Portugal

Orgulho nacional

Aprendemos na escola que portugueses e espanhois foram os povos que dominavam a Europa econômica e belicamente lá nos séculos XV e XVI, mas “pararam no tempo”, continuando os investimentos nas navegações enquanto ingleses (e posteriormente franceses e outras nações europeias), que assumiriam-se como potencias do Velho Continente nos séculos posteriores, apostaram na revolução industrial. Alguns séculos depois, Portugal, que viu seu poderio econômico decair ao longo dos anos, anuncia que recorrerá à União Europeia para aliviar a imensa crise financeira que circunda o país. Mais: na quinta-feira recém-findada, o diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) já avisou: Portugal terá trabalho para sair da situação de recessão, e sofrerá cortes “dolorosos” ao longo dos próximos anos. O temor pela bancarrota e o receio internacional pelo futuro da nação leva muitos a não saberem mais onde aplicar os recursos que ainda têm. O Brasil, inclusive, deverá ser clara opção para os mais desesperados em retirar o dinheiro do país.

Costumamos, ainda, ouvir que o futebol é o ópio do povo, dentre outras tantos ditados e coisas que se fala para, sem sucesso, diminuir a relevância do desporto bretão. No entanto, ao mesmo tempo, estudiosos, pesquisadores e pensadores reconhecem cada vez mais o esporte como fator não somente de união, mas de orgulho nacional. O jornalista português Carlos Florido, na tese de mestrado O papel do jornalismo desportivo na hegemonia do futebol, da também jornalista Anabela Semanas Macedo (Universidade do Minho), exemplifica bem isso: “Além das vitórias do Porto, das de Carlos Lopes e Rosa Mota nos Jogos Olímpicos, que acompanhei de madrugada via televisão, ou da de Fernanda Ribeiro, que vivi emocionado em Atlanta, poucos motivos semelhantes de orgulho vou tendo neste pequeno e pobre país. É isto, a escassez de motivos de orgulho, que os que não gostam de futebol, que os que não gostam de desporto, deviam compreender”.

“Tudo bem, mas por que toda essa introdução?”. Talvez realmente tenha sido longa, mas certamente não é desnecessária. Ajuda a dar uma dimensão do que representa para Portugal o feito histórico de Porto, Benfica e Braga na quinta-feira – paralelamente às difíceis notícias que vinham do FMI. Os três portugueses estão entre os quatro semifinalistas da Liga Europa. Um time do país, aliás, já está assegurado em Dublin (a 15ª final tuga), e sairá do duelo entre Encarnados e Bracarenses. Os Dragões, por sua vez, são os principais favoritos ao título e terão pela frente aquela que é, talvez, a equipe que tecnicamente mais ofereça riscos aos portistas, o Villarreal. O feito em si é inédito para Portugal e raro mesmo em se falando de Europa. Até então, somente quatro países haviam feito 75% dos semifinalistas de um torneio no continente: Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra. Um acontecimento que faz Portugal esboçar um raro sorriso, em meio a um de seus momentos mais turbulentos.

O Porto fez sua parte com grande eficiência. Não se intimidou com a necessidade de pressão por parte do Spartak Moscou e dominou o confronto, tal qual fizera no Dragão. Foi um verdadeiro “cinco vira, dez acaba”. Afinal, após o 5 a 1 em casa, veio um 5 a 2 fora. Dez gols na eliminatória, um recorde de quartas de final na competição. A partida mostrou que, dentre os portugueses (e os semifinalistas, de forma geral), o clube é o que tem as melhores opções. Sem Varela, poupado, o por vezes contestado Cristian Rodriguez fez partida muito boa, mostrando velocidade e oportunismo. E Ruben Micael, destaque da última vitória da seleção portuguesa, mostrou que só é reserva de João Moutinho por pura falta de espaço no meio-campo, já que, tal qual o ex-Sporting, Guarín continua jogando demais. Substituiu Moutinho na segunda etapa, organizou o terceiro tento portista e fez o quinto na goleada.

O Benfica passou um pouco mais de sufoco, pelo começo de jogo tenso e, talvez, desnecessariamente avançado, mas virou o primeiro tempo tranquilo e ciente do que precisava fazer. Sufoco porque em 26 minutos, o PSV abrira 2 a 0 em Eindhoven, ficando a um gol de despachar as Águias. A cabeça de Roberto já devia pesar, muito pelo frango sofrido na Luz, semana passada. Para complicar, um dos grandes nomes da equipe pós-Liga dos Campeões, Sálvio, lesionou-se e já corre risco de perder o final da temporada. Mas havia Carlos Martins, que ajudou a equipe a se estabilizar em campo – e cobrou a falta que resultou no gol salvador de Luisão, no fim do primeiro tempo. Tranquilos, ante um PSV abatido, os Encarnados preocuparam-se em controlar a bola e ainda encontraram o gol decisivo, de Cardozo – por incrível que pareça, de pênalti!

Já o Braga, embora jogasse em casa, teria tudo para ser eliminado. Apesar da ascensão em solo nacional, o clube vinha com vários desfalques, obrigando Domingos Paciência a puxar vários jovens da base para completar elenco. Surpreendeu ao colocar Paulo César, atacante, na lateral direita, mesmo tendo Dani, defensor direito que estava emprestado ao Vizela, no banco. E quase viu o tiro sair pela culatra quando o brasileiro fez falta criminosa em Yarmolenko e foi expulso. Porém, o Braga foi, mais uma vez, quase perfeito. A já conhecida aplicação tática do time foi decisiva, principalmente quando se viu com um a menos. E ainda assim, a equipe não abdicou do jogo, com destaque a Paulão, Hugo Viana, Leandro Salino (que acabou improvisado à direita, no lugar do improvisado Paulo César) e Alan, muito participativos e abnegados, além das providenciais defesas do goleiro Artur. Novamente, os Arsenalistas fizeram história ante um time tecnicamente melhor.

Os confrontos prometem. Com o título nacional assegurado, o Porto terá concentração total em um Villarreal que está virtualmente garantido na próxima Liga dos Campeões, mas ainda tenta garantir uma das vagas diretas a fase de grupos. Em linhas gerais, é mais time que o grupo espanhol, tem mais opções e vive um momento especial e, de certa forma, promissor. Afinal, em 2002/03, os Dragões chegaram ao título da extinta Copa da UEFA, em uma edição em que a maioria dos semifinalistas era portuguesa (Porto e Boavista) e em que eram comandados por um certo José Mourinho. E na temporada seguinte, a equipe levantou o caneco da Liga dos Campeões. O cenário, de certa forma, é semelhante ao atual, inclusive no banco (embora André Villas Boas não goste muito das comparações com Mourinho). Indícios para 2011/12?

Já o duelo entre Benfica e Braga, o primeiro entre portugueses em uma competição europeia, é recheado de expectativas. Do ponto de vista técnico, as Águias são favoritas, ainda que o Braga tenha a seu favor o fator casa – decidirá na “Pedreira” o confronto. Sob a ótica história, nem se fala (o Benfica chega a sua 12ª semifinal continental, enquanto esta é a primeira bracarense). O histórico recente de confrontos, porém, demonstra equilíbrio e um princípio de rivalidade, crescente após a disputa ponto a ponto na temporada passada. Nos últimos cinco jogos, três vitórias benfiquistas, duas bracarenses. Jogos até parelhos, com diferença máxima de dois gols para um ou outro. Sem contar que, após o que já aprontou o Braga na atual época e este ser um rival “conhecido”, não é nada absurdo imaginar os arsenalistas brigando de igual para igual, em campo, com a força encarnada.

Os resultados das semifinais podem, ainda, ser até mais positivos para Portugal no ranking da UEFA. A explicação do site Mais Futebol foi bastante clara: o sexto lugar no ranking e a terceira vaga à Liga dos Campeões 2011/12 estão garantidos, mas é possível assumir o quinto lugar já no começo da próxima temporada, hoje ocupado pela França, em caso de título e de um desempenho invicto do Porto ante o Villarreal. Para tal, o trio deve somar entre 11 e 12 pontos, que serão divididos por 5 (número de times portugueses que atuaram na Europa). Se os Dragões vencerem ambos os jogos (ou empatarem um e ganharem o outro), garantem entre quatro e cinco pontos europeus (para fins de ranking, a vitória vale dois pontos e o empate, um). Como entre Benfica e Braga, esses cinco pontos estarão assegurados, Portugal deverá conquistar nesta semifinal, para sonhar com este quinto lugar, entre 9 e 10 pontos.

Na final, portanto, os lusos ganharão mais dois pontos (caso se confirme uma decisão entre Porto e Benfica ou Braga), que levaria o país a chegar aos esperados 11 ou 12 pontos – o que somaria, à atual pontuação tuga, entre 2,2 e 2,4 pontos. Pontuação que não será suficiente para superar a França nesta temporada, mas na próxima, já que o ranking passará a não computar mais os números da temporada 2006/07, na qual os franceses obtiveram melhor desempenho que os portugueses, o que reduziria os atuais 4,082 pontos de diferença entre as nações para 2,165 – que poderão ser ultrapassados no caso desse desempenho quase perfeito de reta final de Liga Europa. Saldo que deverá ser mantido ao longo da época 2011/12, e que pode render mais uma vaga ao país na segunda competição do continente. Algo bastante interessante para a Liga Zon Sagres como um todo.

O desafio, porém, vai além dessa vaga extra aparecer ou não, e sim na manutenção das mesmas no cenário europeu, principalmente com o país vivendo essa grave crise financeira – que, tendo em vista a fragilidade de caixa de muitos clubes – inclusive da primeira divisão – não devera passar despercebida pelo futebol. A lamentação maior é que essa realidade nacional se dê em um momento tão delicado para Portugal, no que fatalmente pode pesar nos resultados da época que virá. Ao mesmo tempo, todavia, o sucesso europeu pode (e deve) ser um incentivo aos clubes médios-pequenos, com especial espelho na grande campanha do Braga. Prova de que mesmo com poucos recursos, um trabalho pensado e planejado – vale salientar que os arsenalistas “martelam” na Europa e na própria liga nacional há pelo menos seis, sete temporadas – podem sim render frutos.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo