Resumo da temporada (III)

A coluna encerra o balanço da Liga Sagres 2009/10 com os últimos seis clubes restantes. É a vez de falar dos grandes Porto e Sporting, cuja temporada é esquecível (especialmente aos Leões), lembrar a difícil temporada do Vitória de Setúbal, a derrocada do Rio Ave, a boa manutenção do União de Leiria e da “amarelada” do Guimarães.
Porto (3º lugar, 68 pontos)
Técnico: Jesualdo Ferreira
Competição europeia: eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões
Taça de Portugal: campeão
Taça da Liga: vice-campeão
Destaque: Radamel Falcão Garcia
Artilheiro: Radamel Falcão Garcia (25 gols)
Melhor momento: Porto 5 x 1 Braga (20ª rodada)
Pior momento: Sporting 3 x 0 Porto (21ª rodada)
Bônus: classificado para a Liga Europa
Nota da temporada: 6
Um título, um vice-campeonato e um terceiro lugar nacional, acompanhado de uma nova vaga europeia. Não foi uma temporada ruim, certo? Para quem era o atual tetracampeão nacional, passar o torneio todo sem ameaçar a liderança e ter como única conquista uma Copa onde superou apenas times médios e pequenos, não foi, realmente uma boa época. Mesmo se a esses torneios se acrescentar a Supercopa, que, no fundo, não passa de um jogo de pré-temporada. E não são poucas as razões, como se sabe, para o insucesso. Primeiramente, a perda de uma peça essencial: Lucho Gonzalez. A qualidade do argentino em organizar o meio-campo foi a deficiência mais sentida pelos portistas.
Além disso, diferentemente de outros anos, a política de contratações foi equivocada, com exceção da cirúrgica vinda de Falcão Garcia. Mais: Jesualdo Ferreira, ao invés de se adequar aos jogadores que tinha, tentou inventar. Trouxe o ofensivo Belluschi para jogar como um meia mais recuado, ao lado de Raul Meireles. Ao invés de se adaptar às peças que tinha em mãos, o sempre questionado Jesualdo optou em manter o esquema dos últimos campeonatos, e só teria algum sucesso quando, tardiamente, chegou Ruben Micael. Na reta final, o técnico mexeu na formação e, com quatro no meio, o Porto evoluiu. Mas já era tarde mesmo para levar uma vaga para a Liga dos Campeões.
Rio Ave (12º lugar, 31 pontos)
Técnico: Carlos Brito
Competição europeia: nenhuma
Taça de Portugal: campeão
Taça da Liga: vice-campeão
Destaque: Fabio Faria (zagueiro)
Artilheiro: João Tomás (6 gols)
Melhor momento: Rio Ave 2 x 0 Nacional (4ª rodada)
Pior momento: Rio Ave 1 x 5 Olhanense (24ª rodada)
Bônus: nenhuma
Nota da temporada: 5
O Rio Ave do primeiro turno foi um total oposto do que mostrou na segunda metade do campeonato. Até a 11ª rodada, por exemplo, os vilacondenses não haviam sido derrotados em casa, e até o início do returno, contra o União de Leiria, a equipe passava a impressão de que poderia brigar por algo além da parte de cima da tabela. Mas então, veio a dura realidade. Após perder o experiente e artilheiro João Tomás para o futebol árabe, a equipe decaiu assustadoramente. Foram somente duas vitórias no returno e sete derrotas, sendo duas por goleada (Sporting e Olhanense), além de apenas nove gols marcados nos 15 jogos que se seguiram.
A derrocada do time de Vila do Conde evidenciou as graves limitações do grupo, principalmente na criação, que dependeu, em grande parte, de boas apresentações do zagueiro e lateral Fábio Faria e do meia André Villas Boas. Preocupado com a falta de gols, o clube foi atrás de reforços, mas trouxe apenas atacantes, esquecendo do meio-campo, setor de grande deficiência no elenco. No entanto, na visão de elenco e diretoria, a queda ficou até dentro das expectativas, haja vista que a campanha do primeiro turno acabou ajudando em mais um ano de permanência na elite portuguesa. Resta saber se a queda livre da temporada recém-acabada será prolongada em 2010/11.
Sporting (4º lugar, 45 pontos)
Técnico: Paulo Bento e Carlos Carvalhal
Competição europeia: eliminado na terceira fase eliminatória da Liga dos Campeões e nas oitavas da Liga Europa
Taça de Portugal: eliminado nas quartas de final
Taça da Liga: eliminado nas semifinais
Destaque: Miguel Veloso (volante)
Artilheiro: Liedson (13 gols)
Melhor momento: Sporting 3 x 0 Porto (21ª rodada)
Pior momento: Sporting 0 x 1 União de Leiria (13ª rodada)
Bônus: classificado para a Liga Europa
Nota da temporada: 4,5
O Sporting viveu, em 2009/10, uma crise de identidade assustadora. Desde o começo da temporada, um dos eternos favoritos mostrou estar longe de ser um candidato sério a título e mesmo à Liga dos Campeões. Sem dinheiro, os Leões gastaram mal, trouxeram jogadores que se mostraram encostos, como Matias Fernandez e Caicedo (que acabou indo embora), e sentiram o ótimo começo do rival Benfica. A eliminação precoce na LC e a campanha nada convincente na Liga Europa derrubaram Paulo Bento e trouxeram Carlos Carvalhal, que demorou demais para arrumar a casa. E o problema não eram nem derrotas, mas empates seguidos, por vezes em casa, com times até bem inferiores.
O fundo do poço parecia decretado após as quatro derrotas seguidas, com direito a duas goleadas para os rivais Porto e Benfica, no começo de fevereiro. Curiosamente, foi a partir daí que os Leões rugiram pela primeira vez na temporada, recuperando-se com boas vitórias na Liga Europa e um belo 3 a 0 para cima dos portistas. Até João Moutinho rendeu. Mas já era tarde demais. E se não bastasse, Carvalhal, que enfim poderia começar o trabalho do zero em 2010/11, acabou sem renovação e passou pela desconfortável situação de trabalhar sabendo que, em poucos jogos, seu lugar já tinha dono. Uma temporada em que quase tudo deu errado, e por culpa própria do Sporting.
Vitória de Guimarães (6º lugar, 41 pontos)
Técnico: Nelo Vingada, Basílio Marques (interino), Paulo Sérgio
Competição europeia: nenhuma
Taça de Portugal: eliminado nas oitavas de final
Taça da Liga: eliminado na segunda fase de grupos
Destaque: Nilson (goleiro)
Artilheiros: Rui Miguel, Andrezinho e Nuno Assis (5 gols)
Melhor momento: Olhanense 0 x 2 Vitória de Guimarães (11ª rodada)
Pior momento: Vitória de Guimarães 1 x 2 Marítimo (30ª rodada)
Bônus: nenhum
Nota da temporada: 5
Lembram-se do Fluminense em 2005, que passou diversas rodadas entre os quatro primeiros do Brasileirão e de tanto tropeçar perdeu a vaga na Libertadores para o Palmeiras? O que passou o Vitória de Guimarães foi, no mínimo, muitíssimo parecido. Favorito a ficar com o último posto para a Liga Europa, o alvinegro do Minho deu uma amarelada inesperada e inexplicável, justamente nos jogos teoricamente mais sossegados para se comemorar o passaporte europeu. A campanha na temporada não foi ruim. Ao contrário. Após um primeiro turno irregular, os vimarinenses iniciaram uma boa reação a partir de dezembro, comandados pelo meia Nuno Assis e pela segurança do goleiro Nilson.
O problema é que em jogos cruciais, o time caiu. Caso, por exemplo, da derrota no clássico contra o Braga, sob muitos protestos contra a arbitragem. Ou no empate em casa contra o Olhanense, já na reta final. Mas foram os dois últimos jogos que fizeram a diferença. Em péssima partida, veio um empate sem gols com o Rio Ave, e a disputa ficou para a última rodada, contra o rival direto Marítimo. Um empate, diante de sua torcida, era o suficiente. Pois o Guimarães acabou surpreendido. Jogou somente apostando no regulamento e ficou a ver navios. Não deixa de ser uma punição a Paulo Sérgio, treinador que, muito antes do fim do campeonato, já se pronunciava como técnico do Sporting.
Vitória de Setúbal (13º lugar, 25 pontos)
Técnico: Carlos Azenha, Quim (interino) e Manuel Fernandes
Competição europeia: nenhuma
Taça de Portugal: eliminado na quarta fase
Taça da Liga: eliminado na primeira fase de grupos
Destaque: Keyta (atacante)
Artilheiro: Keyta (10 gols)
Melhor momento: Vitória de Setúbal 3 x 2 Marítimo (14ª rodada)
Pior momento: Benfica 8 x 1 Vitória de Setúbal (4ª rodada)
Bônus: nenhum
Nota da temporada: 4,5
O Vitória de Setúbal quase se preparou para comemorar o centenário, em novembro, na segunda divisão. Mantivesse o desempenho tétrico do início do campeonato, com direito à goleada histórica por 8 a 1 sofrida para o Benfica, era difícil que o rebaixamento não viesse. O trabalho começou todo errado, prejudicado por muitos motivos, como o excesso de jogadores, o atraso no pagamento dos salários (principalmente nas categorias de base), e a contratação do inexperiente Carlos Azenha, que acabou rachando o numeroso elenco ao desprezar muitos desses atletas que indicou ao presidente Fernando Oliveira. Um cenário trágico, que só melhoraria no final do primeiro turno. Mudou o comando.
Com a chegada de Manuel Fernandes, técnico muito querido em Setúbal, o Vitória mudou de figura. Se demorava a vencer, passou a arrebatar empates durante o período de “reconstrução” que o clube viveu no meio da temporada. Até a 26ª rodada, foram somente duas derrotas desde que Fernandes assumiu, e uma série de igualdades que, aliada às duas vitórias obtidas nesse meio tempo, salvaram os sadinos do pior. O fim do campeonato veio com um relaxamento que quase colocou tudo a perder – foram quatro derrotas em quatro jogos. Mas os tropeços de Belenenses e Leixões impediram que os planos do VFC fossem estragados. Ao menos, o centenário será comemorado na elite. Menos mal.
União de Leiria (9º lugar, 35 pontos)
Técnico: Manuel Fernandes e Lito Vidigal
Competição europeia: nenhuma
Taça de Portugal: eliminado na quarta fase
Taça da Liga: eliminado na segunda fase de grupos
Destaque: André Santos (meia)
Artilheiro: Cássio (12 gols)
Melhor momento: Vitória de Setúbal 0 x 4 União de Leiria (4ª rodada)
Pior momento: Belenenses 5 x 2 União de Leiria (29ª rodada)
Bônus: nenhum
Nota da temporada: 6,5
A ascendente do segundo turno da Liga Vitalis do ano passado se manteve (claro, com todas as dificuldades da elite) na Liga Sagres. Contra todos os prognósticos, o Leiria se manteve na parte de cima da tabela durante o certame inteiro, e até a penúltima rodada esteve brigando por Liga Europa. Em dados momentos, mostrou ser até mais regular, ainda que com um elenco mais limitado, que o Vitória de Guimarães e o Nacional. Mesmo a perda de Manuel Fernandes para o Vitória de Setúbal não derrubou os leirienses. Com a segurança de André Santos, novamente emprestado pelo Sporting, e a pontaria de Cássio, a equipe sonhou com a confirmação de um retorno em grande estilo.
Não que não tenha sido, mas a reta final da equipe acabou evidenciando que o fôlego acabara, e que será um grande desafio retomá-lo na próxima temporada. O ataque até conseguia não deixar de marcar, mas a defesa virou um verdadeiro queijo suíço. O supracitado André Santos até tentou se desdobrar, e o goleiro sérvio Djuricic fez o que pode, mas estava difícil. Foram 14 gols sofridos nas últimas cinco rodadas, quase três por partida. Tentos esses que afundaram o Leiria na briga pela Liga Europa. Sem André e, provavelmente, Cássio e o também atacante Carlão, ambos pretendidos por outros clubes, desenha-se uma temporada 2010/11 dificílima ao UDL.



