Portugal

O Porto cresceu no momento certo e agora celebra o seu 29° título de campeão português

O Campeonato Português se prometia como um dos mais acirrados nesta reta final de temporada europeia. Benfica e Porto voltaram da paralisação separados por apenas um ponto, com mais dez rodadas pela frente. O desfecho da campanha, entretanto, seria surpreendente por não se resumir em tanto equilíbrio assim. Os benfiquistas davam sinal de seu declínio desde o início do ano e se afundaram em uma crise ainda maior na retomada. Enquanto isso, os portistas já cresciam no segundo turno e, após tomarem a liderança, dispararam na frente. A confirmação do título do Porto veio com duas rodadas de antecedência, graças à vitória por 2 a 0 sobre o Sporting no Estádio do Dragão. Um troféu para ser lembrado pela reviravolta na tabela.

Derrotado pelo Gil Vicente na estreia, o Porto fez um bom primeiro turno, emendando logo depois 15 jogos de invencibilidade – com 13 vitórias no período. O problema é que o Benfica vinha ainda melhor e, exceção feita à derrota no próprio clássico dentro do Estádio da Luz, venceu todos os outros 16 compromissos pelo primeiro turno. Com a derrota dos portistas na última rodada da primeira metade, diante do Braga, os encarnados chegaram a abrir sete pontos de vantagem na liderança – tomada no fim de outubro, com a queda de rendimento do fenômeno Famalicão, derrubado justamente por uma derrota ante o Porto.

O Benfica seguiu imparável até a terceira rodada do returno, quando aconteceu o reencontro com o Porto no Estádio do Dragão. Uma vitória poderia ter garantido a vantagem de dez pontos aos encarnados no topo da tabela. Porém, os portistas encaminharam o triunfo desde o primeiro tempo e comemoraram o placar de 3 a 2. A diferença em relação aos líderes, que diminuiu naquele momento, cairia ainda mais com a derrota dos encarnados contra o Braga no compromisso seguinte. A partir de então, os papéis se inverteriam. E os benfiquistas se afundaram em uma draga danada, que ainda incluiu a eliminação na Liga Europa. O Porto surfou na onda.

Quando a pausa aconteceu, o Benfica havia vencido apenas um de seus últimos cinco jogos pelo Campeonato Português. O Porto até empatou com o Rio Ave, mas vinha de seis vitórias consecutivas e aparecia apenas um ponto atrás. No retorno da liga em junho, os portistas deram mole com a derrota por 2 a 1 para o Famalicão, pouco antes do empate contra o Desportivo das Aves. Só que o Benfica conseguiria ser pior, com derrotas para Santa Clara e Marítimo, além de empates diante de Tondela e Portimonense – três deles lutando para não cair. Com isso, o título acabaria no colo do Dragão.

Com o Benfica em caos, mudando de técnico e tudo, o Porto teve tranquilidade para arrancar. Já tinha tomado a liderança antes do empate contra o Desportivo das Aves, ao derrotar o Marítimo. Depois disso, foram só vitórias aos alviazuis. A diferença se ampliou e a conquista se tornaria mera questão de tempo. Veio nesta quarta-feira, com uma vantagem que se consolidou em oito pontos, graças ao triunfo sobre o Sporting. O primeiro gol veio aos 19 do segundo tempo, numa cabeçada de Danilo Pereira após cruzamento de Alex Telles. Já nos acréscimos, Moussa Marega confirmou a conquista com um lindo tento. Otávio enfiou e o atacante definiu com qualidade, dando um toquezinho por cima do goleiro Luis Maximiano. Um prêmio de herói a quem havia sido vítima de um execrável caso de racismo nesta temporada.

Marega foi uma das principais figuras do Porto na conquista, com 11 gols e cinco assistências. Ainda assim, o protagonismo se divide bastante numa equipe homogênea. Dois brasileiros aparecem entre os destaques principais. Alex Telles é uma das referências da equipe e se fez decisivo em inúmeros jogos, com dez gols e sete assistências. Talvez tenha sido o grande nome do campeonato, mesmo jogando como lateral. Já na armação, Otávio também se colocou como importante peça na engrenagem. Danilo Pereira, Tecatito Corona, Iván Marcano, Tiquinho Soares e o ascendente Sérgio Oliveira são outras figuras que merecem menção.

O título do Porto garante uma redenção maior a Iker Casillas. Após sofrer um ataque cardíaco na última temporada, o goleiro recuperou sua saúde e voltou a treinar, mas se manteve nos bastidores portistas. Ainda se discute seu retorno aos gramados e até existe uma campanha entre os torcedores para que ele atue nas rodadas finais, mas o veterano manteve a cautela ao falar com a imprensa durante a comemoração. A taça aumenta um pouco mais o currículo condecoradíssimo de um dos maiores goleiros da história. Da mesma forma, é um feito a mais ao zagueiro Pepe. O defensor retornou ao Porto em janeiro de 2019, após 12 anos longe do clube que o lançou em alto nível. Não era campeão português desde 2007. Aos 37 anos, disputou 24 partidas e foi importante na campanha, titular contra o Sporting.

Já no banco de reservas, Sérgio Conceição aumenta um pouco mais sua consideração no Estádio do Dragão. Campeão como jogador pelo clube, também tinha levado a taça em sua primeira temporada como técnico dos portistas, em 2017/18. Manteve-se no cargo apesar do insucesso na campanha anterior e recupera o troféu. O comandante é reconhecido por seu temperamento forte e pela maneira agressiva como conduz seu trabalho. Tem méritos por conseguir manter o foco de seu time nos momentos decisivos, mesmo quando teve problemas internos e quando o Benfica parecia se desgarrar. E poderá se provar outra vez contra os rivais na decisão da Taça de Portugal, marcada para 1° de agosto.

O Porto chega ao seu 29° título no Campeonato Português, a oito do recorde do Benfica. Mais importante, se mostra capaz de impedir a hegemonia dos encarnados, após o tetracampeonato recente dos concorrentes. Anda faltando aos representantes lusitanos um pouco mais de competitividade no cenário europeu. Mas, dentro de casa, os portistas fizeram seu dever e poderão recontar esta sua arrancada em 2019/20 – em que as vitórias nos confrontos diretos e o crescimento na hora certa também se combinaram com a desgraça benfiquista. Nada que tire os méritos ou diminua a festa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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