Portugal

O ídolo dá adeus

Foram 166 gols em doze temporadas pelo Benfica. Sete títulos conquistados com a camisa encarnada, com destaque aos dois últimos campeonatos nacionais vencidos pelas Águias. Um dos grandes da história do clube e, para muitos, o maior nome benfiquista (ou pelo menos segundo maior) desde Eusébio. A identificação de Nuno Gomes com o emblema mais popular de Portugal é imensa e isso bem se sabe. Até por isso, não deixa de ser surpreendente a confirmação de que o atacante não será mais jogador de seu time de coração.

Surpreendente? Bem, nem tanto. Nuno Gomes não diz com todas as letras e tem se esquivado de qualquer polêmica ao comentar sua saída, mas o adeus passa diretamente pela figura de Jorge Jesus, técnico encarnado. A relação estava desgastada. Não exatamente no sentido de um desgostar o outro, mas porque estava claro, como esteve ao longo das últimas duas temporadas, que Jesus não tinha o atacante em seus planos. Na primeira época do trenador, Nuno fez 21 partidas, mas somente cinco como titular. Ao todo, 492 minutos – equivalente a pouco mais de cinco jogos completos – e quatro gols.

Na temporada recém-findada, o aproveitamento foi ainda menor: 12 jogos, sempre como substituto, e apenas 75 minutos em campo. O número de tentos assinalados, curiosamente, foi ainda maior (cinco). Uma interessante média de um gol a cada 15 minutos. Apesar disso, Jesus e o Benfica pretendiam que Nuno Gomes seguisse apenas nos bastidores da equipe. O jogador, por sua vez, queria dar sequência à carreira e, provavelmente, encerrá-la neste ano. O Benfica, então, não renovou seu contrato de atleta, e o avançado está de malas pronta para o Braga.

O adeus de Nuno Gomes marca o fim de uma ligação iniciada em 1997, quando o jogador, natural (curiosamente) da região do Porto, deixou o Boavista – onde debutou na carreira profissional e conquistou a Taça de Portugal contra o própro Benfica – para rumar ao sul do país. Foram três temporadas brilhantes, ainda que sem títulos, com 76 gols em 124 partidas. O sucesso levou-o a seleção e a sua única aventura no exterior, na Fiorentina (contratado por 13 milhões de euros). Pela Viola, foi bem, mas com a falência da equipe, voltou ao Benfica em 2002.

Seu retorno à Luz foi também a oportunidade de conquistar o que faltou em sua primeira passagem: títulos. Venceu a Taça de Portugal em 2004 e a Liga em 2005, além da Supercopa, também em 2005. Mesmo tendo lutado contra lesões durante esse tempo – um dos fatores que o impediram de, por exemplo, ser artilheiro do Campeonato Português -, manteve-se vivo nos gramados e se configurou, até pelo tempo de casa, em um raro ídolo e referência de um time que buscava recuperar os holofotes no país, então dominado pelo Porto.

A representatividade de Nuno Gomes no elenco foi tamanha que em 2007, acabou premiado com a braçadeira de capitão, então pertencente a Rui Costa. Apesar disso, anualmente, o Benfica trazia novos reforços ao ataque, e em muitos casos, era Nuno o “sacrificado” para ir ao banco. À medida que a temporada corria, porém, lá estava o “eterno” novamente no onze. Mantorras, José Reyes, David Suazo e Fabrizzio Miccoli estiveram entre os “concorrentes” que, em dado momento, viram seu espaço ser retomado pelo português.

No entanto, quando chegaram Jorge Jesus e Javier Saviola, as coisas mudaram. O argentino assumiu o ataque ao lado de Oscar Cardozo – este o primeiro a “vencer” a concorrência de Nuno Gomes – e o atacante de hoje 34 anos acabou relegado a reserva. Além disso, vieram mais quatro atacantes (Alan Kardec, Weldon, Eder Luís e Keirrison) para ampliar a concorrência. A incontestável conquista do título com a dupla sul-americana à frente e as boas atuações de Éder Luís e Kardec foram o primeiro baque ao futuro de Nuno Gomes.

O segundo baque foi justamente o fato de Cardozo ter feito um 2010/11 fraco e Saviola ter tido desempenho abaixo da temporada anterior. Kardec, diferentemente da época anterior, decepcionou e o novato Franco Jara acabou virando o 12º jogador da equipe. Nuno Gomes, mesmo com sua experiência e eficiência quando esteve em campo (vide números supracitados), foi ainda menos requisitado, o que aumentou a especulação de que seus dias na Luz estariam contados – fora colocado até na órbita do Santos, no ano passado.

De fato, Nuno Gomes já não é o mesmo de quatro anos atrás. Ainda tem bons domínio de bola e posicionamento. Mas sua reação e velocidade estão bem mais lentas. É bem verdade que pela má fase de Cardozo e Kardec em 2010/11 e o que mostrou no pouco que esteve em campo, sua permanência merecia até ser melhor pensada. Porém, é até compreensível que o Benfica, para tentar alcançar o atual Porto, necessite de um homem de área mais forte, regular e veloz, e que renovar por mais um ano o contrato para que o jogador siga sem jogar não é lá muito inteligente.

Ainda assim, a forma como o Benfica sacou Nuno Gomes não foi muito condizente com o que o jogador representa para a casa. O próprio lamenta não ter tido uma partida de despedida, ou então que fosse avisado de que a rodada final da última temporada seria seu último jogo, pois desejava agradecer aos torcedores – o que poderia muito bem ser feito. Jesus não lhe foi assim direto (segundo o atacante), mas ao dizer que contaria com Nuno Gomes para sua equipe técnica, deu o recado: “comigo, só no banco, mas em campo, não”. A diretoria encarnada, por sua vez, optou em apenas observar.

Não que se devesse impor Nuno Gomes a Jesus. Pelo contrário: como já dito aqui, seria inviável e até desrespeitoso a time e ao jogador mantê-lo no grupo como eterno reserva. No entanto, diante da inevitável saída do jogador, evidente desde o final da última temporada, faltou algum tato para preparar-lhe uma homenagem já nos jogos finais de 2010/11. Afinal, cada vez são raros os atletas que passam anos em um clube – ele próprio lembrou isso em entrevista ao jornal Record -, especialmente quando se chega ao ponto de, em mais de uma oportunidade, aceitar até reduções salariais. Sem esquecer que, no elenco, Nuno Gomes era mais que companheiro, mas um líder.

No Braga, seu virtual destino, o atacante deve arrebatar a vaga de Lima e jogar com Alan e Paulo César, no que promete ser um dos ataques mais perigosos da Liga. Mas e depois? Em seu site pessoal, Nuno Gomes diz que trabalharia com jornalismo esportivo se não fosse jogador. Ao mesmo tempo, deixa na mesa a possibilidade de aceitar um cargo diretivo no Benfica, se o convite persistir para o fim da temporada. Independente disso, os fãs do futebol português terão, em 2011/12, a provável última chance de ver um dos ídolos mais respeitados do futebol do país nos últimos anos em campo.

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Equipe Trivela

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