Quem ganha, quem perde

Ainda teremos mais alguns dias até que se encerre o prazo para a transferência de atletas no futebol europeu. Mas já é possível fazermos uma análise preliminar sobre a movimentação de jogadores nos três clubes grandes de Portugal (Porto, Sporting e Benfica). E, como não poderia deixar de ser, é desse trio de ferro que deverá sair o campeão português da temporada 2008/2009 – a menos que haja alguma conjunção extraordinária dos astros, como as que levaram o Belenenses ao título em 1946 e o Boavista em 2001.
Comecemos pelo atual campeão, o Porto. O ponto positivo no caso dos Dragões foi a manutenção da equipe técnica que, neste ano, conquistou o tricampeonato para o clube (capitaneada pelo treinador Jesualdo Ferreira). Além disso, foi providencial a manutenção de algumas peças-chaves da última temporada, casos dos argentinos Lisandro Lopez e Lucho González, do marroquino Tarik Sektioui, do meia Raul Meireles e do goleiro Helton. Além disso, chegou um reforço de peso (o ala uruguaio Cristian Rodriguez, “roubado” ao Benfica) e uma promessa (o defesa romeno Sapunaru).
Por outro lado, o Porto também teve perdas consideráveis: uma delas foi a do lateral-direito Bosingwa (melhor da temporada em Portugal), vendido ao Chelsea; a outra foi a saída nada amistosa do meia brasileiro Paulo Assunção, que acertou à revelia com o Atlético de Madrid. Mas a grande bomba deste verão europeu em Portugal pode ser a sempre anunciada partida de Ricardo Quaresma, que ainda parece estar nos planos de José Mourinho na Inter de Milão. A possível saída de Quaresma não deverá ser bem assimilada no esquema utilizado por Jesualdo Ferreira – daí que o Porto, em tese, não ficaria tão forte como na temporada passada com estas três ausências.
Dupla lisboeta conseguirá pôr fim ao domínio portista?
Obviamente, os Dragões poderão sentir a saída de Quaresma & Cia. no âmbito europeu, já que no nível doméstico os dois clubes lisboetas não chegam a assustar – pelo menos por enquanto. O Sporting, à semelhança do Porto, manteve o treinador (o muitas vezes contestado Paulo Bento), o que pode representar uma mais-valia ao longo do campeonato. E o Benfica, que teve três treinadores na última temporada, resolveu apostar mais uma vez num técnico espanhol – desta vez no pouco laureado Quique Flores.
Se o Sporting não teve perdas significativas, à primeira vista poderíamos dizer que também não teve reforços significativos. Chegaram apenas alguns velhos conhecidos da torcida leonina, como o defesa Marco Caneira (preterido por Felipão na última Eurocopa e desvalorizado no Valencia), o meia brasileiro Fábio Rochemback (marcando passo no Middlesbrough) e o atacante Hélder Postiga (desprezado no Porto). De todo modo, trata-se de jogadores que poderão encaixar-se bem no esquema de Paulo Bento e dar consistência ao time ao lado de Miguel Veloso e João Moutinho (desde que estes não sejam negociados antes).
Já o Benfica, além de trocar de treinador, é o que mais terá modificações em sua espinha dorsal. Os encarnados não contarão mais com a vitalidade de Cristian Rodriguez (agora no Porto), nem com o comando de Rui Costa, que abandonou os gramados para assumir a direção de futebol do clube. Em compensação, os Águias reforçaram-se bem, com a chegada do meia argentino Pablo Aimar (ex-Saragoça), do ex-sportinguista Carlos Martins (resgatado ao Recreativo Huelva) e do meia francês Hassan Yebda (Le Mans). Ainda podem chegar os atacantes Luis Garcia (Español) e Smolarek (Racing Santander). Qual o maior desafio para Flores? Fazer com que uma equipe nova ganhe consistência e entrosamento rapidamente, sob pena de perder o rumo no campeonato e na Taça Uefa.
As leviandades do Major
O processo Apito Dourado, referente às manipulações de resultados em Portugal, conheceu seus primeiros resultados na última sexta-feira (18 de julho): de 24 argüidos, dez foram absolvidos pela justiça portuguesa e 14 condenados a diferentes penas (surpreende que nenhum dos condenados tenha sido castigado por crime de corrupção). O caso mais emblemático de todos é o que envolve o major aposentado Valentim Loureiro, ex-presidente da Liga de Clubes em Portugal e atual prefeito da cidade de Gondomar. Loureiro foi condenado por 25 crimes de abuso de poder e um crime de prevaricação. No total, sua pena chega a três anos e dois meses de prisão, mas a execução foi suspensa pelo Tribunal.
Para que o leitor brasileiro tenha uma noção da figura de Valentim Loureiro e de sua importância no futebol português, basta imaginar uma hipotética junção de Eurico Miranda, Nabi Abi Chedid e Paulo Maluf numa só pessoa. O major, que durante duas décadas esteve à frente dos destinos do Boavista, foi ainda penalizado com a perda do mandato da prefeitura de Gondomar, mas já adiantou que irá recorrer. E, numa prova absurda de arrogância e provocação à lei, adiantou ainda que não só continuará a exercer suas funções como alcaide, como também será candidato à reeleição do cargo no próximo ano. Lá como cá…
Golo de Letra
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai… meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade.
(Trecho da canção “Chuva”, de Jorge Fernando, na voz de Mariza)



