Onda encarnada

Nos últimos anos, o Benfica tem iniciado a temporada futebolística sem grandes entusiasmos e motivações. Às vezes por modéstia de seus treinadores e comandantes, outras vezes por falta de confiança mesmo, o fato é que o clube encarnado acostumou-se a assistir ao protagonismo do Porto, agremiação que deixou de lado o seu provincianismo para firmar-se como maior potência do futebol português no século XXI. Pois a atual temporada parece representar uma volta dos encarnados aos paradigmas antigos.
O principal motivo para essa mudança de disposição dos Águias está na simples chegada do treinador Jorge Jesus, que adotou um discurso ambicioso e arrojado para dar conta do desafio de levar o Benfica de volta ao caminho das vitórias. Apesar de nunca ter treinado um clube grande, Jesus percebeu desde cedo a responsabilidade e a grandiosidade de trabalhar num clube de massa como o Benfica, numa postura bem diferente da de seu antecessor no clube, o espanhol Quique Flores. E, num clube de massa, é importante que seu técnico tenha como meta, sempre, a conquista de títulos.
Jesus notabilizou-se pelo belo trabalho desenvolvido nos dois clubes anteriores em que atuou, o Belenenses e o Braga. Agora com uma estrutura e um plantel milionários no clube da Luz, é de se esperar que ele consiga algo mais. A estratégia de convocar a torcida para os jogos do time tem dado resultado – e os jogadores têm sentido o apoio e a cobrança que vêm das arquibancadas. Não foi à toa que, na partida contra o União de Leiria no último dia 20 de setembro, tenha sido batido o recorde de público do estádio leiriense numa partida do campeonato português.
Clube mais popular e dono da maior torcida em Portugal, o Benfica encarna a mesma simbologia especial de que desfrutam o Flamengo e o Corinthians no Brasil, por exemplo. E como clube de massa, o ônus do insucesso é também superdimensionado o tempo todo, já que as cobranças de imprensa, associados e torcedores ganham contornos bem maiores. O mérito de Jorge Jesus, até agora, tem sido o de compreender essa simbologia e de colocá-la a serviço de sua equipe. Isso será suficiente para que o Benfica volte a conquistar títulos? Definitivamente não. Mas pode ser o ingrediente que até então estava em falta na despensa benfiquista.
Fortalecimento do Benfica contrasta com enfraquecimento do Porto
Os adversários domésticos começaram a acusar o golpe e passaram a reconhecer o poderio do Benfica nesta temporada. Jesualdo Ferreira, técnico do Porto, já admitiu que os Águias estão mais fortes, mas, como não poderia deixar de ser, defende o favoritismo dos Dragões. Seu discurso, entretanto, procura mascarar o fato de que a força do Benfica contrapõe-se ao indelével enfraquecimento dos Dragões depois da saída dos argentinos Lucho Gonzales e Lisandro Lopez, inexplicavelmente inaproveitados pela seleção argentina.
Certo é que o Porto, desde o período em que foi treinado por José Mourinho, tem sabido contornar o desmanche de seus elencos sucessivamente. Essa “sabedoria” é o que explica o clube das Antas ser o atual tetracampeão nacional. Só que, se compararmos o time campeão em 2006 com o time campeão em 2009, veremos que apenas dois jogadores permaneceram nesses quatro anos entre os titulares: o goleiro Elthon e o volante Raul Meireles.
Ainda é cedo para se fazer prognósticos com relação ao campeonato português. Não se pode desprezar a sabedoria do Porto em remontar suas equipes sucessivamente nos últimos anos – ao contrário do que acontece com o Sporting e o Benfica. No entanto, este início de temporada aponta, diferentemente do que vinha acontecendo, para uma ressurreição do Benfica, algo que só pode ser saudável para o futebol português. Assim como é saudável ver o Braga na liderança atual da Liga, mesmo que essa liderança possa ser algo tão passageiro como o fulgurante Leixões da temporada passada (que liderou o campeonato por algumas rodadas e depois terminou em sexto lugar, 25 pontos atrás do campeão Porto).
Golo de Letra
Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome,como o destino,chega,
O teu nome,meu amor,o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!
(Poema “O teu nome”, de Alexandre O’Neill)



