Portugal

Porto seguro

À véspera do encontro entre Manchester United x Porto na última terça-feira (7 de abril), a maciça maioria da imprensa brasileira voltou a apontar o Manchester United como o grande favorito das quartas-de-final da Liga dos Campeões (LC). O fato de o clube inglês entrar em campo contra os Dragões apenas dois dias após um compromisso complicado pelo Campeonato Inglês (3 x 2 no Aston Villa, com a virada nos acréscimos no último domingo) sequer foi considerado. Pois a grande surpresa da partida em Old Trafford não foi o Porto; foi o Manchester United ter conseguido o empate em 2 a 2.

O Porto não se acovardou diante do Manchester, ao contrário do que aconteceu com o Sporting nos confrontos com o Bayern de Munique pelas oitavas-de-final da LC. É exatamente esse tipo de postura que falta ao Sporting, maior clube formador de craques do futebol português nas últimas duas décadas. Os Leões já entram nas competições européias carregando a síndrome do complexo de vira-latas. As goleadas sofridas diante do colosso alemão foram extemporâneas. A vitória do Barcelona por 4 a 0 sobre o Bayern de Munique recolocou o clube bávaro em seu devido lugar: um time desorganizado e cheio de egos inflados, que só consegue golear um adversário sem alma como o Sporting.

Pois alma é o que não falta no Porto. Antes de fazer o primeiro gol no Manchester logo aos 4 minutos, o mesmo Cristian Rodriguez já havia assustado o goleiro Van der Sar momentos antes. O gol de empate de Rooney foi mérito único do atabalhoado Bruno Alves – e o atacante inglês fez um gol muito semelhante ao que anotou no Portugal 2 x 2 Inglaterra na Eurocopa de 2004 (por coincidência, o placar do jogo repetiu-se). E mesmo levando um gol aos 40 minutos do segundo tempo, os Dragões tiveram força para buscar o empate no finalzinho do encontro. Seria injusto – e surpreendente – se a equipe portista saísse derrotada da Inglaterra.

Maior adversário do Porto pode ser o próprio Porto
 

É difícil entender por que o Manchester atuou no último domingo pelo Campeonato Inglês, sabendo que teria o encontro da LC na terça-feira. Teve que se superar para não perder a partida para o Aston Villa por 2 a 1 – e a virada de 3 a 2 só saiu nos últimos minutos. Liverpool e Chelsea, que só jogariam pela competição européia na quarta-feira, fizeram seus jogos domésticos no sábado. Ora, não deveria ser o contrário? Onde está o senso de organização inglesa na gerência do futebol? Se isso acontecesse em Portugal ou no Brasil, certamente não se poupariam os cartolas locais. Na Inglaterra, talvez achem que é apenas um acidente de percurso.

Posto isto, cabe referir que o técnico Alex Ferguson preferiu manter Giggs, Neville e Tévez no banco, começando a partida com Park e Evans (teria sido o desgaste do jogo disputado pouco mais de 48 horas antes?). É provável que na partida de volta, no próximo dia 15 de abril, a postura do time inglês seja completamente outra. E uma vitória no Estádio do Dragão será um resultado normalíssimo. Cá pra mim, o Manchester ainda é favorito nesse confronto, apesar do revés do jogo de ida. Seu poderio ofensivo não pode ser desprezado, e uma vitória mínima por um gol é altamente possível e provável. Resta saber se a equipe terá forças para segurara volúpia portista.

O Manchester começou a virar o fio – e não é de hoje. Deve ficar com o campeonato inglês mais pelo desânimo do Liverpool (esse sim tem dores de cabeça maiores com a derrota para o Chelsea por 3 a 1 na LC) do que pela sua própria força. O Porto tem tudo para ficar com a vaga na semifinal, desde que saiba derrotar o maior adversário de agora: o próprio excesso de otimismo e presunção que pode acometer torcida e jogadores. A eliminatória não está decidida, e o Manchester merece respeito. Se conseguir respeitar isso e respeitar a si mesmo, o Porto chegará fortalecido para o encontro da próxima quarta-feira – e poderá superar mais uma vez o desdém da imprensa brasileira.

Golo de Letra
 

É a vaidade, Fábio, nesta vida
Rosa, que de manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

(Soneto de Gregório de Matos, também atribuído a algum poeta anônimo do barroco português)

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Equipe Trivela

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