Olho no banco

Uma das grandes preocupações dos torcedores portugueses é a presença cada vez mais marcante de jogadores estrangeiros oriundos, principalmente, do Brasil e das ex-colônias lusas, não apenas nas equipes, mas também nas categorias de base, a ponto de algumas seleções inferiores já contarem com atletas naturalizados. No entanto, tirando os olhos do campo e levando-os ao banco, observa-se um cenário mais positivo aos “nacionalistas”. Sob a inspiração do sucesso precoce de José Mourinho, Portugal vê jovens treinadores se destacarem em ritmo crescente no futebol do país.
Os dois artífices desse bom momento são nomes conhecidos de quem acompanha a coluna: André Villas Boas e Domingos Paciência. O primeiro segue quase que fielmente os passos de Mourinho – de quem, aliás, foi estagiário nos anos de Porto e Chelsea –, e encaminha os Dragões a conquista de mais um título nacional. O segundo, por sua vez, conduziu um incrível Braga ao vice-campeonato português na temporada passada, à fase de grupos da Liga dos Campeões e, mais recentemente, às quartas de final da Liga Europa. Apesar de suas curtas carreiras, são os comandantes mais bem avaliados no mercado.
Villas Boas é abnegado pelo que faz. É fissurado por números e estatísticas – com somente 16 anos, conforme reportagem do jornal Público, surpreendeu o experiente treinador Bobby Robson, seu vizinho e comandante do Porto na década de 90, com seu conhecimento. Robson, aliás, encaminhou-o para estudar futebol na Inglaterra e levou-o, por intermédio de Mourinho, para trabalhar nas categorias de base dos Dragões. Foi o verdadeiro pontapé para a prodigiosa carreira do jovem treinador, que em 2000, com 20 anos, teve sua primeira experiência profissional, como técnico da seleção das Ilhas Virgens Britânicas.
As qualidades de Villas Boas continuaram em alta em seu retorno, quando Mourinho rapidamente o trouxe de volta ao Porto para ser “seus olhos e ouvidos” nos rivais e em possíveis reforços. Atuando em conjunto com o “Special One”, fez parte da delegação campeã da Copa da UEFA 2002/03 e da Liga dos Campeões 2003/04. Continuou com o hoje treinador do Real Madrid em sua vitoriosa passagem pelo Chelsea e esteve no princípio do trabalho de “Mou” na Internazionale, quando decidiu alavancar uma por muito adiada “carreira-solo”, rumando à Acadêmica, em 2009.
E com somente 31 anos e pouca experiência como treinador – ainda que com o já reconhecido potencial demonstrado no limitado time dos Estudantes –, foi dado como certo para assumir um abalado Sporting pós-Paulo Bento. Não apenas rejeitou os Leões como livrou a Acadêmica do rebaixamento e quase levou os alvinegros à decisão da Taça da Liga, sendo superado pelo Porto. Clube que, alguns meses depois, abriria as portas para que Villas Boas confirmasse seu talento. Talento esse que muitos já acreditam estar próximo da seleção, como um sucessor futuro de José Mourinho.
Apesar de sua juventude, o contato com treinadores vencedores – Robson, aquele que considera seu “mestre”, e Mourinho – e uma visão “rejuvenescida” do futebol fez de Villas Boas um técnico ambicioso no ponto de vista futebolístico. Do ponto de vista tático, pouco mudou no que Jesualdo Ferreira deixou, mas aos poucos, deu sua cara à equipe, encaixando João Moutinho e Belluschi muito bem na equipe, bem como passou ao grupo um conjunto de gana e alma que há um tempo estava em falta no clube. Renovado, o Porto se vê em uma fase vitoriosa e de qualidade técnica que não era vista desde a passagem de Mourinho.
Curiosamente, Domingos Paciência era um dos ídolos de Villas Boas. Então apenas “Domingos”, o atual treinador do Braga foi um dos grandes nomes dos Dragões na década de 90, tendo passado, ainda, pela seleção nacional. Começou sua carreira fora dos campos na base portista, tendo a primeira chance profissional no União de Leiria. Em um 4-3-3 firme na defesa e consciente no ataque – mais ou menos como seu Braga, que também atua desta forma, mas em uma adaptação do esquema, manteve os Lis nas primeiras posições da Liga em 2006/07, mas acabou se desentendendo com Rossato e deixou o clube.
Pior para os leirienses, já que, pela Acadêmica, após um 2007/08 regular, Paciência faria um belo trabalho em 2008/09, conduzindo os Estudantes a um inesperado sétimo lugar. Tornou-se a aposta de um Braga ainda surpreendido com a saída de Jorge Jesus, e logo de cara, viu-se eliminado da Liga Europa ainda nas fases eliminatórias, para o Elfsborg. Bastou o campeonato nacional começar, porém, para o “conto de fadas” bracarense que todos conhecem começar. Na temporada passada, foram 19 rodadas na liderança e outras 11 na segunda posição. Vaga na Liga dos Campeões, briga pelo título até a rodada final…
Tal qual Villas Boas, Paciência deu ao time que comanda um ar rejuvenescido, confiante. Com um discurso um pouco mais ponderado se comparado ao técnico portista e um estilo mais equilibrado – mas não menos ambicioso, diga-se -, o comandante arsenalista instituiu um já aqui elogiado esquema de toque de bola e movimentação, aliado a uma grande aplicação tática e forte marcação. Sistema que em 2009/10 foi capaz de parar os três grandes, e que em 2010/11, calou Anfield na partida em que o modesto clube do Minho despachou o campeão europeu de 2005 da Liga Europa.
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Se Villas Boas e Paciência fossem casos únicos, até se poderia falar que a dupla era uma luz em meio à escuridão. Mas, felizmente para Portugal, não é bem assim. Aos 40 anos, Rui Vitória é uma grata surpresa no Paços de Ferreira. Tendo a sensibilidade de mesclar com qualidade jogadores jovens ainda sem espaço em outros clubes (David Simão, Nelson Oliveira e Pizzi, por exemplo) com atletas menos badalados, como Manuel José, Cássio e Maykon, colocando-os em campo de forma equilibrada, os Castores detiveram, durante boa parte do segundo turno, a terceira melhor campanha, e ainda sonham com vaga européia.
Outro de ótimo trabalho é Leonardo Jardim. Após promover o Beira-Mar na última temporada, o treinador de 37 anos manteve a equipe surpreendentemente na metade de cima da tabela. Técnico de características acadêmicas e ofensivas, semelhante a Villas Boas, mostra também ambição e visão. Prova é que mesmo com a boa fase de sua equipe, não se deixou levar pela empolgação dos resultados e pediu demissão após verificar que as mudanças desejadas na estruturação do clube não ocorreriam.
Sem esquecer, naturalmente, daquele que hoje comanda a seleção de Portugal. Afinal, Paulo Bento tem somente 41 anos e, antes de assumir a equipe das Quinas, vivera somente uma experiência de altos e baixos pelo Sporting. Experiência essa que visivelmente condicionou amadurecimento e evolução ao técnico do ponto de vista tático e na leitura do jogo. Menos “inventor” e mais prático, tem mantido a seleção com um padrão de jogo interessante, bem semelhante ao do atual Porto. Prova é que mesmo com as modificações entre as partidas contra Chile e Finlândia, o time manteve o grosso de sua forma de jogar.
Sua escolha como treinador do selecionado tuga, aliás, foi o indício de que a renovação da qual carecia o futebol local merecia começar mesmo pelo banco de reservas. Algo que, aliado à evolução a olhos vistos no cerne da equipe em comparação aos dois anos de Carlos Queiroz, certamente, passa ainda mais confiança e credibilidade aqueles que, como Villas Boas, Paciência e outros jovens treinadores que dão os primeiros passos na carreira, sejam oriundos dos meios acadêmicos ou dos gramados. E é por aí que passa, também, o processo de renovação no segmento de formação do futebol português.



