil Vicente conseguiu a manutenção do experiente meia André Cunha e deverá manter Hugo Vieira e Luís Carlos. Assegurou também a renovação do técnico Paulo Alves, outro bem identificado com os barcelenses – foram sete temporadas como jogador (tendo inclusive encerrado a carreira no clube) e outras cinco como treinador. E Alves, tal qual Baptista, é outro remanescente de 2006: era o comandante da equipe que acabou mandada à segunda divisão.
O Gil Vicente sabe que será difícil manter-se na elite, mas o histórico ao menos é favorável. Estreante na temporada 1990/91, a equipe só viria a retornar à Liga de Honra em 1996/97. Retornaria em 1999/00 e só cairia em 2006. Foram, portanto, 14 participações na primeira divisão nas últimas 20 temporadas. Um número até significativo, tendo em vista os minhotos serem um pequeno de Portugal, dotados de um pouco e limitado orçamento. O desafio será maior do que o de 20 anos atrás, mas certamente a empolgação que circunda esse recomeço em Barcelos é tão grande quanto.



