Portugal

Para lavar a alma

O clássico entre Sporting e Benfica, no Estádio da Luz, a ocorrer na próxima terça-feira, não prevê grandes mudanças na tabela. Naturalmente, sob a ótica matemática, o jogo é muito mais importante aos Encarnados, que precisam vencer para, ao menos, manter os seis pontos de distância para o vice-líder Braga. Aos Leões, vitória ou derrota não alteram a posição na classificação – aliás, poucos duvidam que o quarto lugar já é dos alviverdes, mesmo com seis jogos ainda por vir. No entanto, para a parte verde de Lisboa, o confronto tem um objetivo especial: “salvar a honra”, mesmo que sejam os vermelhos a comemorar no fim do campeonato.

“Salvar a honra”? Sim, por mais forte que pareça a expressão, ela sintetiza bem o que representa o clássico de terça para os sportinguistas. E o grande motivo para tal é o que se sucedeu com os Leões ao longo de toda a temporada, especialmente em seu princípio, quando, indiretamente, o Benfica acabou sendo apontado como o grande responsável pela má fase alviverde. Tudo porque Paulo Bento, que até parte do primeiro turno comandava o Sporting, revelou que todo o elenco havia sentido o excelente início de época dos Encarnados. O bom momento das Águias afetou a confiança leonina, puxando-a totalmente para baixo. O início da temporada em Alvalade, recheado de tropeços e decepções, não deixa Bento mentir.

Quando as declarações do ex-treinador foram divulgadas, a crise, já instalada na parte verde de Lisboa, ganhou ares ainda mais tensos. Os jogadores, rapidamente, tentaram, em entrevistas, negar que o clima estivesse ruim na Academia, mas não conseguiam convencer, nem a jornalistas, nem a torcedores, que não se conformavam com o que ouviram de Paulo Bento. E como de se esperar, não eram poucos os comentários irônicos de benfiquistas adorando a turbulência no maior rival. A fase era tão ruim que foi difícil até encontrar um substituto para Paulo Bento. Mesmo o novato André Villas Boas, da Acadêmica, recusou-se a assumir o barco na tormenta em que estava metido.

Veio então Carlos Carvalhal, que encontrou muitas dificuldades, como se sabe, para trabalhar. Deparou-se com um time psicologicamente enfraquecido, jogadores extremamente visados para deixar o clube na janela de janeiro (Miguel Veloso e João Moutinho, por exemplo), e outros com aproveitamento péssimo no ano, como Postiga e Caicedo. Carvalhal promoveu mudanças táticas e até pareceu ter encontrado a equipe ideal nos primeiros momentos do segundo turno. Foi quando o time, ainda irregular em campo, porém mais eficaz na tabela, deparou-se com Porto e – sempre ele- Benfica. Antes não tivesse se deparado, já que as duas sovas que a equipe sofreu dos rivais mandaram a equipe de volta à estaca zero.

A derrota para o Benfica por 4 a 1, como de se imaginar, foi a mais dolorida, e recolocou o clube naquela mesma perspectiva negativa do princípio da temporada. Para piorar, uma série de jogos sem vencer – seis ao todo, incluindo aí as partidas contra Dragões e Águias – colocou o trabalho de Carvalhal ainda mais sob questionamentos. Mas foi após o gol conseguido no último minuto contra o Everton, pela Liga Europa (na quinta derrota em seis jogos), que o treinador conseguiu encontrar uma forma de unir a equipe. O time claramente jogou o duelo no Algarve contra o Olhanense com a cabeça nos Toffees – e quase perdeu feio dos alvirrubros. O preparo de Carvalhal era, notadamente, para o duelo mais importante do ano até então.

A partir daí, o Sporting, pode-se enfim dizer, engrenou. A inesperada goleada por 3 a 0 sobre os ingleses, no Alvalade, deu moral à equipe. Taticamente, o técnico português conseguiu se encontrar, encaixando um esquema com três homens de frente, comandados por Liedson. Psicologicamente, a equipe também mostrou melhora, especialmente com os aplausos e incentivos efusivos da torcida. De lá em diante, com exceção da surpreendente derrota para o Marítimo, em Funchal, os Leões passaram a jogar com autoridade. Por pouco, não despacharam o Atlético de Madrid na Liga Europa, e após dois empates, temeu-se que a equipe voltasse a cair de produção. Dessa vez, todavia, a eliminação foi encarada com mais amadurecimento.

E justamente quando os alviverdes vivem seu melhor momento na temporada, o adversário da vez é novamente o Benfica. Com alguns diferenciais: se na Taça da Liga, os Encarnados jogaram com alguns desfalques, dessa vez, com exceção de Saviola, o time da Luz estará completo, brigando pela vitória para, ao menos, manter os seis pontos de distância para o Braga, vice-líder. Além disso, em fevereiro, os benfiquistas encararam um Sporting rodeado de incertezas. Agora, o emblema de Alvalade está visivelmente em alta, e com a clara disposição de “lavar a alma”, que deixaram, no princípio do certame, impregnar de desconfiança com o belo momento vermelho.

E da mesma forma que o ambiente em campo tende a ser tenso para o Benfica, é notório que este também o será ao Sporting. Serão cerca de 65 mil fanáticos lotando a Luz. Cenário naturalmente incentivado justamente pelos efeitos do “furacão vermelho” na atual temporada, e que, fatalmente, trará lembranças bem pesadas aos Leões. É reconhecido também que, mesmo que triunfe na casa do rival, o resultado pode acabar sendo irrelevante na classificação do campeonato. Está aí a preocupação alviverde: que o time (aliás, formado por vários pratas-da-casa, alguns ainda bem jovens) volte a sentir o “efeito Benfica”. Com um atenuante: a já assegurada saída de Carlos Carvalhal da Academia, ao término da temporada.

É fato que, independente do que se der na Luz na terça-feira, nada apagará a fraca temporada sportinguista, que deverá ter como consequências as vendas de nomes importantes, como Miguel Veloso, João Moutinho, Yannick Djaló e Marat Izmailov (este, recentemente, rachado com a diretoria). Tudo para tentar arrumar o caixa do clube, bastante defasado, e que não terá as receitas da Liga dos Campeões – somente da Liga Europa. Ainda assim, tendo em vista o conjunto da obra, o resultado pode ser decisivo para José Eduardo Bettencourt e Costinha, darem passos conclusivos ao planejamento para 2010/11. E mais: crucial até para a preparação do próprio elenco para os meses que se sucedem.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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