Portugal

Perto de fazer história

Há uma semana, este colunista se antecipou e disparou: o Braga é a zebra do confronto contra o Sevilla pela Liga dos Campeões, mas era uma zebra que merecia todo o respeito possível. Algo que inicialmente não foi muito percebido na Espanha, com alguns dirigentes do time andaluz “comemorando discretamente” o rival ser o time português e não um Auxerre ou um Zenit e dando a entender terem poucos conhecimentos sobre os bracarenses.

Pois os minhotos, especialmente na segunda etapa do jogo de quarta, apresentaram-se aos rivais, inicialmente com um pouco de nervosismo, mas depois com uma autoridade talvez inesperada e que rendeu a vitória histórica ante o clube espanhol. É fato que o placar de 1 a 0 não apenas não assegurada nada como não tira do Sevilla o favoritismo para o jogo de volta. Porém, é um passo bem significativo não somente aos arsenalistas, mas ao próprio futebol português.

Havia um receio de que o Braga repetisse algo que fez somente uma vez efetivamente na última temporada: entrar com receio de perder de um time tecnicamente superior. Tudo porque quando agiu assim, jogando com praticamente os dez de linha atrás e bastante perdida em campo, a equipe sofreu um pesado 5 a 1 do Porto, que comprometeu seriamente a briga pelo título nacional, como se confirmou na reta final do Campeonato Português.

O esquema que Domingos Paciência mandou a campo, todavia, dava a entender que o que se veria no Estádio AXA seria um jogo bastante aberto. Mesmo usando – e bem – Andrés Madrid ao lado de Vandinho nos jogos contra o Celtic, Paciência lançou o ofensivo Luís Aguiar com Leandro Salino para auxiliar o trio Alan, Paulo César e Matheus. No papel, cinco homens de frente. No primeiro tempo, porém, só Matheus acabou sendo efetivamente um atacante.

No começo de jogo, os bracarenses realmente tiveram dificuldades. Nem tanto por uma grande pressão dos andaluzes, ainda que logo nos primeiros minutos, Felipe tenha visto um chute de Luís Fabiano parar na trave, mas pelo claro nervosismo dos jogadores, que não conseguiam fazer a bola passar do meio de campo, muito também pela boa marcação de Zokora e Renato, que impedia a ligação com o isolado Matheus.

O lado esquerdo da defesa era o mais acionado pela evidente dificuldade que Elderson estava tendo para segurar Jesus Navas. Quando a marcação parecia se acertar pelo setor, a lateral direita se viu em problemas com Capel, mesmo sem a mesma periculosidade de Navas, dando trabalho ao tenso Miguel Garcia, que quase foi expulso. Por sua vez, a dupla Moisés-Rodriguez esteve impecável durante os 90 minutos, ganhando praticamente todas de Luís Fabiano e Kanoute.

No segundo tempo, o cenário mudou da água para o vinho. Como os espanhois, mesmo com maior domínio de bola, passavam mais tempo rodando pelas pontas e sendo travados por Moisés e Rodriguez, sem dar trabalho a Felipe, os bracarenses começaram a arriscar, e inexplicavelmente o Sevilla se acuou, vendo o Braga assumir as vezes de time grande e dominar até com bastante tranquilidade a segunda etapa. E com dedos de Paciência.

Uma das explicações dessa mudança a entrada de Sílvio no lugar de Miguel Garcia. O lateral ex-Rio Ave não só levou a melhor sobre Capel como passou a ser uma importante opção ofensiva pela direita. Outra: como Navas perdeu de vez espaço na esquerda (nem tanto para Elderson, fraco na partida), e com Fabiano e Kanoute bloqueados, os espanhois se viram presos, com Renato e Zokora perdendo espaço no meio para um destacável Leandro Salino.

O desempenho de Salino, que era até então um dos melhores em campo – quiçá o melhor – pelos bracarenses, teve seu crescimento auxiliado também pela entrada de Lima no lugar de Luís Aguiar, em péssima atuação. Não que o ex-jogador de Santos e Avaí tenha mudado muita coisa, mas jogando com Matheus à frente, deixou Alan e Paulo César mais livres para ajudar Salino na armação, com Lima dando mais algumas dores de cabeça à zaga espanhola. E deu certo.

O gol de Matheus foi bastante significativo. Confirmou a boa fase do atacante, que já deixara sua marca contra o Celtic no 3 a 0 e na vitória sobre o Portimonense, na abertura da temporada portuguesa. Ratificou a entrada crucial de Sílvio na partida, já que partiu do lateral o belo cruzamento para a cabeçada de Paulo César, e a grande defesa de Palop, que acabou amaldiçoado pela presença de área de um atacante que nem chega a ser bem um centroavante.

E além disso, foi um gol que desesperou o Sevilla, que parecia mais próximo de sofrer o segundo gol dos bracarenses do que chegar ao empate. E os arsenalistas só não chegaram mesmo ao novo tento porque possuem uma clara deficiência para conclusões. Alan e Paulo César são atacantes mais criadores de lances do que efetivamente goleadores, e demoravam um pouco a finalizar, buscando mais encontrar espaços para espetar bolas.

Até por isso, apesar da grande vitória ante um rival financeira e tecnicamente mais forte e tradicional, ficou a sensação – pelo menos a este colunista – de que cabia pelo menos mais um tento. No entanto, o futebol apresentado dá uma justificável confiança ao Braga para o embate da próxima semana. O sonho de chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões pode mesmo sair do papel. E pelo que se viu nesta quarta, não é apenas um sonho. É um objetivo bem real e palpável.

História

Objetivo que pode significar escrever mais um capítulo bonito, e em um curto espaço de tempo, na história da equipe. Nos últimos dois anos, o Braga tornou-se o quarto time português a conquistar um título internacional. Em que pese a relevância da extinta Taça Intertoto, esta era, até seu final (justamente na temporada 2008/09), considerada uma das competições de ponta da UEFA. E foi justamente o time minhoto o último de seus campeões, por ter tido a melhor campanha dentre os classificados pelo torneio à também extinta Copa da UEFA.

Em 2009/10, por sua vez, o Braga fez um Campeonato Português quase brilhante, liderando o torneio em 19 das 30 rodadas da competição e ficando as outras 11 rodadas na segunda posição, brigando ponto a ponto pelo troféu nacional com o melhor Benfica dos últimos 15 anos. Além do inédito vice-campeonato, despachando favoritos como Porto e Sporting, os arsenalistas chegaram pela primeira vez à Liga dos Campeões. E na estreia, não fazem feio. Já eliminaram o tradicional Celtic, com direito a um show em casa (3 a 0) e agora aprontam para cima do Sevilla.

E caso venha a vaga para a fase de grupos da Liga dos Campeões, será apenas a segunda vez que um clube do país que não está na tríade Porto-Benfica-Sporting chega a tal estágio na principal competição de clubes da Europa. Em 2001/02, o Boavista, então campeão nacional, fora o primeiro “estranho” a figurar entre os 32 sobreviventes da LC. E não fez feio: passou à segunda fase de grupos em segundo lugar, superado apenas pelo Liverpool e deixando para trás a Borussia Dortmund e o Dínamo de Kiev. Só então foi eliminado, após cair em uma chave infeliz, com Manchester United e Bayern de Munique, além do Nantes.

Mais tugas

Nesta quinta, é a vez de Porto, Sporting e Marítimo tentarem se aproximar da fase de grupos da Liga Europa. E todos com adversários, pode-se dizer, acessíveis. Inclusive o time da Ilha da Madeira, que terá pela frente o BATE Borisov, que esteve na última Liga dos Campeões. É um jogo sem reais favoritos, e o trunfo maritimista, além do possível retorno de Peçanha ao gol, pode ser o trio Tchô, Marquinho e Danilo Dias, que teve boas atuações junto na temporada, mesmo não rendendo tão bem na derrota para o Vitória de Setúbal, na estreia da temporada.

Os Leões, por sua vez, ainda não convenceram desde que a época começou para valer. Passaram com dificuldade pelos dinamarqueses do Nordsjaelland e não apresentaram em nenhum momento o futebol do desenrolar da pré-temporada, quando superaram Lyon e Manchester City. Paulo Sérgio não firmou um esquema padrão – tende a adaptações do 4-4-2, com Maniche a segundo volante e armador – e ainda busca firmar peças ofensivas. O único nome certo parece ser Liédson, mesmo em má fase. Saleiro, Postiga, Valdés, Yannick, Matías e Vukcevic nunca sabem o dia de amanhã. Mas ainda assim, tem leve vantagem sobre o Brondby.

Por fim, os Dragões não devem ter grandes trabalhos para superar o Genk. André Villas-Boas deve insistir no time-base que encarou Benfica e Naval. A dúvida parece ser mesmo se Ruben Micael, de quem muito se espera quando começar a jogar ao lado de João Moutinho, vai à campo, ou se a opção será mesmo Belluschi, que busca alcançar uma maior regularidade. À frente, espera-se o repeteco de Varela, Falcão e Hulk, com o ex-Internacional Walter figurando pela primeira vez numa convocatória oficial na temporada. Villas-Boas declarou: quer voltar à Liga dos Campeões com todos os títulos possíveis. É aguardar.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo