Portugal

O português Liedson

O assunto já fora discutido neste espaço no primeiro semestre deste ano, mas invadiu com força a pauta do mundo futebolístico português nas últimas semanas: o atacante brasileiro Liedson, que antes de rumar para o Sporting havia se destacado no Corinthians, ganhou dupla nacionalidade em agosto. Agora, também passou a ser cidadão português, privilégio concedido em Portugal e em outras nações àqueles que permanecem mais de cinco anos trabalhando no país.

O fato de ganhar a nacionalidade portuguesa não traria maiores implicações se não fosse pelo fato de que Liedson sempre foi anunciado como possível reforço para o ataque da Seleção de Portugal. A lembrança do “Levezinho” para o time dos Tugas só faz sentido por causa da debilidade crônica dos atacantes da seleção lusa. Mas a discussão em torno de Liedson não tem a ver com sua capacidade para envergar a camisa de Portugal; tem a ver com o fato de que ele representa mais um “estrangeiro” a envergar essa mesma camisa.

Pois bem, o que muitos esperavam – e tantos outros rechaçavam – aconteceu: Liedson não só ganhou a nacionalidade portuguesa (algo a que ele tinha direito, por viver e trabalhar no país há seis anos) como já foi convocado para os dois próximos compromissos da Seleção de Portugal (Dinamarca, a 5 de setembro, e Hungria, quatro dias depois, pelas eliminatórias européias para a Copa do Mundo de 2010. Agora, a seleção lusa já é chamada de seleção dos “brazucas”, já que há outros dois brasileiros têm integrado o elenco nas últimas convocações (Deco e Pepe).

Convocação de Liedson reacende velhas xenofobias
 

Segundo levantamento feito pela imprensa lusa, Liedson será o sexto estrangeiro a representar a Seleção Portuguesa, numa lista onde já constavam os nomes dos brasileiros Celso, Lúcio, Deco e Pepe (já citados), e do sul-africano David Júlio. Mas a rejeição ao Levezinho será grande, como já havia sido com Deco quando este foi convocado por Felipão para o Euro de 2004.

Já expressei este ponto de vista em outras oportunidades e volto a reforçar a idéia de que Liedson tem muito mais de “português” do que os colegas Deco e Pepe – que sequer atuam em Portugal. Deco, por exemplo, nunca escondeu o desejo de voltar a fixar-se no Brasil após o fim de sua carreira. Nem se esforça em cantar o hino português nas cerimônias que antecedem o início das partidas. Já Liedson – ao contrário –, além fazer muitos gols, demonstrou-se bastante feliz diante do novo desafio: “Espero ser bem recebido. (…) Respeito a opinião de quem se opõe. Vou jogar de corpo e alma pela Seleção”, prometeu.

O risco que várias seleções européias têm corrido é o de descaracterizar por completo a cultura de seu futebol por força de algumas nacionalidades que só são atribuídas a alguns atletas para atender a princípios estritamente futebolísticos. Mas esse não parece ser o caso de Liedson. Entretanto, é notório que o jogador só optou pela segunda nacionalidade por não ter espaço em sua seleção nacional de origem. Essa é a maior crítica que os portugueses têm feito aos casos “forçados” da dupla nacionalidade concedida a Deco e Pepe nos últimos anos.

Liedson jogará à vontade na seleção?

Certo é que o técnico Carlos Queiroz, se quisesse, poderia montar uma Seleção Portuguesa hoje apenas com atletas brasileiros que conquistaram a dupla nacionalidade. Por ora, importa discutir se os Tugas conseguirão superar Dinamarca e Hungria fora de casa nos dois próximos compromissos. Portugal tem hoje seis jogos realizados e apenas 9 pontos (é a terceira colocada do Grupo 1 europeu). A Dinamarca está sete pontos na frente e, logo atrás, vem a própria Hungria (13 pontos). Se empatar um desses dois confrontos, o caminho para o Mundial-2010 estará praticamente perdido para os portugueses.

Resta saber o que Liedson será capaz de fazer no time sem estratégia e sem padrão de jogo montado pelo técnico Queiroz. Se bem que, neste aspecto, as coisas não são tão diferentes pelos lados de Alvalade, já que o Sporting – pela milésima vez em sua história – intimidou-se numa competição européia e desperdiçou a chance de disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões (LC). Não perdeu nenhum dos dois jogos que fez com a Fiorentina na pré-eliminatória da LC – mas também não venceu nenhum deles. Liedson, desta vez, não resolveu. Resolverá com a camisa dos Tugas no peito?

Golo de Letra
 

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.

Bernardo Soares – um dos heterônimos de Fernando Pessoa – no Livro do Desassossego.
 

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Equipe Trivela

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