Regras contra a crise

A crise financeira instalada na Europa, somada a problemas de administração, já fez suas vítimas em Portugal. Times como o Varzim e o União de Leiria tiveram sérios problemas, já tratados na coluna. E o noticiário da imprensa portuguesa dá conta que vários outros clubes estão a um passo de se atolarem na dificuldade econômica.
Nesta semana, a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol anunciaram medidas em conjunto que, se não vão resolver definitivamente o problema, certamente servem para dar um respiro a quem está em dificuldade. Um alento especialmente aos jogadores, que são os que mais sofrem no bolso as consequências da crise.
Dentre as ações anunciadas, a mais importante é a criação de um novo Fundo de Garantia Salarial para o futebol profissional, agora no valor de € 500 mil (aproximadamente R$ 1,23 milhão). Este fundo poderá ser acionado por qualquer jogador que atue nas ligas portuguesas e esteja, comprovadamente, há 60 dias sem receber salário.
Nesse caso, enquanto a situação não for resolvida, o atleta em questão passará a ganhar o salário mínimo estabelecido para a divisão em que atua – os valores estão logo abaixo.
As regras do novo Fundo também preveem sanções aos times que atrasarem os pagamentos. Assim, quando um jogador acionar o recurso, seu clube terá dez dias para resolver a situação. Se não o fizer, perde três pontos na tabela de classificação, fica impedido de registrar contratos de novos jogadores ou de renovações. E mais: a entrada nessa espécie de “ficha suja” do futebol português servirá como um dos critérios de desempate na classificação.
Dos € 500 mil que comporão o novo Fundo, € 200 mil são remanescentes do Fundo anterior, criado em 2008. O restante do dinheiro ficou por conta da Liga (€ 150 mil), da Federação (€ 100 mil) e do Sindicato dos Jogadores (€ 50 mil).
Salário mínimo menor
Outra medida importante anunciada pelos dirigentes é a redução do valor do salário mínimo para os clubes da segunda, terceira e quarta divisões. Na segundona, o mínimo passa de € 1.212,50 (R$ 3 mil) para € 848,75 (R$ 2,1 mil). Na terceira, de € 950 (R$ 2,3 mil) para € 727,50 (R$ 1,8 mil). E na quarta, de € 727,50 (R$ 1,8 mil) para € 606,25 (R$ 1,5 mil).
Na prática, isso significa que um time da última divisão portuguesa, que conte, por exemplo, com 25 jogadores em seu elenco, pode ter uma folha salarial mensal de € 15.156,25 (R$ 37,5 mil). Até a temporada anterior, o mínimo que esse clube poderia gastar mensalmente com salários era € 18.187,50 (R$ 45 mil), uma considerável diferença.
Vale lembrar que as mudanças valem somente para os casos de novos contratos ou renovações. Assim, quem ganhava o salário mínimo antigo e continua com o contrato em vigor, não poderá ter os vencimentos alterados. No caso da primeira divisão, o valor do salário mínimo não foi alterado e segue nos € 1.455 (R$ 3,6 mil).
As alterações são válidas para as próximas duas temporadas e compõem o que foi chamado de novo Contrato Coletivo de Trabalho. “Esta é uma solução que ajuda a permitir a sustentabilidade dos clubes, especialmente os da Segunda Liga, que revelam déficit por causa do grande peso salarial”, afirmou Mário Figueiredo, presidente da Liga, no dia do anúncio das novas normas.
Seu discurso, aliás, esteve bem afinado com o do presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista: “Temos consciência de que o futebol não pode estar alheio à realidade social que o envolve. Esta é uma medida que defende o jogador português.”
Aposta nos jovens
Outras alterações na tesouraria do futebol português para as próximas duas épocas dizem respeito aos jovens atletas. No caso do primeiro contrato profissional de jogadores entre 18 e 23 anos de idade, os clubes – de qualquer divisão – poderão pagar o mínimo de € 485 mensais (R$ 1,2 mil).
A ideia é que, diminuindo o valor salarial, as equipes sejam motivadas a apostar mais em novas revelações, especialmente aquelas formadas em suas próprias categorias de base.
Por receber menos que seus colegas, o jogador nessa situação terá uma compensação financeira quando for negociado: o direito a 12% do valor da transação. Mas, se o atleta for utilizado em mais da metade dos jogos de seu time na temporada, este regime contratual diferenciado cai, e passam a valer as mesmas regras aplicadas para os demais.
Agora, com as novas regras postas à mesa, espera-se que os dirigentes dos clubes lusitanos saibam agir com a sabedoria necessária para resolver a equação: não deixar a qualidade dos campeonatos nacionais cair e, ao mesmo tempo, ter equipes com a saúde financeira em dia.
Curtas
– Vítor Pereira disse que espera uma temporada “difícil” para o Porto em âmbito local. Nos amistosos de pré-temporada disputados até agora, o destaque da equipe tem a sido a defesa, que não foi vazada nenhuma vez sequer.
– O presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, foi suspenso de suas atividades por 45 dias e multado em € 2,5 mil pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol. O motivo foram as ofensas que ele proferiu contra dirigentes do Sporting, quando do confuso dérbi de novembro do ano passado.
– O Benfica encara com seriedade o jogo desta sexta-feira, na Luz, contra o Real Madrid, no qual estará em disputa a Eusébio Cup. Além de várias declarações de jogadores de que a partida será “para valer”, o técnico Jorge Jesus tem fechado os treinamentos para a imprensa.
– Sem marcar nenhum gol sequer (com duas vitórias nos pênaltis), o Sporting conquistou a Pepe SuperCup, torneio de pré-temporada. A novidade esteve na escalação da linha defensiva totalmente nova: Cédric pela direita, Pranjic na esquerda, Boulahrouz e Marcos Rojo no miolo.



