Pelo fim do fosso

A Assembleia Geral da Liga de Clubes portuguesa aprovou na quarta-feira, por unanimidade, uma medida que possibilitará algo há muito pedido pelos principais clubes do país, que é a volta das equipes “B”. Já na próxima temporada, as equipes “reservas” de Porto, Benfica, Sporting, Braga, Vitória de Guimarães e Marítimo — no caso, clubes que já mostraram interesse em contar com um segundo plantel atuando em nível profissional — estarão na Liga de Honra. Com isso, a divisão passará a ter 22 clubes (ao invés dos 16 atuais) e 42 rodadas. Outra mudança está prevista no sistema de rebaixamento, já que a partir de 2012/13, três clubes caem à II Divisão (terceira divisão) e três ascendem à “Segundona”.
Algumas limitações foram estabelecidas, naturalmente. Essas equipes não poderão, por exemplo, constar nas mesmas divisões dos times “A” ou disputar as Taças da Liga e de Portugal — a diferença aí é que antes os times “B” só podiam atuar, no máximo, no terceiro escalão português, enquanto agora o limite é a segunda divisão. Os jogadores deverão entre 16 e 23 anos, com um limite de três atletas acima do limite de idade por jogo. Além disso, dos 18 convocados para a partida, ao menos dez devem ser formados localmente — ou seja, inscritos há pelo menos três temporadas na FPF, dos 15 aos 21 anos.
Mas o que isso, de prático, pode trazer de bom ao futebol português? A “missão” dessas equipes “B”, desde suas criações, é clara: dar suporte aos clubes no processo de transição da base ao profissional e propiciar ritmo de jogo a atletas pouco utilizados no elenco principal. Louvável, mas até um tempo pouco praticável, já que limitadas a atuar no terceiro escalão, estavam longe de cumprir tal missão de forma satisfatória, tendo em vista o fraco nível técnico da divisão. Com isso, a saída para os clubes mais tradicionais era buscar parcerias com times da Liga de Honra, para os quais cediam seus jogadores.
O problema aí é que além dos atletas estarem longe do dia-a-dia do clube ao qual pertenciam, estes, por vezes, sentiam-se desmotivados quando rotineiramente emprestados a clubes inexpressivos. Nesse intervalo, que durou quase dez anos desde que os times “B” começaram a ser dissolvidos — apenas o Marítimo mantém até hoje sua equipe secundária nas divisões inferiores portuguesas — chegou-se a criar a chamada Liga Intercalar, uma espécie de “Campeonato Nacional” de times reservas. O torneio, porém, acabou não vingando e durou somente três temporadas. Não só pelo baixíssimo nível técnico, mas porque o aproveitamento de jovens e subutilizados pouco adicionava aos atletas, visto que estes seguiam competindo contra jogadores de nível semelhante ou até muito inferior.
A permissão para que tais equipes integrem a Liga de Honra é um salto significativo e tem boas condições de, se não dar fim ao fosso que é a transição de atletas pouco usados e garotos da base ao time de cima em Portugal, ao menos minimizar os efeitos negativos desse buraco. Para se ter uma ideia, da seleção portuguesa vice-campeã mundial sub-20, somente o zagueiro Nuno Reis havia realizado mais de 30 partidas como profissional na última temporada. Tudo isso, no entanto, longe do Sporting, seu clube-formador (Nuno defendeu o Cercle Brugge, por empréstimo). Além disso, apesar de 13 dos 21 convocados estarem vinculados aos três grandes, nenhum havia tido a chance de defender oficialmente a equipe a qual pertencia.
É claro que em alguns casos, até se consegue o empréstimo de alguns desses atletas jovens e com poucas oportunidades a equipes também integradas à primeira divisão, como mostram Melgarejo (do Benfica ao Paços de Ferreira), Wilson Eduardo (do Sporting ao Olhanense) ou Kelvin (do Porto ao Rio Ave). Tratam-se, porém, de situações pontuais, com o adendo de que não necessariamente esses atletas estarão em campo. Na temporada passada, por exemplo, o volante Sérgio Oliveira, badalada promessa oriunda das categorias de base portistas, foi cedido ao Beira-Mar para a disputa da Liga Zon Sagres. Decepcionou e passou grande parte do campeonato no banco de reservas. Resultado: mesmo emprestado para adquirir ritmo, o jogador acabou encostado e pouco progrediu na carreira.
O que faz sentido. Afinal, se os times “B” não teriam exatamente a responsabilidade de lutar por algo no campeonato, os aveirenses, mesmo que a briga seja contra o rebaixamento, não se podem dar ao luxo de ser um laboratório para a base do Porto. Por outro lado, há jogadores como Wilson Eduardo, que fez um ótimo Campeonato Português pelo mesmo Beira-Mar mas que ao mesmo tempo não foi capaz de convencer o Sporting, que só o acompanhou à distância, de que poderia — como até deveria — figurar no atual elenco leonino. Caso semelhante ao de Nelson Oliveira, que foi bem no Paços de Ferreira e ainda foi o artilheiro do Mundial Sub-20. Mesmo assim, segue em segundo plano no Benfica e será emprestado a outro clube, mais uma vez.
O fato da permissão às equipes reservas no segundo escalão do país ter sido aprovada por unanimidade pelos clubes das duas primeiras divisões ratifica o quão forte era essa demanda. A especificação de determinadas regras, como a delimitação de uma faixa etária máxima e a exigência de que a maioria dos atletas esteja vinculada aos quadros da FPF por pelo menos três anos, também é bem vinda, já que se cria a expectativa de uma valorização dos atletas portugueses mais jovens. Que tipo de reflexos isso trará? Depende muito da forma como os próprios clubes administrarão seus times “B”. Mas a perspectiva é positiva, especialmente pelo reconhecimento de que há um Grand Canyon como obstáculo a ser vencido nessa fase de transição.



