Porto x Nice: Como pupilo de De Zerbi transformou o Porto num dos times mais elegantes da Europa
Francesco Farioli fez bom trabalho no Nice e, agora, leva o gigante português a outro patamar
Porto e Nice se enfrentam pela Liga Europa nesta quinta-feira (27) com um personagem em comum. Francesco Farioli fez grande trabalho no clube francês antes do quase título holandês no Ajax — e, agora, monta no Dragão um dos trabalhos mais autorais de todo o futebol.
Farioli é um discípulo de Roberto De Zerbi: foi seu treinador de goleiros no Benevento e Sassuolo depois de ter chamado a atenção escrevendo um artigo de análise do Foggia, na época treinado pelo italiano.
É impossível ver o trabalho de Farioli sem ligá-lo a De Zerbi, mas há uma diferença gritante: a defesa. O Porto é quem menos sofreu gols nas sete principais ligas europeias — apenas três em 11 rodadas do Campeonato Português. E a consistência defensiva foi o que fez seu trabalho no Nice ter sido tão elogiado.
Agora, prestes a enfrentar seu ex-clube, o jovem italiano de apenas 36 anos revitalizou o Porto. Depois de uma temporada abaixo do esperado e um Mundial de Clubes com eliminação na fase de grupos, a equipe de Farioli é uma das mais elegantes da Europa.
Quem é Francesco Farioli e o que ele muda no Porto
Ao nomear o jovem italiano, o Porto sinalizou a intenção renovar sua identidade. Com Farioli, a equipe agora prioriza maior controle dos jogos e uma volta ao futebol propositivo e agressivo — mesmo que isso não necessariamente simbolize um time que fique muito tempo com a bola.
A efeito de comparação, os Dragões têm “apenas” 53% de posse de bola no Campeonato Português, bem menos do que Benfica, Sporting e Braga, todos com mais de 60%. A ideia é ser rápido e incisivo, mais do que avançar como um grupo e sufocar o adversário no seu campo de defesa.
Farioli monta o Porto em um 4-3-3 clássico e bem definido: um volante que divide funções de construção e defesa forte, uma dupla de meias que une dinamismo, ações sem bola, técnica e criatividade, pontas tradicionais fortes em duelos individuais e um típico camisa 9, forte e com bom trabalho de pivô.
Com o italiano, a equipe transformou a sua construção desde a defesa em um processo mais estruturado e posicional. Goleiro e zagueiros estão envolvidos grandemente, às vezes formando uma linha de três — seja com o volante recuando ou um dos laterais. Se não, forma-se uma saída estruturada com 4-1.

Além disso, os laterais tipicamente invertem e ficam próximos do volante, permitindo que os dois meias ocupem posições avançadas entrelinhas. E os laterais também compensam entre si: geralmente, o esquerdo fica mais perto do meio, enquanto o direito avança pelo meio-espaço.
Os pontas dão amplitude sempre durante a construção, mas estão prontos para cortar para dentro ou receber entre as linhas, oferecendo uma dupla dimensão de largura e opção de passe pelo meio.
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A inspiração em De Zerbi
A ênfase do jogo de Farioli está nas combinações curtas e na progressão ponderada em vez de um jogo puramente direto. E, às vezes, parece que é um time de De Zerbi durante a primeira fase de construção: zagueiros pisam na bola e convidam o adversário a pressionar para progredir através de dinâmicas de terceiro homem.
Os laterais geralmente vão para o meio-campo, fazendo que o volante cubra a linha defensiva, enquanto os dois meias avançam para os meio-espaços. Nesta fase, o objetivo é quebrar a primeira linha de pressão adversária, explorar espaço nas costas e avançar para o terço final com superioridade numérica.
O Porto se afastou das bolas longas, priorizando agora combinações curtas e rotações fluidas dos jogadores para explorar as lacunas na defesa. Isto permite que o time acelere para o terço final com um passe decisivo ou manter pacientemente a posse quando o espaço é limitado, tudo isto enquanto representam uma constante ameaça vertical com pontas e meias.
A ideia principal é chamar a pressão e ultrapassá-la com passes de ruptura, mas há quem prefira defender o Porto mais baixo e não cair na armadilha. Nesses casos, os zagueiros são encorajados a conduzir até alguém os pressionar — e aí desencadear espaços nas costas da defesa.

Assim que o Porto coloca a bola no ataque, o seu jogo é organizado, mas flexível. Tipicamente, Farioli coloca cinco jogadores na última linha para ocupar todos os corredores de ataque, prendendo a defesa com os pontas abertos e os meias atacando as janelas entre os zagueiros adversários.
As trocas de posição entre os corredores laterais e interiores são permitidas. Há variação entre quem está em amplitude, quem ataca a profundidade a partir do meio-espaço e quem fica mais centralizado — ponta, meia e lateral são os que “rodam” nessas funções, apesar de ser mais delimitada.
Para quebrar defesas, a equipe usa consistentemente de passes rápidos e tabelas em forma de triangulações. Criam uma sobrecarga de jogadores em um lado para atrair a defesa, e depois mudam rapidamente o jogo para o lado oposto menos defendido.
Além disso, os laterais são estrategicamente posicionados mais avançados no campo para manter a pressão constante sobre o adversário e recuperar a posse rapidamente se for perdida.
O produto final combina o ataque direto com o controle: cruzamentos das laterais avançadas, passes de recuo rasteiros em direção à marca do pênalti e corridas dos meias que temporizam as suas chegadas com precisão. O resultado é uma equipa capaz tanto de domínio posicional como de eficiência com velocidade.
Pressão forte do Porto e defesa sólida como marcas de Farioli
Os ataques do Porto também têm sucesso porque são sustentados pela disciplina no esquema de “atacar defendendo”: o volante e o lateral do lado oposto permanecem posicionados para controlar os contra-ataques, garantindo que a equipe possa manter um ritmo de ataque elevado sem deixar de estar compacta para pressionar.
Com Farioli, a estrutura defensiva do gigante português é um reflexo direto da sua filosofia de ataque. Embora os times do italiano sejam caracteristicamente baseados na posse de bola, o Porto evoluiu para apresentar um dos sistemas de pressão mais coordenados e eficazes do futebol europeu.

Assim que a posse é perdida, a primeira linha de pressão do Porto é imediatamente ativada. O ponta e o centroavante do lado da bola pressionam o zagueiro ou lateral adversário, enquanto o ponta do lado oposto se fecha para manter o time compacto no meio central e impedir inversões.
Esta pressão inicial é apoiada pelos dois meias, que saltam agressivamente para fechar as opções de passe interior. Tudo é sincronizado com o volante, que protege o entrelinhas.
Em organização defensiva, o Porto se posta em um bloco médio compacto em 4-1-4-1 ou 4-3-3, sendo a forma frequentemente ditada pela formação adversária. O gatilho para iniciar a pressão é claramente definido: o momento em que a bola é passada para um lateral ou forçada para um passe para trás.
A instrução de Farioli é clara: ganhar a bola o mais alto e o mais rapidamente possível, mas com descanso e estabilidade defensiva para evitar transições diretas.
Sem posse de bola, os zagueiros são proativos e avançam em vez de recuar, visando interceptar e iniciar imediatamente novas sequências de construção. Os laterais se ajustam: um avança para a pressão quando o ponta fecha o meio, enquanto o lateral do lado oposto permanece mais recuado para evitar contra-ataques.
O Super PORTO de Francesco FARIOLI.
Segue invicto na temporada e ganhando forma.
20 gols marcados em 8 jogos.
O clube português renovando o projeto e dando uma aula de construção ofensiva.pic.twitter.com/zAXvA0N0OE
— Luis Fernando Filho (@luisfernanfilho) September 30, 2025
Isso assegura que a pressão do Porto permanece em camadas em vez de algo imprudente, sempre com um homem a mais atrás da linha de pressão. Se o adversário conseguir ultrapassar a onda inicial, o Porto responde quebrando a estrutura pelo meio e criando uma intensa e nova pressão no lado da bola.
Este padrão de “pressão em funil” serve para direcionar os ataques adversários para áreas pré-determinadas e congestionadas — e é uma marca tática que Farioli trouxe do seu tempo no Nice. O objetivo final não é meramente perseguir a bola, mas ditar a progressão espacial do adversário, e isso faz dos lusitanos tão bons defensivamente.



