Questão de ótica

Pergunte a eventuais torcedores – no Brasil, isso até que não é tão difícil de encontrar, afinal – de Porto e Benfica se a Taça da Liga era uma das prioridades da temporada. A probabilidade de a resposta ser “não” é grande e natural, principalmente por, no fundo, ser uma competição que não leva ninguém a lugar nenhum, exceto a, de alguma forma, não encerrar o ano no zero. Porém, o torneio, que chegará a mais uma final neste final de semana, ganha ares de relevante importância por parte seus finalistas. O título, todavia, é apenas um detalhe.
Vejamos o caso dos Dragões. Em crise desde a goleada sofrida para o Sporting, pela Liga Sagres, os portistas se viram, em questão de uma semana, fora da Liga dos Campeões e praticamente sem chances de arrebatar o penta no campeonato nacional. Para eles, restam apenas duas conquistas “palpáveis”: a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Acontece que, na primeira, o título, embora mais “gordo”, não teria o mesmo reflexo para a temporada, por dois motivos essenciais.
Primeiramente, porque, com o terceiro lugar praticamente garantido na Sagres, a conquista seria “somente” mais uma para o currículo portista. Além disso, a presença de equipes de pequena força na concorrência (Naval, Chaves e Rio Ave) dá, naturalmente, um menor impacto à conquista. Por sua vez, no domingo, o duelo, a chance de dar a volta por cima e, de quebra, ser campeão, é justamente contra um rival que vive seu melhor momento nos últimos anos, que é o Benfica. Um triunfo aí tem efeitos muito mais perceptíveis junto à torcida e, claro, mídia, além de resgatar a moral da equipe.
Mas e os encarnados? Por que para eles o que pode ser meramente “mais um título” ao término da temporada teria alguma relevância? O primeiro ponto é justamente o que justifica a importância da conquista para o Porto: decidir uma competição contra um rival. A vitória levaria o clube não somente ao bicampeonato da Taça, mas ao primeiro título “oficial” do atual elenco, o mais badalado do país atualmente. O que daria ainda mais moral para o segundo e principal ponto: o Campeonato Português.
No outro final de semana, o Benfica tem a partida mais importante da temporada, contra o Braga, na Luz. A relevância do jogo se justifica com os ingressos tendo-se esgotados com mais de uma semana para o duelo, e com a noção de que, em caso de triunfo, não apenas serão abertos 6 pontos na liderança da competição (mais saldo de gols), mas se anularia o confronto direto, que, por hora, tem vantagem arsenalista. Chegar com status de campeão e com casa lotada é tudo que os benfiquistas mais iriam adorar para pressionar o perigoso rival do Minho.
E em caso de derrota de um ou outro? Inicialmente, ela seria realmente mais fatal ao Porto, haja vista a pressão que haverá para que, ao menos, levante-se a Taça de Portugal. Natural, depois de um tetracampeonato recente no currículo. Além disso, embora isso não fique explicito, a tendência é que a eventual alegria da conquista fique em segundo plano, como se não se tivesse feito “mais que a obrigação”. Sem contar que um resultado negativo contra os encarnados dificilmente não colocará o aguardado ponto final na passagem de Jesualdo Ferreira no Porto.
No caso das Águias, o reflexo de um placar adverso pode ter um impacto variável, dependendo desta quinta, na Liga Europa, contra o Olympique de Marselha. Tudo porque, tanto na partida de ida, em casa, como no último jogo na Sagres, contra o Nacional, o Benfica foi mal, ainda que siga em lua-de-mel com a torcida. Dois tropeços praticamente obrigam uma vitória contra o Braga no outro final de semana, mesmo que o empate baste para manter a liderança. Ficar três jogos sem vencer, nessa altura do campeonato, seria muito perigoso para o time lisboeta.
Relevância pontual
A situação da dupla portuguesa de melhor desempenho nos últimos anos pode passar uma falsa impressão de que, de alguma forma, a Taça da Liga é importante. Como se vê, porém, a relevância desta competição é mais pontual do que efetivamente pela representatividade do título. Jorge Jesus, por exemplo, declarou que vai com força total contra o Olympique, mesmo que isso force fisicamente a equipe para o jogo de domingo. Além disso, ambos os finalistas jogaram boa parte da competição com times mistos, e ainda assim, atingiram a decisão.
Vale lembrar que a Taça da Liga surgiu com o objetivo de motivar os clubes pequenos do país, que poderiam brigar por títulos. Porém, tal como muitas outras Copas de Liga espalhadas pela Europa, é um fracasso, tanto de público como de interesse. Mesmo o alvo do torneio, no caso os não-grandes, priorizam a Liga Sagres ou a Taça nacional, permitindo que a tríade Porto-Sporting-Benfica, mesmo desfalcada, atinja a decisão. No fim, a competição, que nem vaga européia concede e pouco paga, fica sem identidade, necessitando de circunstâncias externas para ganhar uma ótica favorável.



