Portugal

Questão de orgulho português na seleção

O experiente e rodado zagueiro Ricardo Carvalho pegou muita gente de surpresa com sua renúncia repentina da seleção portuguesa, pouco antes da equipe entrar em campo para enfrentar o Chipre, pelas eliminatórias da Eurocopa, na semana passada. Tudo porque o atleta do Real Madrid não gostou nada de saber que ficaria no banco de reservas diante dos cipriotas, já que o técnico Paulo Bento utilizaria Pepe e Bruno Alves no miolo defensivo.

Em comunicado emitido à imprensa no dia fatídico, Ricardo Carvalho – que acabou preterido por para Pepe, justamente seu companheiro de Real Marid – se disse “ferido em sua digninidade” e que não era respeitado. “Me sinto em plena forma física e também mental, como tenho demonstrado no clube e na seleção. Se me fazem sentir qure sobro e não me dizem, a única possibilidade que me resta é sair”, concluiu. A saber, Portugal aplicou 4 a 0 nos cipriotas, mas isso é o de menos.

A atitude não chega a ser uma novidade em termos de seleção. Nesta quarta-feira, o ex-jogador Paulo Futre revelou que fez algo semelhante em 1995. Na ocasião, a equipe era comandada por Antônio Oliveira, e o treinador disse-lhe que o deixaria no banco para o duelo diante de Liechtenstein, pelas eliminatórias da Eurocopa de 1996. Futre disse que era o craque do time na época – e o era – e também pediu para sair. Na mesma entrevista, porém, o ex-jogador contou ter feito as pazes com Oliveira.

O curioso é que não é a primeira vez que o próprio Ricardo Carvalho se irrita ao ser preterido por um treinador. Em 2005, quando defendia o Chelsea, o então treinador dos Blues e seu antigo comandante nos anos de Porto, José Mourinho, optou em deixá-lo no banco de reservas logo na estreia da temporada, escalando William Gallas para a titularidade. À imprensa, revoltado, o defensor questionou o porquê de ter ido para o banco e dizia não compreender a razão da decisão.

Mourinho, que como bem se sabe, não gosta de ser contrariado, não deixou barato: “Ricardo deveria fazer um teste de QI, pois parece ter problemas para entender algumas coisas. Eu disse aos jogadores, neste verão, que eles precisariam de paciência por termos um elenco grande e todos necessitarem de oportunidades. Ele trabalhou comigo por quatro anos (até aquele instante) e não entendo essas declarações. Ele provavelmente precisa ver um médico”, disparou o Special One.

A nova atitude intempestiva de Ricardo Carvalho pode até ser considerada “compreensível”, mas não é nem de longe correta, especialmente tendo em vista sua experiência como profissional e jogador de seleção. Foi desrespeitosa para com o companheiro luso-brasileiro e por meio dela, criou-se um claro desconforto na equipe portuguesa e no próprio Real Madrid, onde atua ao lado de Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe. Por mais que os dois zagueiros tenham sido vistos conversando após o último treino merengue, é difícil concluir se o clima é o mesmo de outrora.

Mas o pior aí é que o episódio praticamente encerra, antes do previsto, o ciclo de Ricardo Carvalho na seleção portuguesa. Um jogador que está em boa forma, apesar dos 33 anos, e era um nome quase certo para a Copa do Brasil. Contudo, Carvalho só voltará a vestir a camisa da equipe das Quinas se Paulo Bento deixar o cargo – o treinador já garantiu que não mais convocará o zagueiro do Real Madrid. Em 2014, com 36 anos, o defensor já estará naturalmente sem persepctivas de chegar a 2018, quando terá 40 primaveras de vida.

Um triste fim de carreira internacional, portanto, de um dos jogadores mais experientes dentre os que já ostentaram a camisa rubro-verde. De 2003 (vitória de Portugal por 5 a 3 sobre a Albânia) até 2011, foram 75 partidas (com mais duas, igualaria-se a Nuno Gomes no top 10 da equipe das Quinas), com duas Eurocopas (2004 e 2008) e duas Copas do Mundo (2006 e 2010) disputadas no currículo. No Mundial sul-africano, formou com Bruno Alves uma segura linha defensiva, que sofreu somente um gol em quatro jogos.

E se a saída de Carvalho é ruim para ele próprio, que perde a oportunidade (real) de ir para uma terceira Copa do Mundo, tampouco é positiva para a seleção. Por mais que Bruno Alves seja um defensor esforçado e Pepe tenha qualidade – ainda que por vezes apele para a violência – o zagueiro do Real Madrid ainda é o melhor do país na posição. É aquela coisa: Paulo Bento pode até voltar atrás na decisão de não mais chamar Ricardo Carvalho, mas se o fizer agora, perde o controle da equipe – que desde sua chegada, após o Mundial do ano passado, está unida como não se via desde a era Felipão.

Como se vê, não há quem saia fortalecido desse episódio. Ricardo Carvalho ficará marcado por um ato de estrelismo e Paulo Bento pode acabar questionado pela ausência do melhor defensor português se o setor se ver em problemas. A torcida, em Portugal, é que ambas as partes deixem o tempo esfriar, como fizeram Antônio Oliveira e Paulo Futre na década de 90. Para a seleção tuga e para os próximos passos da carreira de ambos, esta seria certamente a melhor opção.

Liga Portuguesa?

O Campeonato Português é cada vez menos português. É o que constatou um levantamento do site Mais Futebol, com o fechamento da janela de verão. Dos 438 atletas inscritos na Liga, apenas 184 42%) são portugueses. Os 58% restantes são de distintas nacionalidades, sendo 140 deles (32% do total e 55% dos estrangeiros) são brasileiros. Os argentinos vêm (bem) atrás, com 12 atletas inscritos em Portugal, seguidos de Cabo Verde (11) e Uruguai (8). Os times mais portugueses da elite são Vitória de Setúbal e Olhanense (17 tugas), com Paços de Ferreira, Beira-Mar e Feirense (16) logo atrás.

Por sua vez, os três clubes menos portugueses são justamente os três grandes. O Porto tem somente quatro atletas jogadores do país no elenco, enquanto Benfica e Sporting contam com sete. Os Dragões, contudo, utilizam 75% de seus portugueses entre os titulares (Rolando, João Moutinho e Silvestre Varela). Os Leões têm usado quatro dos sete compatritoas no onze habitual (Rui Patrício, João Pereira, Daniel Carriço e André Santos). Já as Águias, irônicamente o clube mais popular de Portugal, não tem levado a campo nenhum jogador português entre os titulares.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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