Ó pá, calma, muita calma nessa hora

Até enfrentar a Dinamarca, na terça-feira, Paulo Bento contabilizava dez jogos no comando da seleção portuguesa, com oito vitórias (com direito a um 4 a 0 para cima da Espanha), um empate e apenas uma derrota – vendida muito caro, aliás, para a Argentina de Lionel Messi. Mais: nas eliminatórias para a Eurocopa, o treinador havia vencido as cinco partidas que disputou, tirando os tugas das últimas posições da chave e levando a equipe, a depender, na última rodada, de apenas um empate para garantir o passaporte ao torneio continental. Ao todo, eram 83,3% de aproveitamento, o melhor rendimento de um técnico na seleção. Veio, então, a derrota diante dos dinamarqueses, em Copenhague, que acabou dando aos nórdicos a vaga direta à Eurocopa e obrigando os portugueses a enfrentar a Bósnia no play-off.
De fato, Portugal teve uma atuação ruim diante da Dinamarca – a pior desde que Paulo Bento assumiu o time. Apesar da boa atuação geral da equipe e dos cinco gols marcados contra a Islândia, na sexta, os três tentos sofridos para o pequeno país escandinavo deram o sinal de que, apesar da eficiência ofensiva, a seleção das Quinas ainda buscava se encontrar lá atrás, com Bruno Alves e Rolando perdidos. Os dinamarqueses cresceram, abriram o marcador ainda cedo e apenas administraram o confronto, assinalando o segundo na etapa complementar. O gol português saiu já nos acréscimos, em uma grande cobrança de falta de Cristiano Ronaldo, mas já quando tudo estava definido na capital nórdica. Ao longo da partida, poucas chances criadas e a sensação de que as coisas não iriam mudar em Copenhague.
Até por isso, em que pese a recuperação que Portugal teve nesta fase de grupos e que manteve a chama da classificação viva, já há quem peça a cabeça de Paulo Bento em caso de eliminação. A verdade, no entanto, é que não é bem assim que as coisas deveriam funcionar. Primeiro porque, de alguma forma, a seleção das Quinas já tem hoje uma base – algo que, por exemplo, o Brasil de Mano Menezes ainda não tem. Em pouco mais de um ano, Paulo Bento convocou 36 jogadores diferentes. Apenas para se ter uma comparação, já em março, Mano havia chamado 52 nomes distintos. Destes 36, alguns nomes óbvios, como Ronaldo, Nani ou, e apostas que deram certo (Carlos Martins, Sílvio e Hélder Postiga) parecem encaminhados. Ao mesmo tempo, o grupo como um todo não está fechado e ainda há observação para os três setores. O que também é interessante.
Outro ponto que parece superado e é a disposição do time em campo. Como já comentado aqui, havia alguma preocupação de que Paulo Bento resgatasse o losango do meio-campo que utilizou e manteve no Sporting em seu último ano como Leão, tanto pelo fluxo ruim de jogo que o esquema estava registrando à época como pela própria característica de jogadores que teria à disposição. Afinal, sabe-se que Portugal é uma seleção que investe bastante nos extremos e tem atacantes de área apenas esforçados, mas sem grande qualidade técnica. Desde o começo, e até para não efetuar mudanças muito bruscas na forma como a equipe atuava – Paulo Bento assumiu perto do jogo de ida com a Dinamarca – a preocupação foi de modificar o comportamento dos meias, incentivando uma aproximação do ataque.
Paulo Bento nunca foi – e ainda não é – unanimidade. Sua pouca experiência como treinador, resumida basicamente aos anos em que passou no Sporting e pelo qual conquistou apenas a Taça de Portugal, era um dos questionamentos. Além disso, ainda não se via no treinador aquela capacidade de fortalecer um time para além do fator tático – o que fazia direta relação com a assustada equipe leonina que treinou no começo da temporada 2009/10, apavorada pelo começo avassalador do rival Benfica. Mas, convenhamos, quem o foi nos últimos anos? Luiz Felipe Scolari acabara de ser campeão do mundo pelo Brasil, mas demorou a ganhar a confiança dos tugas, especialmente após os primeiros resultados ruins nas eliminatórias. Já Carlos Queiroz ficou no limite da tolerância desde sua chegada ao cargo.
Portugal é franco favorito diante da Bósnia, em que pese a necessidade de respeito diante de um adversário que, em 2009, dificultou muito a vida tuga no play-off das eliminatórias para a Copa. Para esses dois jogos, é provável que a seleção tenha o retorno de Fábio Coentrão e Pepe, o que já dá outra cara à equipe, especialmente no cambaleante sistema defensivo. Mas, além disso, será necessário aos portugueses não entrarem em desespero pela possibilidade (que existe) de eliminação. Da derrota para a Espanha na África do Sul para cá, a equipe evoluiu consideravelmente, em termos táticos mas, principalmente, na aplicação em campo. Ainda há pontos a acertar para 2012 e 2014, mas um acidente de percurso contra um rival complicado como a Dinamarca, fora de casa, não significa que está tudo perdido.



