Portugal

Princípio de queda livre

Um ponto em dois jogos. Uma derrota fora de casa para uma Noruega que não assusta como há doze anos, quando Tore Andre Flo e companhia levaram o time escandinavo às oitavas de final da Copa. Um empate dentro de seus domínios, com falhas defensivas incríveis, com o fraquíssimo Chipre. Penúltimo lugar em cinco seleções, superando apenas a Islândia, e sem margem para novos erros. Esse é o rescaldo de Portugal após as trágicas primeiras rodadas das eliminatórias da Eurocopa de 2012. Um desempenho bem aquém do que o imaginado, e que acompanhado do já discutido delicado momento de bastidores na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), coloca em xeque mais do que a própria vaga à competição, mas o próprio processo de manutenção tuga entre os grandes do continente.

Explica-se: historicamente, Portugal realmente está abaixo de seleções do chamado primeiro escalão, como Alemanha, Inglaterra ou Itália, mas nos últimos anos, colocou-se como séria pretendente a esse grupo. A começar pelo avanço às semifinais na Eurocopa de 2000, passando pelas badalações que o time de 2002 recebeu para o Mundial, pelo vice-campeonato da Eurocopa de 2004 e o quarto lugar na Copa de 2006, que ratificaram uma presença constante da equipe das Quinas entre os principais concorrentes nas grandes competições que vinha disputando. É possível, ainda, lembrar do avanço às quartas na Euro 2008 e, com algum esforço, dá para encaixar – já com a noção de que algo não muito legal começava a ocorrer – a classificação às oitavas do Mundial deste ano.

No entanto, o primeiro receio de que essa ascendente do futebol português estava por um fio veio com forma suada como veio a vaga para a Copa, quase prejudicada com uma série de intermináveis empates, e salva na reta final. O desempenho no Mundial deu os sinais de que alguma coisa deveria ser reformulada para que a seleção que começava a adentrar o hall das grandes se mantivesse no caminho certo. Reformulação essa que não passa apenas pela mudança de jogadores, mas de filosofia. E esta ainda não veio, com o começo nada confortável nas eliminatórias e o medo de que a equipe se ausente pela primeira vez de uma grande competição desde a Euro 2000. E embora ainda há tempo de que a queda livre não se concretize, pelo que se viu ante Chipre e Noruega, o tempo é curto.

O discurso de Agostinho Oliveira, que assumira a seleção no lugar de Carlos Queiroz, suspenso, de que o time jogaria “em piloto automático” se confirmou, ainda que da pior forma possível. Contra os cipriotas, o ataque até funcionou – afinal, marcou quatro gols, ou não? -, mas a defesa, que sofrera apenas um gol em quatro jogos na última Copa do Mundo, decepcionou totalmente. Pela direita, Miguel mostrou o porquê das dúvidas sobre sua convocação e foi uma verdadeira avenida. Bruno Alves e Ricardo Carvalho foram irreconhecíveis. Mesmo Fábio Coentrão, que fora tão bem mesmo defensivamente na África, encontrou dificuldades, ainda que ofensivamente tenha atuado bem. Até Eduardo, que vinha sendo tão regular, falhou no quarto gol dos rivais.

Claro que não houve só más notícias. Manuel Fernandes, alçado à titularidade, se não foi brilhante, ao menos superou a péssima partida de Raul Meireles, que visivelmente não é o mesmo quando atua mais preso à volância – algo que lhe dará algum trabalho se Roy Hodgson realmente quiser utilizá-lo como substituto imediato de Mascherano. E os dois pontas, Quaresma e Nani, foram os destaques da equipe. O primeiro, aliás, movimentou-se muito bem pelos lados e armou alguns dos principais ataques portugueses. No entanto, apesar dos quatro tentos, faltaram oportunidades. O fato de jogar em casa contra um adversário mais fraco poderia ter levado Agostinho a usar João Moutinho desde o começo ou liberar mais Meireles para atuar como meia. Mas o adjunto quis ser conservador.

Contra a Noruega, a situação foi tão triste de se ver quanto ante o Chipre. Houve, novamente, algumas boas notícias, como a boa estreia de Sílvio, em grande momento no Braga, na lateral direita – e mostrando que pode muito bem ser o titular do setor daqui em diante – e uma partida interessante, mais uma vez, de Manuel Fernandes. No entanto, uma nova falha – esta mais grotesca – de Eduardo e a fraca atuação dos “motores” do meio-campo Tiago e Raul Meireles – visivelmente sem ritmo, levando ao questionamento do porquê de a dupla ter sido alçada a campo, e não um ou outro – e a dificuldade (colaborada pela inércia da equipe) em ajudar Hugo Almeida (depois Liedson) a saírem da forte e aplicada marcação norueguesa foram fatais.

Há algumas considerações que podem ser feitas referente aos resultados. A primeira é que o time, sem Cristiano Ronaldo quando este está em um bom dia, fica praticamente sem criatividade. A segunda – esta mais forte em virtude do atual momento – é que todas as polêmicas que envolvem Carlos Queiroz e a FPF dão um clima de total instabilidade para a equipe, afetando por tabela os jogadores. “Os jogadores e Portugal inteiro já queriam ter resolvido essa novela. Temos o nosso trabalho e o nosso dever, procuramos fazer o melhor, mas às vezes parece que esta nuvem negra que está à nossa volta nos afeta e nos traz má sorte”, resumiu à imprensa o meia Tiago após a partida contra a Noruega, apoiado também pelo zagueiro Ricardo Carvalho, com discurso semelhante no pós-jogo.

Mas há também um terceiro ponto a ser considerado, que é justamente o que faltou ser feito nos momentos de “bonança” junto à seleção para uma perpetuação da boa fase. Tal preocupação, aliás, foi levantada também pelo treinador Antônio Conceição, o Toni, em entrevista ao Record. Uma das maiores reclamações de jornalistas portugueses se dá, curiosamente, no período que Luiz Felipe Scolari comandou a equipe das Quinas. Apesar dos ótimos resultados em campo, Felipão não teria dedicado atenção à uma adequada renovação no time e ao acompanhamento das seleções de base. Até por isso o nome de Queiroz, campeão do mundo sub-20 com a geração de ouro de Portugal, acabou sendo colocado em questão para o lugar do brasileiro, como se sabe.

No fundo, pode ser feito um “mix” das três constatações para se ter uma ideia – claro, não se deseja aqui fechar uma conclusão – do que se passa com a seleção portuguesa. Há uma necessidade de se refrescar mais a equipe – embora isso até se esteja tentando fazer – e também de se propiciar uma maior integração entre as equipes de base, que vem pagando pelo “esquecimento” nos últimos tempos com desempenhos sofríveis, na maior parte das vezes, em torneios continentais, e o selecionado principal. Mas o essencial, mais do que nunca, é a resolução urgente do caso Queiroz-FPF, para que se tenha alguma tranquilidade e sobriedade para tocar o trabalho nos jogos restantes das eliminatórias. Afinal, desde já, os tugas fazem contas para não se ausentarem, 14 anos depois, de um torneio grande.

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Equipe Trivela

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