Porto inseguro

Venceu o mais forte. O Porto tinha muita confiança na classificação para as semifinais da Liga dos Campeões diante do Manchester United. Ao contrário das outras equipes portuguesas nas competições européias, o clube das Antas não se amedrontou pelo fato de ter que disputar uma eliminatória com o atual campeão europeu e do mundo. Encarou de igual para igual o colosso britânico. Mas a estratégia portista foi por terra com o gol precoce anotado no Estádio do Dragão, logo no início da partida, por Cristiano Ronaldo.
O tento sofrido pelo goleiro Helton (mais uma vez mal posicionado no lance) afetou a anima dos dragões. O time acusou o golpe e não conseguiu levar mais perigo ao gol do Manchester United. As poucas tentativas que surgiram originaram-se de cruzamentos na área a partir de cobranças de falta. Para piorar, o maestro do time – o argentino Lucho González – torceu o joelho esquerdo e teve que sair cedo do jogo. E até o melhor do time no encontro em Manchester – o brasileiro Hulk – acabou não correspondendo à expectativa em si depositada.
Os portistas lamentaram o fato de o técnico Jesualdo Ferreira ter sido suspenso pela Uefa na véspera da partida, devido a um gesto feito contra a arbitragem na eliminatória anterior, diante do Atlético de Madrid. Jesualdo participou do preview para a imprensa um dia antes da partida, pela manhã, e recebeu a sanção horas depois. Se participou de uma cerimônia oficial da entidade, por que sua suspensão não foi aplicada em outra partida do Porto? É estranho que um treinador seja suspenso a 24 horas de um encontro decisivo, uma vez que as datas dos julgamentos da Uefa são um tanto flutuantes.
Porto não venceu as últimas quatro partidas da LC
É óbvio que a suspensão de Jesualdo – que não pôde sequer assistir à partida das tribunas do estádio – também alterou o poder de confiança da equipe. Mas é preciso registrar que o Porto, nas oitavas e nas quartas de final da Liga dos Campeões, atuou melhor nos jogos fora de casa do que em casa. Em Madrid, poderia ter triturado o Atlético, mas desperdiçou inúmeras chances e teve que se contentar com um empate em 2 a 2. No jogo de volta, novo empate – desta vez em casa – sem gols.
Contra um Manchester cansado no jogo disputado na Inglaterra, o Porto voltou a mostrar superioridade, mas também ficou no empate de 2 a 2 depois de levar o 2 a 1 aos 40 minutos do segundo tempo. Em casa, por algumas razões já aqui elencadas, não conseguiu mostrar o mesmo nível de futebol. Fato é que, nas últimas quatro partidas eliminatórias disputadas na Liga dos Campeões, o Porto não venceu nenhuma. Empatou três e perdeu a última – justamente aquela que foi fatal para as pretensões do time. Para superar um colosso como o Manchester, é preciso algo mais. Ao menos, os Dragões saem de cabeça erguida da competição, ao contrário do que mostraram Bayern de Munique e Villareal, por exemplo.
Fora, Quique Flores
A torcida benfiquista chegou a seu limite com o técnico espanhol Quique Flores. No último sábado (11 de abril), o Benfica voltou a perder em casa para a Acadêmica de Coimbra, exatamente um ano depois da última derrota, no campeonato anterior. Se em 2008 o jogo acabou em 3 a 0, desta vez o placar foi mais modesto: “apenas” 1 a 0 para a equipe coimbrã. Foi a deixa para que o público presente no Estádio da Luz acenasse lenços brancos para Quique, exigindo a despedida do espanhol.
A má campanha do Benfica na temporada não se justifica pelos investimentos feitos pela diretoria. O time não deve sequer chegar em segundo lugar no campeonato – o que o deixará fora da próxima LC. Na Taça Uefa, as Águias ficaram em último lugar na fase de grupos e já estão fora da Taça de Portugal. Para uma equipe que contratou Aimar e Reyes a preços exorbitantes para a realidade portuguesa, certamente o saldo final é muito negativo.
Fica assim enfraquecida a posição de Rui Costa, diretor de futebol do Benfica, que apostou em Quique Flores e nos jogadores por ele apontados. O técnico só não é demitido porque seriam necessários cerca de 13 milhões de euros para pagamento das multas de rescisão de Quique e sua equipe técnica. O contrato do espanhol vence em 2010, e é provável que ele fique mais um ano na Luz. Terá tido, então, o tempo necessário para provar que pode figurar como um técnico promissor no atual cenário europeu, e não apenas mais uma estrela fulgurante e com pouco brilho.
Golo de Letra
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Trecho do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos – um dos heterônimos de Fernando Pessoa



