Rumo à quadra?

Portugal fez 5 a 0 em Luxemburgo. De especial na vitória, a (de fato) boa atuação dos comandados de Paulo Bento e os registros de Cristiano Ronaldo e Helder Postiga. O primeiro entrou no top 5 dos maiores artilheiros da história da seleção, com 27 gols, ultrapassando Rui Costa. O segundo passou a figurar no top 10, com 16 tentos — ainda seis gols distante de Simão Sabrosa. Mas a grande preocupação portuguesa está mesmo no que espera a equipe das Quinas nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, em que os tugas podem emplacar a quarta classificação consecutiva para um Mundial.
O grupo não é complicado e se sabe bem isso. Há somente duas seleções que, de alguma forma, possam ser consideradas rivais: Rússia e Israel, sendo que apenas os russos são concorrentes à altura. Aos mais supersticiosos, o histórico português em chaves “acessíveis” como essa é positivo. Nas últimas quatro eliminatórias, Portugal encarou grupos competitivos em três oportunidades. Classificando-se duas vezes (2002 — vencendo o “grupo da morte” com Irlanda e Holanda — e 2010 — ficando atrás da Dinamarca e a frente da Súecia e batendo a Bósnia na repescagem) e caiu em 1998, ante Alemanha e Ucrânia.
Já em 2006, quando se deparou com Eslováquia, Rússia (olha eles aí), Estônia, Letônia, Liechtenstein e Luxemburgo – um grupo visivelmente tranquilo, semelhante ao de agora —, Portugal passeou. Na ocasião, inclusive, os russos — que ainda estavam longe da força que mostrariam alguns anos depois na Eurocopa de 2008 — apanharam nas mãos tugas, levando um sonoro 7 a 1 em Lisboa, com gols de Ronaldo (2), Petit (2), Deco, Simão e Pauleta (Arshavin diminuiu). Vale lembrar também que Portugal vivia seu melhor momento enquanto seleção na década, com a geração vice-campeã europeia de 2004.
Desde já, é possível afirmar que a equipe das Quinas não vai passear sobre os russos como fez no passado. Tanto porque os rivais estão mais fortes como pela atual seleção tuga — embora também seja competitiva — ainda não está com a mesma qualidade daqueles anos. Por sua vez, a Rússia não vive o bom momento de 2008, quando fez grande Eurocopa e empolgou com Zhirkov, Arshavin e Pavlyuchenko. Hoje, a equipe dirigida por Dick Advocaat não convence nas eliminatórias para a Euro 2012 e ainda está abalada pela inesperada eliminação para a Eslovênia, no playoff do qualificatório para 2010.
Portugal, por outro lado, está em boa fase desde a chegada de Paulo Bento. A equipe sem emoção da era Queiroz — ponto, aliás, muito criticado na seleção comandada pelo treinador bicampeão mundial sub-20 — deu espaço a um time mais compacto, em que até mesmo jogadores tidos como mais individualistas, como Nani e Ronaldo, têm mostrado grande integração e senso de equipe. Foram seis vitórias, um empate e apenas uma derrota (por 2 a 1, vendida muito cara para a Argentina, devido a um gol de Messi, nos acréscimos), com uma marca bem significativa: o 4 a 0 aplicado na campeã mundial Espanha.
Em campo, a equipe das Quinas parece estar bem encaminhada. As principais dúvidas estão no gol, com Rui Patrício e Eduardo intercalando titularidades. Nas laterais, Fábio Coentrão é certeza pela esquerda, enquanto Paulo Bento parece ter mesmo decidido por João Pereira (que se não é um primor, vem de temporada muito boa) na direita. E ainda há Sílvio, que sabe fazer as duas alas, como opção de banco. Na zaga, o trio Pepe, Bruno Alves e Ricardo Carvalho (mesmo com seus 33 anos e sem certeza de presença em 2014) não deve ter grandes mudanças — provavelmente Rolando deve ser agregado à lista.
Contra Luxemburgo, Paulo Bento convocou, de novidades, o volante André Santos (Sporting) e o meia Castro (Porto, estava emprestado ao Sporting Gijón). O primeiro estreou bem e mostrou que Miguel Veloso e Raul Meireles terão boa concorrência na volância. O segundo não chegou a jogar, mas foi um dos heróis da manutenção do Gijón na elite espanhola e aparece desde já — caso tenha alguma regularidade na nova época — como boa opção para o setor, já bem abastecido pela dupla João Moutinho e Ruben Micael e mesmo por Carlos Martins — que precisa urgentemente voltar ao onze do Benfica.
No ataque, em que pese a boa partida de Hugo Almeida e Helder Postiga ante Luxemburgo, é fato que a camisa 9 ainda não tem um dono que se possa considerar inquestionável, fruto da carência de goleadores portugueses hoje no futebol luso. Cenário oposto ao dos “extremos”. Desnecessário lembrar a qualidade de Cristiano Ronaldo e Nani. Para além deles há um Silvestre Varela, convocado mais uma vez e quase sempre decisivo para o Porto, e a qualidade (nem sempre correspondida pela cabeça) de Ricardo Quaresma, que não deve demorar a vestir novamente a camisa da seleção.
Equipe boa, motivada, cada vez mais entrosada e, pelo menos por enquanto, com opções confiáveis. Grupo acessível e com o principal rival ainda devendo futebol. Bom momento também nas eliminatórias para a Eurocopa — prioridade atual da seleção —, com três vitórias consecutivas (todas com Paulo Bento) que levou os tugas à ponta da chave H, a frente de Noruega e Dinamarca no confronto direto. O cenário é, como se vê, bem positivo para que Portugal confirme seu favoritismo nas disputas rumo a 2014. Um otimismo que há um bom tempo não fazia parte do cotidiano futebolístico do país.
Mundial Sub-20
Se a seleção principal está “com a bola toda”, a equipe sub-20 que disputa o Mundial da categoria está nas quartas de final, mas tem patinado na competição, a bem da verdade. A equipe comandada por Ilídio Vale classificou-se em primeiro na chave também composta por Uruguai, Nova Zelândia e Camarões. Ante a Celeste, na estreia, Portugal fez uma boa partida, dominou a maior parte do confronto mas cansou de perder gols. Diante dos africanos, vitória por 1 a 0 após um primeiro tempo muito bom e uma etapa final inconstante. Já na despedida da primeira fase, contra os neozelandeses, novo 1 a 0, em jogo fraco.
Nas oitavas, Portugal teve pela frente a pior equipe dentre as sobreviventes, a Guatemala, que havia levado 5 da Nigéria e 6 da Arábia Saudita na fase inicial. E apesar da classificação (vitória por 1 a 0 após um pênalti questionável), a equipe mais uma vez encontrou dificuldades. A principal delas está na falta de um jogador que, por assim dizer, faça a função de um armador mais puro. Vale até agora não repetiu um onze, e embora tenha acertado nas mudanças no ataque do primeiro ao segundo jogo, voltando ao esquema com três atacantes, não encontrou as formações ideais nas linhas defensivas e de meio-campo.
A equipe não é ruim. Mika, ex-União de Leiria e hoje goleiro do Benfica, tem sido o melhor arqueiro do Mundial Sub-20 até o momento e salvou Portugal em momentos cruciais ante Uruguai, Camarões e Guatemala. O benfiquista Nelson Oliveira mostrou boa movimentação e embora tenha feito sua melhor partida diante dos camaroneses, confirmou seu status de atacante perigoso. Caetano, do Paços de Ferreira, tem se destacado na velocidade, mas ainda precisa acertar o último passe. Pelo meio, Danilo, do Parma, é o português mais regular, mas Saná — que deve retornar de lesão para a próxima fase — mostra ser o meia de mais qualidade.
Nas quartas, os tugas terão a difícil Argentina de Erik Lamela e Iturbe pela frente. Se serve como consolo aos comandados de Ilídio Vale, foi justamente ante um outro sul-americano (que também foi a equipe mais competitiva com a qual Portugal se deparou) que os lusos apresentaram-se melhor. A aguardar.



