O Minho assusta

Cinco pontos. Em se falando do Campeonato Português, onde a margem de erro é bem pequena e os grandes dificilmente deixam a peteca cair, é uma diferença significativa. Mas essa distância do líder Benfica ainda permite ao terceiro colocado Braga sonhar. Além de ser a equipe de melhor largada em 2012 – é a única que venceu os seis jogos disputados desde janeiro pela competição – os Bracarenses igualaram nesta 19ª rodada a melhor série de vitórias consecutivas de uma equipe no torneio (oito). Uma campanha sólida, que se ainda não é alarmante, já deixa um recado a Benfica e, principalmente, ao vice-líder Porto: eles não estão sozinhos na luta pelo título.
A série de vitórias minhota é mais chamativa porque boa parte delas se deu com mais autoridade, inclusive, que na campanha do vice-campeonato português, em 2009/10. Nessa sequência, goleadas ante Vitória de Setúbal (3 a 0, em casa) e Gil Vicente (3 a 0, fora de casa – sendo que os gilistas tinham acabado de derrubar o Porto) e triunfos de respeito sobre o Sporting (2 a 1, em casa) e o competente Marítimo (2 a 1, fora). A equipe tem hoje o terceiro melhor ataque do torneio (38 gols) e a segunda melhor defesa (16, ao lado do Benfica). Possui, ainda, o vice-artilheiro do certame (Lima, com os mesmos 14 gols de Oscar Cardozo, mas em mais jogos disputados).
Ver o Braga figurar no terceiro lugar da Liga Portuguesa não é exatamente o que surpreende. O que chama atenção é que essa luta dos Arsenalistas por um posto entre os grandes tem ganhado sequência, mesmo com a mudança de treinador (saiu Domingos Paciência, chegou Leonardo Jardim) e da “troca” de quase todo o sistema defensivo da equipe em relação à temporada anterior. Setor, aliás, cuja ótima organização foi fator determinante para os minhotos alcançarem a inédita final de Liga Europa. Apesar da troca de peças, a filosofia dentro e fora de campo (contratações pontuais e a ciência de que o time precisa, antes de tudo, firmar-se como quarta força do país) permaneceram.
Os números do time de Jardim chamam até mais atenção quanto os de Domingos. Em 33 jogos oficiais, foram 20 vitórias, oito empates e só cinco derrotas. Um aproveitamento de 68,8% – que supera o da última temporada (52,4%) e até mesmo o de 2009/10, época do vice nacional (68,3%). Na frente, a equipe também está visivelmente melhor. Foram 60 gols até o momento (1,8/jogo), deixando para trás os 1,5 gols/jogo de 2009/10 e os 1,4 gols/jogo de 2010/11. Apenas defensivamente o saldo da equipe de Jardim ainda não supera o da temporada 2009/10 de Domingos: são 30 tentos sofridos em 33 jogos (0,9/jogo), ainda acima dos 0,7 gols/jogo da equipe vice-campeã portuguesa.
O sucesso do atual treinador se deve, principalmente, a não ter feito mudanças bruscas na forma da equipe jogar, mantendo o 4-3-3 e adaptando, aos poucos, a um estilo mais atacante que outrora. À frente, apostou com sucesso em Helder Barbosa e, mesmo tendo Nuno Gomes como opção, insistiu em um Lima já entrosado e mais ritmo. Além disso, deu liberdade para Hugo Viana ditar o ritmo da equipe. Atrás, se ainda não possui uma linha de quatro definida como era a do time vice-campeão da Liga Europa, Jardim tem sabido mexer as peças para deixar seu time mais contido ou ofensivo (como quando alçou Leandro Salino à lateral direita, por exemplo).
Se fora de campo o técnico tem sido importante, dentro dele duas peças têm sido fundamentais: os supracitados Hugo Viana e Lima. O meia de 29 anos tem relembrado a ocasião em que despontou como promessa do Sporting, no começo da última década. Com passes precisos e uma visão de jogo que anda em falta no futebol português, tem se firmado não só como a referência deste Braga, mas como opção clara a Paulo Bento na seleção. Já Lima evidencia cada vez mais uma volta por cima que impressiona. Em Portugal, aprimorou posicionamento e finalização, e de um atacante marcado por gols perdidos no Brasil, tornou-se goleador e decisivo: são 18 na temporada – 15 só de novembro para cá.
Hoje, o Braga é mais favorito até que o Sporting à terceira vaga lusa à LC. Pensar em título é algo mais difícil, embora os confrontos diretos ante Benfica (fora) e Porto (casa) ainda estejam pela frente – aliás, a julgar pelo atual rendimento dos Dragões, não seria absurdo ver os Arsenalistas realmente desafiarem os portistas pelo segundo lugar. Além disso, os Bracarenses ainda têm o jogo decisivo com o Besiktas pela Liga Europa, e precisam estar psicologicamente preparados para que a (provável) queda no torneio não influencie o desenrolar da temporada. Se não perder o ritmo, o Braga tem grandes chances de, ao menos, garantir o retorno à Liga dos Campeões – e até chegar à final da Taça da Liga.
Vitória que embala (e embola)
Na última coluna de 2011, este escriba listou o Vitória de Guimarães como uma das grandes decepções da temporada. Apesar do bom time e das pretensões europeias do início da época, a equipe virou o ano em uma inexpressiva 11ª posição. Dada a segura campanha dos cinco primeiros daquele momento (e que ainda são Benfica, Porto, Braga, Sporting e Marítimo), era improvável que os vimaranenses sonhassem sequer em se aproximar da Liga Europa. Eis que o excelente início de 2012 ressuscitou a esperança dos alvinegros: são cinco triunfos em seis jogos. Um saldo que supera até mesmo o do Porto (quatro vitórias, um empate e uma derrota).
A mais recente vitória foi, por tabela, a que provocou a queda do último invicto da temporada (Benfica) e recolocou fogo no campeonato. Um triunfo obtido tanto pela eficiência tática e técnica dos vimaranenses como pela atuação ruim dos Encarnados, dentro e fora de campo. Dentro porque o time não teve momento algum de brilho e a defesa, que vinha tão consistente nos últimos jogos, ter falhado feio no lance do gol, ficando estática enquanto Marcelo Toscano balançava as redes de Artur Moraes. Fora pelo fato de o técnico Jorge Jesus ter demorado demais a mexer no time – a começar pela manutenção de Nemanja Matic na equipe e a ausência de Alex Witsel, que ficou no banco.
A reação do Guimarães na tabela passa pela afirmação de peças importantes do elenco – casos dos defensores João Paulo e Alex, dos meias Paulo Sérgio e Nuno Assis e dos atacantes Toscano, Edgar Silva e Jean Barrientos –, por mais uma ótima temporada do goleiro Nilson e também pelo belo trabalho do técnico Rui Vitória. O treinador, que já se destacara na boa época 2010/11 pelo Paços de Ferreira, devolveu confiança ao elenco. Abriu mão da Taça da Liga, priorizou o campeonato nacional e emplacou oito vitórias nos últimos onze jogos. Triunfos que recolocaram a equipe na briga por vaga na Liga Europa – ainda que os seis pontos que a separam de Marítimo e Sporting sejam consideráveis.
Em paralelo, o Benfica agora passa por um cenário inusitado na temporada: vem de duas derrotas consecutivas, sendo esta última determinante para que o campeonato recuperasse emoção. Agora, são apenas dois pontos separando as Águias de um que Porto, se não prima pela consistência, terá agora caminho livre na briga pelo título nacional (ainda que não se tenha exata medida do que representará o inapelável 4 a 0 sofrido ante o Manchester City, na Inglaterra). Pelo lado encarnado, a dúvida é o quanto a nova derrota pode influenciar o comportamento da equipe para o duelo de volta da LC, contra o Zenit, na Luz – para o qual o Benfica é favorito.
Choque de realidade
Por falar em Liga Europa, o Porto sofreu nesta quarta-feira uma derrota amarga. Mais do que o 4 a 0 que levou dos Citizens (ou do 6 a 1 no agregado), os Dragões sentiram na pele a diferença drástica entre o time da temporada anterior e o da atual. Não isso já não estivesse claro. Mas é que é em jogos assim que as fragilidades se acentuam. A primeira delas: o único “9” da equipe é Marc Janko – e além dele não poder entrar em campo contra o City, os outros atletas com característica parecidas (Kleber e Walter) perderam moral com o técnico Vítor Pereira. Walter, aliás, foi negociado e saiu bem chateado com o ex-treinador.
Outra coisa: a dupla Rolando e Nicolas Otamendi é limitada – isso já dizia desde a última época. Eliaquim Mangala ainda está “verde” para assumir a titularidade, e o melhor zagueiro do time, hoje, está improvisado na lateral direita: Maicon. Já Vítor Pereira faz o que pode dentro de uma concepção que julgou ideal, mas que não vingou. Poderia ter feito o simples, dado inicialmente sequência ao trabalho de André Villas Boas – como o próprio fez em relação ao “legado” de Jesualdo Ferreira, para aos poucos dar uma cara mais ofensiva e vibrante ao time. Além disso, Pereira demorou a encontrar o onze ideal e “sumiu” com as chamas de seu Porto.
A “batata” de Pereira assa cada vez mais. Com Domingos Paciência (ex-atacante do Porto) no mercado e Villas-Boas às portas de deixar o Chelsea – o técnico, que curiosamente não conseguiu dar aos Blues a vibração que empenhara nos Dragões, até assistiu ao jogo desta quarta ao lado do presidente Pinto da Costa, em Manchester – não seria estranho que AVB e Porto se reencontrassem em 2012/13. Uma Possibilidade real para que tanto um como outro corrijam o que, talvez, tenha sido o grande erro de ambos ao fim da temporada anterior: a “separação” precoce.
Liga de Honra
O Estoril segue firme para retornar à primeira divisão. Pela 19ª rodada da Liga de Honra, a equipe bateu o Freamunde por 3 a 0 e foi a 41 pontos, abrindo nove do vice-líder Desportivo Aves, que empatou em 1 a 1 com a terceira colocava Naval (31 pontos). Já o Moreirense, que podia assumir o segundo lugar nesta rodada, acabou derrotado pelo Leixões por 1 a 0 e estacionou nos 31 pontos, em quarto lugar – o time de Matosinhos é o oitavo, com 27. O tradicional Belenenses, por sua vez, perdeu a chance de se distanciar das últimas posições ao empatar em casa com o Portimonense. O time do Restelo foi a 22 pontos e caiu para o 12º lugar na tabela, a três do Freamunde, primeiro da zona de rebaixamento.
II Divisão
No terceiro escalão português, o Boavista, campeão português em 2001, segue se distanciando da liderança. Os axadrezados foram derrotados pelo Operário dos Açores por 2 a 0 e estacionaram nos 35 pontos, sendo ultrapassado pelo próprio Operário e caindo para o quarto lugar do grupo Centro. O líder da chave ainda é o Tondela, com 44 pontos, que também tropeçou: perdeu para o Anádia por 2 a 1. No grupo Norte, o Varzim segue na ponta com 44 pontos. Na rodada passada, ficou no 2 a 2 com o Macedo de Cavaleiros, fora de casa. Já na chave Sul, a liderança é do Torreense, que bateu o Carregado por 2 a 1 e foi a 42 pontos, quatro a frente do Fátima. Os campeões de cada grupo avançam ao triangular final.



