O que quer esse Leixões?

Após oito rodadas de Campeonato Português, o leitor mais desavisado poderá não acreditar no que vê se atentar para a tabela classificativa. Para surpresa de todos – incluindo-se aí este colunista – o líder da Liga é o modesto Leixões, clube da cidade portuária de Matosinhos (sub-região do Grande Porto), fundado em 28 de novembro de 1907. Com 19 pontos conquistados até agora (seis vitórias, um empate e apenas uma derrota), os “Heróis do Mar”, como é conhecida a equipe de futebol, são a sensação da temporada futebolística em Portugal.
A nova façanha do Leixões foi vencer o Sporting, em Alvalade, por 1 a 0 no último sábado (15 de novembro). Antes disso, havia empatado em casa com o Benfica por 1 a 1, na quinta rodada, e surpreendido o Porto por 3 a 2, no Estádio do Dragão, na sexta rodada. Por ironia, a única derrota do Leixões no campeonato foi justamente em casa, logo na primeira rodada, diante do Nacional, por 3 a 1. Considerando-se que o Braga também já foi superado neste campeonato (2 a 0, na terceira rodada), o caminho do clube de Matosinhos não parece ser muito complicado neste primeiro turno. Portanto, fica a pergunta: do que ainda será capaz esse Leixões?
As manchetes dos jornais esportivos portugueses no último domingo davam conta da supremacia do Leixões até agora na Liga. O Jogo estampava “Novo banho de bola – Líder depois de vencer no Dragão e agora em Alvalade”. O Record também fazia alusão à geografia de Matosinhos: “Mar vermelho – Leixões consolida liderança”. E o diário A Bola completava: “Vermelhão – depois do Dragão, Leixões arrasa Alvalade.” Na próxima rodada, o Leixões pega o Rio Ave na Vila do Conde (localidade próxima a Matosinhos) e espera-se uma pequena enchente vermelha dos “Heróis do Mar”, uma das torcidas mais fanáticas de Portugal.
Evolução do Leixões é surpreendente
O Leixões, à semelhança do que acontece com quase todos os clubes médios de Portugal, vive à sombra das conquistas dos três grandes (Benfica, Porto e Sporting). Sua maior façanha foi o título da Taça de Portugal em 1961 diante do Porto. Fora isso, foi campeão da segunda divisão em duas oportunidades. Em 2003, o clube andava na Terceira Divisão, quando também se sagrou campeão e garantiu o acesso. Até a temporada 2006/07, aliás, o clube estava na segundona; terminou em primeiro e subiu para a Primeirona no ano passado. Na sua volta ao escalão principal, amargou a 14ª colocação e quase foi rebaixado de novo.
O clube de Matosinhos beneficia-se ainda da instabilidade dos três grandes e tira proveito de seu estupendo aproveitamento até agora. O Sporting, por exemplo, vive às voltas com a turbulência interna entre treinador e alguns jogadores, algo que não tem prazo para terminar. A briga entre o treinador Paulo Bento e o montenegrino Vukcevic teve novo capítulo no último domingo, com o jogador ausentando-se do treino e antecipando – à revelia do clube – sua integração à seleção de Montenegro, que joga um amistoso no meio de semana. Com apenas 13 pontos (seis atrás do líder), os Leões aparecem apenas na 6ª colocação no campeonato.
Polêmica atrás de polêmica
Já o Porto aparece em franca recuperação após um mês de outubro com derrotas no campeonato e na Liga dos Campeões. No último sábado, os Dragões voltaram a atuar bem e superaram o Vitória de Guimarães por 2 a 0 em casa. A partida marcou algumas “efemérides” caseiras: foi o centésimo jogo do técnico Jesualdo Ferreira no comando do Porto e sua qüinquagésima vitória no campeonato português, com Lisandro López anotando também seu qüinquagésimo gol a serviço dos Dragões. Agora o Porto é o 4º colocado, com 14 pontos.
O Benfica segue na vice-liderança, com 18 pontos, após vencer em casa por um magro 1 a 0 o abnegado Estrela Amadora, cujos atletas não recebem salários há meses. O bom momento dos Águias no campeonato nacional contrasta com a má campanha na Taça Uefa. Quique Flores, técnico encarnado, chamou a atenção na última semana ao comentar de forma curiosa a polêmica atuação do árbitro Bruno Paixão no Sporting x Porto da semana passada, pela Taça de Portugal. Paulo Bento, técnico sportinguista, afirmou que a arbitragem portuguesa lhe dava “nojo”. Foi a senha para que Quique defendesse o intercâmbio de árbitros, com juízes portugueses indo apitar no exterior, em troca da vinda de juízes estrangeiros para apitar em Portugal. É mais uma polêmica para apimentar o já temperado futebol luso.
Golo de Letra
Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa ,
Apoucando os excessos da firmeza.
Rebatendo os assaltos da ternura :
Temo que a tua singular candura
Leve o tempo fugaz, nas asas presa
Que é quase sempre o vício da beleza,
Gênio imutável, condição perjura:
(Trecho de soneto do poeta Bocage.)



