Portugal

Resumo da temporada – Parte II

A coluna prossegue nesta semana com a análise, clube a clube, do Campeonato Português 2010/11. Desta vez, é a vez de conferir os clubes situados do primeiro ao oitavo lugar. Vale observar que, destes, seis times mantiveram seus treinadores até o final, e que os outros dois só mexeram em seus quadros técnicos após a 20ª rodada.

Porto

Colocação final: 1º, com 84 pontos
Técnico: André Villas Boas
Maior vitória: 5×0 Benfica (10ª rodada)
Maior derrota: Não teve
Competição continental: campeão da Liga Europa
Principal jogador: Hulk
Decepção: Maicon
Artilheiro: Hulk (23 gols)
Nota da temporada: 10

Cinco títulos disputados, quatro deles vencidos, sendo três em Portugal e um na Europa. O Porto de André Villas Boas não deu chances a ninguém, exceto na sempre ignorada Taça da Liga. Foi campeão português invicto, venceu a Taça nacional com direito a um 6 a 2 na decisão, e ainda arrematou a Liga Europa após uma campanha irretocável. Na Liga, teve o artilheiro e o vice, além de contar com os melhores ataque e defesa. Nos confrontos ante o Benfica, maior rival, domínio total: cinco jogos e quatro vitórias, com direito a um 5 a 0 no Dragão e um 2 a 1 na Luz que sacramentou o título português.

Os reforços foram quase todos eficientes, em especial João Moutinho, que fez, com Fredy Guarín e Fernando, um meio-campo facilmente entre os melhores da Europa. Villas Boas conseguiu dar, aos poucos, a cara que desejava a uma equipe que não mais empolgava com Jesualdo Ferreira. O trabalho tático e de vestiário não só colocou seu Porto no topo como gerou inúmeras comparações com José Mourinho, a quem tentará superar em 2010/11, não apenas com a possibilidade de um novo título nacional, mas na esperança de repetir o feito de 2003/04 e levar os Dragões à conquista da Liga dos Campeões. E alguém duvida?

Benfica

Colocação final: 2º, com 63 pontos
Técnico: Jorge Jesus
Maior vitória: 5×1 Paços de Ferreira (24ª rodada)
Maior derrota: 5×0 Porto (10ª rodada)
Competição continental: eliminado na fase de grupos da Liga dos Campeões, semifinalista da Liga Europa
Principal jogador: Fábio Coentrão
Decepção: Roberto
Artilheiro: Oscar Cardozo (12 gols)
Nota da temporada: 6,5

O Benfica não saiu em branco na temporada, mas foi uma grande decepção. Foi campeão da Taça da Liga, em uma decisão que a comemoração tão murcha que quando Luisão jogou sua camisa para a torcida, esta, chateada com o desempenho na época, devolveu-a ao gramado. Além disso, o sonho de reconquistar a Europa sofreu dois baques. O primeiro, na Liga dos Campeões, em um grupo bastante acessível, com Schalke 04, Lyon e Hapoel Tel-Aviv. O segundo, na Liga Europa, ao ser despachado pelo Braga. O fracasso em 2010/11 começou a se desenhar com as “invenções” táticas de Jorge Jesus e a não-reposição de Ramires e Ángel Di Maria.

Eduardo Sálvio veio e parecia ser uma das soluções, mas começou a temporada machucado. Nico Gaitán demorou a engrenar, e à frente, além de Javier Saviola não repetir as atuações de 2009/10, Oscar Cardozo teve uma época pífia, com raras boas exibições. Quando Gaitán e Sálvio pegaram “no breu”, comandaram o Benfica em uma série de 18 vitórias consecutivas, que até mantiveram as Águias na briga pelo título. A eminente perda de Fábio Coentrão promete ser um dos grandes empecilhos encarnados para a próxima temporada. Fica a lição, porém, para uma melhor preparação de época visando 2011/12.

Sporting

Colocação final: 3º, com 48 pontos
Técnicos: Paulo Sérgio (até 21ª rodada) e José Couceiro
Maior vitória: 3×0 Vitória de Setúbal (14ª rodada) e 3×0 Marítimo (17ª rodada)
Maior derrota: 2×0 Benfica (5ª e 20ª rodadas)
Competição continental: eliminado nas oitavas de final da Liga Europa
Principal jogador: André Santos
Decepção: Maniche
Artilheiro: Yannick Djaló e Helder Postiga (6 gols)
Nota da temporada: 5,5

A temporada 2010/11 só não foi mais problemática ao Sporting porque o clube conseguiu, na última rodada, o objetivo “mínimo”: o terceiro lugar. Mas o que não faltou foi turbulência. Paulo Sérgio não conseguiu encontrar a equipe ideal ou dar um padrão de jogo ao time. Seu substituto, José Couceiro, encontrou dificuldades, mas conseguiu, ao menos, manter os Leões com alguma tranquilidade na luta por vaga à Liga Europa. Nesse meio tempo, os lisboetas ainda viram o então presidente José Eduardo Bettencourt pedir demissão.

Em campo, poucos destaques. André Santos supriu a péssima temporada do reforço Maniche, a ponto de ter sido convocado para a seleção. Desta vez sem lesões, João Pereira também agradou, e Diogo Salomão, apesar das inexplicáveis poucas chances, foi uma agradável surpresa. De outro lado, jogadores como Daniel Carriço, Jaime Valdés, Matias Fernandes, Simon Vukcevic e Yannick Djaló pecaram pela irregularidade. E o adeus de Liedson não foi bem administrado, apesar do esforço de Helder Postiga. O terceiro lugar veio, a vaga europeia também. O suficiente pelo que o elenco poderia fazer. Mas muito pouco dentro pelo que se espera de um time como o Sporting.

Braga

Colocação final: 4º, com 46 pontos
Técnico: Domingos Paciência
Maior vitória: 4×0 Acadêmica (14ª rodada)
Maior derrota: 3×1 União de Leiria (13ª rodada)
Competição continental: eliminado na fase de grupos da Liga dos Campeões, vice-campeão da Liga Europa
Principal jogador: Sílvio
Decepção: Elderson
Artilheiro: Lima (6 gols)
Nota da temporada: 8

Após o vice-campeonato português em 2009/10, havia expectativa sobre o que Braga seria capaz de fazer. Não seria fácil repetir a época então findada, como de fato não o foi. Os Arsenalistas demoraram a engrenar na Liga, viram-se durante boa parte da primeira metade do certame intercalando bons e maus resultados, e mantiveram-se longe das quatro primeiras posições. Na Europa, por sua vez, os bracarenses viveram um verdadeiro sonho. O time, visto por muitos como de “Série B brasileira”, fez história ao chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, despachando Celtic e Sevilla. Não passou às oitavas, mas “carimbou” o Arsenal, em casa.

Na Liga Europa, brilhou ao despachar Liverpool, Dynamo Kiev e Benfica, até cair em uma histórica decisão lusa contra o Porto. No segundo semestre, o Braga enfim reagiu em Portugal e na reta final, brigou ponto a ponto com o Sporting pelo terceiro lugar – que ficou com os Leões. Durante a campanha, o fator Domingos Paciência mostrou-se mais uma vez determinante. Com os movimentos certos e mesmo lesões que prejudicaram a equipe em vários momentos, o comandante arsenalista soube guiar, à lá Kasparov, um elenco limitado, mas esforçado e, por que não, vitorioso. O desmanche, porém, já começou.

Vitória de Guimarães

Colocação final: 5º, com 43 pontos
Técnico: Manuel Machado
Maior vitória: 3×0 Naval (30ª rodada)
Maior derrota: 3×0 Benfica (19ª rodada)
Competição continental: nenhuma
Principal jogador: Nílson
Decepção: Pereirinha
Artilheiro: Edgar (10 gols)
Nota da temporada: 6,5

Uma campanha sem brilho, mas dessa vez recompensada com o retorno às competições europeias. Esse foi o Vitória de Guimarães. O desempenho vimarinense não chegou a ser consistente, ainda que o time tenha se mantido nas primeiras posições ao longo de toda a temporada. Até a 20ª rodada, os alvinegros até brigavam diretamente pelo terceiro lugar, mas daí em diante, “abandonaram” o barco, colocando o foco quase que totalmente na reta final da Taça de Portugal. A vaga para a decisão veio – tal qual o vice-campeonato -, a Europa estava de volta… Mas ficou a sensação de que o Guimarães poderia ter ido além.

Foram poucos gols marcados (36), sendo 10 deles apenas de Edgar – que precisou de 30 partidas para tal. Outros jogadores também intercalaram bons jogos com outros menos agradáveis, como Targino e Faouzi. Houve espaço para João Ribeiro, João Paulo, Bruno Teles e Nílson (agora jogador de Burkina Faso) confirmarem as boas expectativas de sempre, e para Pereirinha, badalado na base do Sporting e emprestado pelos Leões para ser titular, fracassar de forma retumbante. Experiente, Manuel Machado foi, no comando do Vitória, um espelho do time: nervos ora equilibrados, ora exaltados, e resultados irregulares.

Nacional

Colocação final: 6º, com 42 pontos
Técnico: Predrag Jokanovi? (até 23ª rodada) e Ivo Vieira
Maior vitória: 3×1 Portimonense (3ª rodada)
Maior derrota: 3×0 Porto (20ª rodada)
Competição continental: eliminado na terceira fase eliminatória da Liga Europa
Principal jogador: Felipe Lopes
Decepção: Orlando Sá
Artilheiro: Claudemir (4 gols)
Nota da temporada: 6

Novamente sem alarde, o Nacional está de volta à Europa. A campanha em si foi apenas mediana, com destaque (negativo) à carência de gols – foram somente 28 em 30 jogos – e toques de irregularidade. Os alvinegros não conseguiam emplacar uma série de vitórias que fosse além de duas consecutivas, e se viram até em um momento mais complicado entre a 14ª e a 19ª rodadas, quando a equipe obteve somente uma vitória em sete jogos. A vaga europeia sempre esteve ao alcance, mas, à bem da verdade, veio mais pela irregularidade em momentos decisivos dos rivais diretos (Paços de Ferreira e Rio Ave) do que exatamente pelo sucesso dos madeirenses.

No elenco, mais uma vez brilhou o goleiro Rafael Bracalli, mas há de se destacar a dupla defensiva Felipe Lopes e Danielson, responsáveis pelo Nacional ter uma das melhores defesas da temporada. Pelo meio, a dupla eslovena Rene Mihelic e Dejan Skolnik também merece elogios, pelo entrosamento e facilidade na armação. No ataque, porém, Orlando Sá talvez seja uma das grandes decepções. Badalado em seus tempos de Braga, foi contratado pelo Porto e, após pouco atuar, foi cedido aos alvinegros para “explodir”. Além de novamente se ver em meio a lesões, pouco agradou quando esteve em campo.

Paços de Ferreira

Colocação final: 7º, com 41 pontos
Técnico: Rui Vitória
Maior vitória: 5×1 Acadêmica (30ª rodada)
Maior derrota: 6×1 Rio Ave (26ª rodada)
Competição continental: nenhuma
Principal jogador: Pizzi
Decepção: Bruno Di Paula
Artilheiro: Mário Rondon (9 gols)
Nota da temporada: 7,5

Uma das duas gratas sensações da temporada, e que em determinado momento, pareceu realmente ser capaz de brigar por Liga Europa. O Paços de Ferreira teve, em 2010/11, mais uma prova de que a aposta correta em jovens que não tiveram chances em equipes maiores com atletas mais rodados e empréstimos comedidos e acertados pode ter resultados. Apesar do começo ruim, com o time beirando a zona de rebaixamento no primeiro terço do campeonato, os Castores reagiram e chegaram a ficar oito jogos sem perder – emplacando até quatro vitórias consecutivas. Paralelamente à reação, os pacenses surpreenderam e chegaram à final da Taça da Liga. A segunda final de uma copa nacional em três temporadas, aliás.

Não fosse a inexplicável série de derrotas que veio logo após a perda da invencibilidade – com duas goleadas sofridas em casa (Rio Ave e Benfica), o Paços fatalmente teria encerrado o torneio com a última vaga europeia de Portugal, mesmo com um elenco cujo máximo esperado era mesmo um meio de tabela. Olho, em especial, nos jovens emprestados por outros clubes, como David Simão, Nelson Oliveira e Pizzi, que ao lado dos “experientes” Maykon, Leonel Olímpio e Manuel José, mostraram potencial técnico e de equipe.

Rio Ave

Colocação final: 8º, com 38 pontos
Técnico: Carlos Brito
Maior vitória: 6×1 Paços de Ferreira (26ª rodada)
Maior derrota: 5×2 Benfica (14ª rodada)
Competição continental: nenhuma
Principal jogador: João Tomás
Decepção: Mário Felgueiras
Artilheiro: João Tomás (16 gols)
Nota da temporada: 7

Lembram-se da retomada do Flamengo de Joel Santana, pulando da zona de rebaixamento para a Libertadores em 2007? Em suas totais e devidas proporções, o Rio Ave fez igual. Virou o primeiro turno ameaçadíssimo de rebaixamento, e até a 19ª rodada, estava em antepenúltimo lugar. Eis que, comandados pelo “eterno” goleador João Tomás e seus “escudeiros”, com destaque a Bruno Gama e Wires, os vilacondenses emplacaram sete vitórias em nove jogos e disparara na tabela. Uma reação providencial, que tirou o clube da zona de perigo e acendeu a esperança de uma inédita vaga europeia.

Além dos gols de João Tomás, muito dessa explosão na classificação passa pela confiança depositada em Carlos Brito. Em qualquer outro lugar do mundo, após 66% do campeonato decorrido e o time brigando contra a queda, o treinador seria demitido. Mas o Rio Ave apostou no conhecimento que o técnico possuía do (limitado) elenco, e confiou na recuperação. Tivesse vencido o Beira-Mar, na antepenúltima rodada, ou ao menos arrancado um ponto do Benfica na 29ª rodada – ambos resultados bem plausíveis, pelas circunstâncias -, os vilacondenses poderiam ter feito história e carimbado o passaporte europeu. Fica para a próxima.

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Equipe Trivela

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