Portugal

O herói que vem do banco

Não é do feitio do colunista falar, em duas semanas seguidas, do mesmo clube. Porém, não há como negar que o grande destaque da semana – e, talvez, do futebol português até o momento – chama-se Braga. Não é exagero dizer que os minhotos vivem o maior momento de seus 89 anos de história. Despacharam dois times muito mais vitoriosos, tradicionais e financeiramente capacitados antes de sacramentar a vaga inédita à fase de grupos da Liga dos Campeões. Superaram uma equipe que, se avançasse, poderia até ser cabeça de chave devido a seu coeficiente na UEFA. E têm conseguido ir muito mais longe do que seu elenco, que apesar de ter algumas peças interessantes, tem limitações, poderia permitir ou sequer sonhar. O sonho virou realidade.

Mas mesmo com as atuações destacáveis da dupla de zaga Rodriguez e Moisés, os gols decisivos de Matheus e o inesperado oportunismo de Lima, o grande responsável pelo que se vê neste Braga está certamente no banco de reservas. Não se pode ignorar ou desprezar a importância de Domingos Paciência, mais promissor treinador do futebol português – e que já pode se considerar uma sombra a Jorge Jesus numa eventual sucessão a Carlos Queiroz na seleção nacional. O “dedo”, como se diz, do técnico foi claramente visto em ambos os jogos, com alterações que se mostraram decisivas, como a entrada de Sílvio na lateral direita no jogo de ida ou a troca de Luís Aguiar por Lima nos dois confrontos. Mas não apenas isso.

O sucesso de Paciência com o Braga se deve também a todo o trabalho que desenvolve no clube desde que chegou, em julho do ano passado, para substituir Jesus. Como recordado pelo atento leitor do blog da Trivela, o portista fanático José Fernando Moreira, desde sua época de jogador o atual técnico arsenalista já mostrava um conhecimento tático na grande área, setor onde atuava, acima da média. Além do mais, o comandante da nau minhota é ciente que há limitações em seu elenco, e não se pode distanciar a falta de um atleta que se possa considerar tecnicamente destacável, que pudesse carregar mais uma bola ou partir para a individualidade, da opção do treinador em valorizar primordialmente o posicionamento e o trabalho de jogadas em conjunto.

Por exemplo: até há “escapulidas” dos laterais Elderson e Sílvio, mas estas não são frequentes, deixando, na maioria das vezes, os avanços pelos lados com os pontas Alan e Paulo César. E quando sobem, logo há Vandinho para a cobertura. Pelo meio, Leandro Salino (antes, pode-se dizer, função exercida por Hugo Viana) e, mais recentemente, Luís Aguiar (outrora Mossoró) cuidam da ligação, com o uruguaio a jogar mais próximo do ataque. A organização é detalhada, a ponto de as bolas nas alas serem buscadas justamente pelos pontas, deixando Salino e Aguiar mais especificamente no meio – com Aguiar subindo para fazer dupla com Matheus. Engrenagem essa muito bem desenhada por Paciência, como este já fizera em 2008/09, quando levou uma ainda mais limitada Acadêmica ao 7º lugar.

Destaca-se também a segurança defensiva de um time que não se pode dizer que é retranqueiro, já que tem pelo menos cinco homens de frente usualmente escalados. Tudo bem, Evaldo faz uma falta enorme no lado esquerdo (Elderson é bem limitado, mas é o que há na equipe) e Sílvio, embora tenha entrado muito bem, está apenas agora na equipe. Mas principalmente a dupla Rodriguez e Moisés faz da linha de zaga minhota talvez a segunda melhor de Portugal, atrás de David Luiz e Luisão, do Benfica. E Domingos Paciência também tem méritos aí, já que encontrou em Vandinho a opção ideal para carregar o piano defensivo pelo meio, cobrindo as laterais (salvou mais do que deveria a pele de Elderson nos dois confrontos contra o Sevilla) e colando aos zagueiros para ajudar a marcação.

Nenhum dos jogadores abordados até aqui são foras de série. Mas são atletas com uma boa rodagem, especialmente em gramados lusitanos, e Paciência conseguiu criar com esse elenco um conjunto formidável, capaz de jogar de igual para igual contra um bicampeão da Copa da UEFA e terceiro colocado do último Campeonato Espanhol, dotado de um time bem mais forte e rico. Fez esse grupo vencer. E, pode-se dizer, alcançou outra proeza: contando com 17 brasileiros no grupo e tendo em vista a “falada” dificuldade deste tipo de jogador em aderir a esquemas táticos, conseguiu o que muitos técnicos daqui não conseguem: fazê-los respeitar esse padrão, manter a engrenagem funcionando. Não dar uma grande porcentagem dessa fase mágica que vive o Braga a Domingos Paciência é ignorar o óbvio.

Há de se destacar também a postura da diretoria bracarense. Os pés no chão na janela de transferências merecem elogios, e demonstram que o pensamento é o de “muita calma nessa hora”. A pressa de se obter resultados grandiosos já prejudicou o Boavista no passado, que ao mesmo tempo em que se viu entre os grandes europeus, gastou o que não podia por fora. O exemplo negativo do campeão português de 2000/01 parece ter sido bem assimilado pelos arsenalistas, que não modificaram sua política de atuação no mercado. Havia perdas esperadas, como as de Evaldo e Eduardo, mas nem por isso o Braga foi ao mercado ávido por nomes de peso. A única contratação que, pode-se dizer, teve mais impacto (e nem tanto assim) foi mesmo a do goleiro Felipe.

Insistiu-se em coadjuvantes, como Lima, Salino e Sílvio, e lutou-se para manter jogadores como Moisés, Rodriguez e Alan, além do próprio Domingos Paciência, que chegou a ser dado como certo no Porto. Mas ele ficou, tinha um projeto para a Liga dos Campeões. E, equilibrado – aparentemente, tal qual a diretoria do clube -, mantém os objetivos discretos, ciente de que ainda há o que se caminhar. Deseja enfrentar Manchester United ou Real Madrid, enfatizando que é uma oportunidade única encarar os colossos europeus, e brigar por pelo menos o quarto lugar na Liga Zon Sagres. Talvez seja a paciência (com o perdão do trocadilho) de Domingos e do Braga para dar seus passos que possam conduzir o hoje festeiro emblema do Minho ao universo que Belenenses e Boavista fracassaram em alcançar.

Ah, e uma última nota sobre o Braga: com 12 milhões de euros garantidos aos cofres do clube com a classificação inédita para a fase de grupos da Liga dos Campeões (confira aqui na Trivela o sorteio ainda nesta quinta-feira), as despesas esperadas para toda a temporada (10 milhões de euros) já estão asseguradas – e ainda sobrarão pelo menos dois milhões para “arquivo”. A distribuição é a seguinte, segundo o Diário de Notícias: 7,1 milhões pela fase de grupos; 2,1 milhões por ter estado na eliminatória ante o Sevilla; 2,25 milhões por direitos televisivos; além de bilheteira e futuros resultados – já que cada vitória rende 800 mil euros ao time vencedor. E se o sorteio de quinta for generoso com os bracarenses…

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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