Quem será o titular?

A pré-temporada do Benfica é usualmente seguida com enorme atenção pela mídia portuguesa. Trata-se do clube que mais gira perspectivas ao longo da janela de transferências devido a seu alcance no país, mesmo não trazendo ou tendo real interesse em metade dos nomes que são veiculados na imprensa como “próximos” da Luz. Feitas as contratações, os olhos passam a focar aqueles que serão os detentores das posições. E se nos últimos anos a época começou sem grandes dúvidas acerca de quem seria o detentor da camisa 1, o cenário agora é outro.
De um lado, o Benfica conta com a experiência de um dos melhores goleiros da última Copa do Mundo e que está de volta a Portugal: Eduardo. De outro, tem a motivação de um brasileiro que vive a melhor fase de sua vida e ficou marcado com um dos heróis do Braga na histórica temporada passada, fechando o gol durante a Liga Europa: Artur Moraes. Claro, a dupla não é a única que está de olho na titularidade, mas do atual elenco, é quem desponta com maior perspectiva de suprir aquela que, em 2010/11, foi uma das grandes carências das Águias.
O protagonismo está em tese, com Eduardo, ainda que mais pelo nome do que pelo momento. Antes de rumar à Copa, o goleiro, ainda no Braga — time que o revelou e formou —, foi um dos destaques do time vice-campeão nacional em 2009/10. Boas saídas de gol e reflexos eram suas características mais elogiadas, e que ganharam ainda mais olhares interessados no jogo que sacramentou a eliminação tuga, no Mundial, diante da Espanha. Na ocasião, Eduardo evitou que a Furia fosse além do 1 a 0, tamanha a dificuldade dos portugueses em chegar ao ataque.
Contratado pelo Genoa, foi titular ao longo da temporada italiana, mas viveu momentos de verdadeira tensão. Falhas em jogos importantes, como em derrotas para Internazionale e Juventus, fizeram com que o presidente de seu clube, Enrico Preziosi, soltasse a pérola: “Com Eduardo temos sempre de contar com cinco frangos por época”. O fracasso em sua primeira experiência no exterior, evidenciada pela ironia com a qual foi referido por Preziosi, deixou claro que dificilmente o português seguiria no Genoa, e que ao menos seria emprestado.
Até por isso, Eduardo chegou ao Benfica cedido e, de certa forma, pressionado a recuperar a boa forma, tanto para convencer o Genoa — e o próprio time encarnado a tentar contratá-lo em definitivo no fim da temporada — de que ainda é o arqueiro que se destacou na África do Sul, como para justificar ao técnico da equipe das Quinas, Paulo Bento, de que ainda é o nome ideal para usar a 1 tuga, visto que a evolução de Rui Patrício, goleiro bem identificado com o comandante da seleção, já forma uma sombra delicada para sua progressão como titular.
A questão é que Eduardo não terá vida fácil. Do ponto de vista técnico, é até superior ao “concorrente” Artur Moraes, ainda que ambos sejam quase equivalentes em experiência — o brasileiro talvez esteja até um pouco a frente. No entanto, é incontestável que o momento é todo de Artur. Suas mãos ajudaram o Braga a sair ileso de grande parte dos confrontos decisivos da última Liga Europa. Quando as partidas eram em território bracarense, aliás, parecia crescer ainda mais, passando a tranquilidade que Alberto Rodriguez e Paulão necessitavam. Liverpool, Dynamo Kiev e o próprio Benfica sentiram isso na pele.
Inicialmente, Artur veio para ser titular. Era notória, na Luz, a insatisfação com Roberto — que ainda segue no Benfica, mas claramente desprestigiado —, responsável por diversas falhas ao longo da última época e que não deverá ficar até o final da temporada no clube. Sendo assim, até a vinda de Eduardo, a afirmação do brasileiro como titular parecia inquestionável. O advento do goleiro da seleção portuguesa, todavia, coloca dúvidas na cabeça de Jorge Jesus. Dúvidas coerentes, aliás, tendo em vista ambos os jogadores.
Pesa a favor de Eduardo uma rodagem nada desprezível, como uma maior experiência dentro da liga portuguesa — e o consequente conhecimento dos atacantes e de suas características — e o próprio fato de ser e ter sido o goleiro titular da seleção nacional, que poderá, inclusive, ser decisiva para a opção final de Jesus acerca de quem será o titular. Além disso, não se pode ignorar a motivação que fatalmente circunda a aura do arqueiro, ávido em dar a volta por cima depois da tétrica temporada vivida na Itália.
Por sua vez, Artur Moraes está em um dos momentos mais adequados a um goleiro, que é o da confiança plena. Chegou sem a desconfiança que acomete Eduardo por agora e, em tese, seria o arqueiro mais indicado para se iniciar a temporada — o que, diga-se, pode até acontecer, já que Eduardo acabou de desembarcar na Luz e a equipe tem uma partida importante nesta quarta, pela fase preliminar da Liga dos Campeões, contra o Trabzonspor. Com uma agravante: o jogo de ida será em Lisboa, e é crucial que o emblema da casa não sofra gols.
Independente de quem estiver na baliza contra os turcos e para o desenrolar da temporada, o fato é que se na época passada o Benfica não via muitas alternativas para a baliza — Roberto custou caro e apesar de Júlio César ter agradado, não primava pela regularidade —, agora as possibilidades são bem mais interessantes. Isso porque também chegou à Luz, oriundo do União de Leiria, o promissor Mika, que disputará o Mundial Sub-20 por Portugal como titular e é visto como potencial sucessor de Eduardo na seleção. Se fizer um bom Mundial, não seria nada estranho dizer que Mika passaria também a fazer sombra aos mais experientes.
Dúvidas, dúvidas
Para além da baliza, o Benfica ainda está procurando seu time ideal. Poucas posições parecem certas até o momento. Nolito, que chegou do Barcelona B, tem agradado bastante na pré-temporada e já rendeu Javier Saviola, atuando com Oscar Cardozo mais a frente. A dupla é bastante provável já para a estreia na Liga dos Campeões contra o Trabzonspor. Outro que deve jogar é Javi Garcia, sem concorrentes de força para a volância — Nuno Coelho, que veio da Acadêmica e também é volante, não desponta como grande ameaça.
Na zaga, a disputa está para a vaga ao lado de Luisão. Ezequiel Garay, ex-Real Madrid, é o favorito, mas o brasileiro Jardel, entrosado com o capitão desde a última temporada e de desempenho bastante elogiado até o momento, não pode ser desprezado. Pela direita, Maxi Pereira, que está na Copa América, deverá manter a posição, com o jovem André Almeida, ex-Belenenses, surgindo como outra opção para o setor, além do versátil Rúben Amorim. No entanto, há a possibilidade que Pereira retorne ao Uruguai, e até por isso, o Benfica mira Nelson, hoje no Bétis.
Na esquerda, Emerson, proveniente do Lille, estreou bem no amistoso contra o Toulouse, mas o favorito para a vaga deixada por Fábio Coentrão é mesmo o recém-chegado Johan Capdevilla. Mas é pelo meio, para além de Javi Garcia, que há várias incógnitas. Nico Gaitán, Carlos Martins e Pablo Aimar, titulares na temporada passada, vêm com favoritismo. No entanto, é difícil imaginar que nenhum dos reforços trazidos para a época estará em campo. Sendo assim, o brasileiro Bruno César e o argentino Enzo Peréz (ex-Estudiantes) — até mesmo, talvez, o sérvio Nemanja Matic (ex-Chelsea e Vitesse) — despontam como concorrentes.
O elenco encarnado é forte e inicialmente se mostra mais bem servido de opções que na temporada passada. Sinal de que, enfim, compreendeu-se que apesar de um time titular bastante bom — e que foi decisivo para o título nacional em 2009/10 —, o Benfica precisava de um grupo mais heterogêneo e com capacidade de propiciar a Jesus outras variações. Se as novas apostas darão certo, todavia, só o desenrolar da época dirá. E dar certo não no sentido de arrebatar todos os títulos, mas no tocante a fazer a equipe funcionar. O que não ocorreu durante boa parte de 2010/11.



