Portugal

Recreio dos estudantes

Após seis rodadas na Liga Zon Sagres, o Porto está disparado na primeira posição, sete pontos diante do vice-líder. No entanto, de um lado, o Sporting teve um início de temporada ruim, com apenas cinco gols marcados em seis partidas e somente duas vitórias até o momento. De outro, o Benfica registrou o pior começo de campeonato de sua história, emplacou dois triunfos consecutivos – o último deles, sem brilho – mas já tropeçou na Liga dos Campeões.

O próprio Braga, que despontou como novo candidato ao posto de quarto grande, até vem bem no torneio nacional, mas já soma dois totais fracassos europeus, contra Arsenal e Shakhtar, e não se sabe até que ponto os resultados da LC podem influenciar a equipe. Com isso, um alvinegro tem, mesmo ante suas limitações, feito uma campanha bastante positiva, despontando como possível “chato” da temporada 2010/11 em Portugal: a Acadêmica de Coimbra.

Os Estudantes possuem já números bastante interessantes. Contam com o segundo melhor ataque da competição até o momento (12 gols, um a menos que o Porto) e dentre os triunfos, já arrebataram pontos contra rivais importantes, como o Vitória de Guimarães (3 a 1) e inclusive sobre o Benfica (2 a 1), na abertura do campeonato, em pleno Estádio da Luz. O futebol apresentado pelo time de Coimbra também merece elogios. É uma equipe de marcação forte, mas que não se furta a sair para o ataque.

Contra os Encarnados, por exemplo, mesmo encarando o atual campeão fora de casa, os comandados de Jorge Costa não se fecharam e tiveram inclusive maior domínio na primeira etapa. No segundo tempo, naturalmente, houve uma maior carga do Benfica, o que não significou que a Acadêmica tenha se trancafiado na defesa. Até porque, ao se observar os jogadores que têm atuado e as próprias estatísticas, nota-se que é um time de características ofensivas, sempre atuante em um 4-3-3 veloz.

Um dos destaques da Briosa, que tem seu melhor início de época desde a década de 60, vêm sendo, mais uma vez, o atacante Sougou, que já fora artilheiro da equipe na última temporada com 10 gols e principal nome do time de Coimbra. O senegalês tem complicado muito as defesas rivais com velocidade e oportunismo, e contando com a colaboração de dois jogadores que usualmente atuam mais recuados, mas têm rendido bastante bem atuando adiantados: Miguel Fidalgo e Diogo Valente.

Os meio-campistas dos Estudantes também vem tendo atuações de destaque, principalmente Nuno Coelho. Este último, volante com boa saída de jogo apoio ao ataque, vem cumprindo as expectativas acerca de seu desempenho quase que como um “maestro“, passando segurança e ajudando a equipe a sair para o ataque. Na defesa, setor que pinta como o menos destacável até o momento, o goleiro Peiser, contratado junto à Naval, tem agradado, e o austríaco Markus Berger, mostrado regularidade.

Mesmo no banco o time vem encontrando sucesso em opções de quem pouco se esperava, como Júnior Paraíba, que vem entrando bem nos jogos, dando agilidade à ligação com o ataque e à armação, e o atacante Laionel, que já marcou gols decisivos para a Acadêmica – como o belo tento assinalado contra o Benfica, nos acréscimos, que decretou a vitória sobre os Encarnados -, sendo também o reserva mais utilizado por Jorge Costa. De anônimo, virou o talismã da equipe.

O treinador, aliás, parte nova safra de comandantes portugueses, encabeçada por André Villas-Boas e Domingos Paciência, também vem se destacando. Histórico capitão e campeão pelo Porto, o “Bicho”, como era conhecido por sua raça em campo, tem conseguido passar a determinação das quatro linhas para seus jogadores. Já conseguira levar o Olhanense 34 anos depois à primeira divisão portuguesa, e na última temporada, mesmo comandando um time muito jovem, segurou os algárvios na elite.

Ainda há 80% do campeonato por correr, e tendo em vista o surgimento das primeiras lesões – como a de Nuno Coelho, mais recente -, é esperado que a Acadêmica apresente uma queda de rendimento. O desafio de Jorge Costa é, desde já, o de administrar o natural ímpeto que, embora negado pelos jogadores, tende a ocorrer pela campanha. O time não é brilhante, nem conta ainda com um conjunto totalmente coeso (como o Braga formou em 2009/10). Até por isso, mesmo com o brilho de uma vaga européia resplandecendo, o discurso ainda é – e deveria seguir sendo – de que “o que vier é lucro”.

Ficou difícil

O Braga viveu mais um pesadelo na Liga dos Campeões, e, talvez injustamente, já há quem, em Portugal, questione o trabalho de Domingos Paciência. A derrota em casa por 3 a 0 para o Shakhtar Donetsk foi dolorosa, ainda que provocada não só pelo ótimo segundo tempo do time ucraniano, mas também por uma instabilidade emocional que atingiu os bracarenses após os muitos gols impedidos por Pyatov e, em especial, perdidos na etapa inicial. Destaque para o tento desperdiçado por Leandro Salino, no fim do primeiro tempo, após jogada de Matheus, quando o placar ainda estava zerado.

Paciência, dessa vez, errou ao mudar o esquema que tinha preparado, que vinha permitindo aos portugueses tanto sair para o jogo como conter avanços dos ucranianos. Trocou justamente Salino, que não vinha mal – pelo contrário -, colocou Lima com Matheus à frente e acabou ficando desguarnecido do meio para trás. Para complicar, mais uma vez Felipe “entregou o ouro”, e nas poucas chances que voltou a criar, o Braga fracassou nos arremates. Eficiência que não faltou aos visitantes, que parecem ter fechado o caixão arsenalista no que diz respeito às oitavas da LC.

Após o jogo, o atacante Paulo César lamentou a “falta de experiência” da equipe. Sim, houve realmente o impacto de uma maior rodagem européia por parte do elenco do Shakthar, como o próprio Braga acabou se favorecendo disto na última temporada, ao arrebatar, com um grupo rodado e conhecido em Portugal, o vice-campeonato nacional. Pode-se até depreender que houve o nervosismo da competição na hora de se criar ou concluir jogadas. Mas além dos ucranianos serem realmente melhores tecnicamente, houve um conjunto de fatores, além do erro estratégico de Paciência – que não é pior treinador por causa disso. O tempo está passando no Minho…

Derrota desnecessária

Já o Benfica acabou derrotado pelo primeiro clube grande que encarou na Liga dos Campeões. A vitória sem brilho contra o Hapoel Tel-Aviv já deveria ser um indício de que as Águias precisavam se mexer, e ao que parece, as lembranças da boa atuação no clássico contra um Sporting cada dia mais irreconhecível estavam mais à mente do que efetivamente a realidade: os Encarnados ainda dependem muito do brilho de um ou outro jogador, e não contam mais com a variedade de possibilidades que Ramires e Di Maria dispunham ao time.

Não se pode dizer que o Benfica não criou oportunidades. Pelo contrário: tal qual o Braga, perdeu-as quando não podia e quando ainda não estava atrás no placar. Além disso, houve falhas na marcação que deixaram a experiência de Raul e a periculosidade de Jurado, Farfan e Huntelaar (até ele…) jogar. Pensando-se em classificação, era um jogo em que não se podia pensar em derrota, tanto pela manutenção da reação na temporada como tendo em consideração o momento delicado que vive o próprio Schalke 04, que até então não havia triunfado em casa em 2010/11.

O peso desse resultado? Ainda é uma incógnita, já que com o Lyon vencendo a segunda e disparando na liderança do grupo B, caberá ao time lisboeta correr atrás do prejuízo em casa, no returno, contra os alemães. Dessa forma, a equipe da Luz não pode pensar nem em empatar com o Hapoel quando se deparar novamente com os israelenses. Sabe também que é essencial arrancar pontos dos franceses quando atuar no estádio Gerland, além de superá-los no encontro em Lisboa. A margem de erros aqui, tendo em vista o equilíbrio do grupo, não permite novos deslizes.

Aliás, no domingo, o Benfica recebe o Braga em um jogo que, nesse atual pé, promete ser emocionante, e pode ser um sinalizador do que se esperar para o desenrolar da Liga dos Campeões. Tratam-se, afinal, de dois dos candidatos ao título nacional, e tendo em vista as circunstâncias, o placar pode influenciar inclusive o planejamento futuro de ambas as equipes – leia-se desde já sonhar efetivamente com o troféu.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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