Portugal

Sacode a poeira

A Liga dos Campeões terminou para os clubes portugueses. O Benfica já havia dado adeus há duas semanas, e desta vez foi a vez do Braga, que por alguns minutos até chegou a ficar perto de um milagre, mas acabou se despedindo da principal competição do continente. A aventura européia da dupla não se encerrou, é verdade, já que ambos acabaram se garantindo na Liga Europa. No entanto, é chegado o momento para que tanto bracarenses como encarnados recomponham-se no cenário nacional, à tempo de não verem a temporada ir para o espaço.

O caso do Benfica, se por um lado parece menos preocupante ao se observar que o time ocupa a vice-liderança da Liga Zon Sagres, por outro o futebol que os comandados de Jorge Jesus vêm apresentando deixa por demais a desejar, especialmente observando-se o que o time mostrou em 2009/10, e as reclamações da exigente torcida encarnada. Reclamações com razão, diga-se. Afinal, com a derrota para o Schalke 04, não fosse o gol salvador do ex-rival Lisandro Lopez garantindo o empate do Lyon com o Hapoel Tel-Aviv, nem Liga Europa os portugueses pegariam.

O jogo contra os alemães expôs mais limitações da Águias, principalmente no meio-campo. A falta de opções para as pontas salta aos olhos. Ruben Amorim se consolida como um jogador de até bom nível, mas que cresceu apoiado na boa fase do time na temporada passada. Tanto que em meio às dificuldades que encontra o atual grupo, sem duas peças essenciais como Di Maria e Ramires, o meia não consegue se firmar. Cesar Peixoto, por sua vez, não foi bem nem mesmo quando a equipe esteve por cima. Sob pressão, parece que a bola queima os pés quando toca. Mais uma época fraca.

Há opções de banco, mas nenhuma parece passar a confiança que a torcida tem necessitado. Sálvio não é exatamente um ponta, mas um atacante que acaba atuando improvisado nos setores, estando longe de jogar o futebol que o destacara na base argentina. Gaitán, outro jovem portenho, é mais um que encontra dificuldades para se afirmar, primando pela irregularidade. À frente, a “máscara” cai para Cardozo e Saviola. Sem os passes “redondos” que recebiam, mostram dificuldades. Principalmente o paraguaio, tecnicamente inferior a Saviola e muito dependente da bola nos pés.

Não se voltará a discutir aqui a má preparação dos encarnados para o desafio europeu, mas é fato que a campanha nacional, onde o Benfica ostenta a vice-liderança, não convence ninguém. É vice porque mesmo inferior à 2009/10, acaba sendo tecnicamente superior a rivais diretos, como Sporting, Vitória de Guimarães e o próprio Braga. Até o momento, o time apresentou poucas partidas convincentes mesmo no cenário português, e já acumulou alguns vexames, como o tropeço em casa para a Acadêmica, logo na estréia, e o massacre sofrido no Dragão para o Porto.

Evidentemente, ainda há tempo para o Benfica acordar em âmbito nacional e até europeu. Primeiro porque a janela continental está em vias de abrir, e é de se esperar que Luis Filipe Vieira e a diretoria encarnada se mexam. Em segundo lugar porque até a chegada da Liga Europa, haverá chão para que os eventuais reforços possam se entrosar com as peças já existentes. A mudança de “chip” para uma realidade em que ainda se almeja algo mais polpudo e palpável (leia-se título nacional e retorno à LC para 2011/12) é outro fator importante para a “virada” que necessitam dar as Águias.

“Sacudir a poeira” também é algo que busca o Braga. Não que a eliminação na Liga dos Campeões deva ser encarada como uma tragédia, porque não foi. Como se esperava, o jogo decisivo acabou sendo nem tanto o desta quarta, mas aquele da segunda rodada, quando os bracarenses acabaram goleados por 3 a 0 pelo Shakhtar Donetsk em pleno Estádio AXA. A vaga até ficou perto, já que o Partizan resistiu ao Arsenal por um bom tempo, mas quase que simultaneamente, quando a barreira sérvia caiu na Inglaterra, o mundo desabou na Ucrânia aos tugas.

O Braga se portou de maneira correta nesta quarta. Foi ao ataque e soube deixar de lado a pressão da torcida. Domingos Paciência começou sem um centroavante fixo, optando pela velocidade de Matheus. No entanto, vinha encontrando dificuldades para achar os espaços necessários, e só no segundo tempo veio a tentativa de um “9”, com Lima substituindo Alan (longe do que jogou na última temporada). Mas a substituição acabou não dando certo, já que foi justamente pelo lado antes coberto pelo brasileiro que os ucranianos, que vinha controlando o ímpeto minhoto, mataram o jogo.

Apesar da eliminação, é importante considerar que o Braga, por mais questionada que seja a qualidade de seu elenco – que o colunista vê com algum cuidado -, chegou a um estágio que muitos duvidaram que fosse possível, especialmente após o péssimo começo na fase de grupos. Primeiro, não eram nem esperados nesta etapa da LC, diferentemente de Celtic ou Sevilla, a quem eliminaram com autoridade. Em segundo lugar por terem reagido a tempo de chegarem à rodada final com chances reais de avançar. O que, psicologicamente, é uma vitória em se observando a história do clube.

E terceiro: foi o segundo melhor terceiro colocado da fase de grupos, o que significa que a equipe entra como cabeça-de-chave na Liga Europa. Ou seja, terá pela frente equipes teoricamente mais acessíveis. Um prêmio importante, motivador, mas que – e aí é importante frisar – não pode fechar os olhos da equipe para a campanha fraca que faz no cenário nacional, muito diferente do que se viu em 2009/10, quando brigou pelo título. Atualmente, já sete pontos atrás do Benfica, é meio utópico pensar no Braga como candidato a uma nova Liga dos Campeões para 2011/12.

Claro que é difícil dizer que os bracarenses teriam condições de disputar a LC e a Liga em igualdade de dedicação. Mas com o próximo jogo continental ainda distante, os minhotos tem a possibilidade de que a equipe, completa e com a cabeça voltada ao certame, recuperarem-se à tempo de, ao menos, lutarem por Liga Europa. A receita bracarense pós-LC é menos complicada que a encarnada. No caso arsenalista, é jogar o futebol dos últimos quatro duelos europeus na liga portuguesa. Já para as Águias, o buraco está mais embaixo, ainda que o segundo lugar na tabela possa ser relativamente enganador.

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Equipe Trivela

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