Portugal

O “Sorato” português

Atacante de idade elevada, mas que ainda ostenta um faro de gol não muito comum a atletas de sua geração em seu país de origem. Até uns poucos anos atrás, a descrição cairia muito bem a Sorato, rodado jogador revelado pelo Vasco, e que, de alguma maneira, fazia seus golzinhos por times médios e pequenos do Brasil. Sem forçar muito, daria até para lembrar-se de Fillipo Inzaghi, que embora não se caracterize como um atleta de vários clubes, é, até hoje, goleador em momentos importantes — e, claro, tecnicamente muito a frente do brasileiro. Mas o nome aqui é mesmo o de João Tomás.

O jogador completará 36 anos em 2011, sendo 15 destes de uma carreira iniciada profissionalmente em 1994, no Anadia. E mesmo com tal idade, o centroavante ainda é um dos principais homens-gol do futebol português. Embora tenha perdido uma cobrança de pênalti no começo da partida desta quarta, entre o Benfica e seu Rio Ave, pela Taça de Portugal, João Tomás tem costumado ser decisivo. Com 11 gols, é superado apenas pelo desempenho acima da média de Hulk na artilharia do campeonato, que marcou 17 vezes.

Dadas as limitações do Rio Ave em vários setores do campo, principalmente na armação, o número de tentos marcados é significativo, inclusive porque os vilacondenses mandaram às redes somente 17 bolas até o momento. Ou seja: sozinho, João Tomás marcou mais de 64% dos gols de sua equipe. Outra peculiaridade é que somente em uma oportunidade, na nona rodada, o atacante foi às redes apenas uma vez. Nos demais confrontos em que deixou sua marca, o camisa 9 do time dos Arcos fez sempre dois gols.

Mais um número que chama atenção: o de presenças. Mesmo com os 35 anos nas costas, João Tomás esteve nos 17 jogos realizados pelo Rio Ave na Liga Zon Sagres até o momento, e foi substituído somente uma vez — aos 41 do segundo tempo, na terceira rodada. Não manteve os 100% de titularidade na Taça de Portugal porque, nos primeiros embates, contra equipes de divisões inferiores, fora poupado e deixado no banco de reservas. Ainda assim, uma regularidade bastante significativa e rara no futebol atual.

Tecnicamente, João Tomás nunca foi um primor. Seu apelido, de Jardel do Calhabé, obtido após uma passagem proveitosa pela Acadêmica entre 1996 e 1999, evidencia seu perfil de atacante de área, essencialmente goleador, mas que também sabe jogar como uma espécie de pivô. Sua altura (1,88 metro) ajuda no desempenho, que o levou, nos primeiros anos de carreira, a jogar no Benfica e no Real Betis, onde foi, inclusive, artilheiro da equipe em sua primeira temporada, tendo perdido espaço por desentendimentos internos.

No entanto, o atacante, como vem mostrando na atual temporada, esteve longe de ser incapaz. Teve problemas e poucas oportunidades no Betis, mas em seu retorno em definitivo a Portugal, na temporada 2004/05 (esteve, nesse meio tempo, no Vitória de Guimarães), fez 30 gols em 54 jogos pelo Braga. Optou, no entanto, em rumar, em 2006, ao futebol árabe, onde permaneceu até a época 2007/08, quando voltou ao elenco bracarense, mas sofreu com lesões — algo, diga-se, pouco comum em sua carreira — e com a concorrência no setor.

Em uma entrevista, no ano passado, cedida ao portal “I”, João Tomás brincou, dando a entender que nascera na “década errada”. Faz algum sentido, já que, se atualmente Portugal vive uma escassez de camisas 9 — a ponto de o vilacondense ter sido pedido por boa parte dos portugueses para a Copa do Mundo —, os anos em que apareceu bem para o esporte foram marcados pelo destaque de atacantes como Pauleta, Sá Pinto e, principalmente, Nuno Gomes. Concorrência que o fez disputar somente quatro partidas pela seleção nacional.

A idade elevada dificulta toda e qualquer possibilidade de nova convocação, tanto pela urgente renovação que necessita o selecionado tuga — o atacante terá 39 anos em 2014 — como pela evolução de Hélder Postiga e Hugo Almeida no setor. Ainda assim, não o impede de ainda ser alvo do futebol nacional e mesmo internacional. Neste ano, por exemplo, João Tomás foi colocado na mira do Slavia Praga, e nas proximidades da abertura da janela de transferências, acabou sondado até pelo Sporting.

Mas João Tomás deve mesmo encerrar a temporada pelo Rio Ave, onde ainda briga, com boas perspectivas, ao menos pela vice-artilharia da competição, e consegue mostrar que, mesmo em uma liga de clara carência de centroavantes portugueses natos (já que Hulk, Falcão, Oscar Cardozo, Liedson ou Carlão não entram nessa lista), é uma das raras luzes no fim do túnel. Luz essa que em, mais tardar, duas épocas, deve começar a se extinguir, com um eminente fim de carreira.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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