Portugal

O Casa Pia não disputava o Campeonato Português desde a primeira edição e agora volta à elite após 83 anos

Com o mesmo dono do Spezia, o Casa Pia cresceu nos últimos anos e se recoloca na elite pela primeira vez desde 1938/39

A segunda divisão do Campeonato Português concluiu a temporada regular neste final de semana. E os dois acessos diretos foram confirmados apenas na última rodada. A promoção do Rio Ave não é grande surpresa e acontece uma temporada depois da queda. Já a grande novidade fica por conta do Casa Pia, um dos pioneiros da liga nacional. O clube lisboeta esteve presente na primeira edição da competição, em 1938/39, e seria rebaixado na lanterna. Desde então, nunca mais tinha reaparecido na elite. O acesso desta temporada encerra um hiato de 83 anos e valoriza a agremiação que chegou a ser treinada por Rúben Amorim em sua guinada recente.

O Casa Pia foi oficialmente fundado em 1920, mas possui uma história mais antiga, relacionada aos primórdios do futebol. A Casa Pia de Lisboa é uma instituição ligada à proteção de crianças e adolescentes, que passou a promover a modalidade ainda no fim do Século XIX. Entre os internos casapianos estiveram nomes importantes ao esporte, sobretudo Cândido de Oliveira, primeiro capitão da seleção e responsável direto pela fundação do time. Com o craque, a equipe passou a acumular títulos no Campeonato de Lisboa durante a década de 1920. A força não se manteve por tanto tempo, mas a inclusão dos Gansos na primeira edição do Campeonato Português em 1938/39 era natural. Contudo, o time contabilizou uma vitória e 13 derrotas.

Ao longo das últimas oito décadas, o Casa Pia vagou pelas divisões de acesso, inclusive por níveis distritais. A guinada mais recente teria um passo importante em 2018/19, quando o clube conquistou o acesso na terceira divisão. Durante a primeira metade da campanha, os Gansos eram treinados por Rúben Amorim, que logo faria as malas rumo ao Braga. Todavia, o sucesso não se restringia ao treinador. O Casa Pia conseguiu melhorar seu desempenho gradativamente na segunda divisão.

É verdade que o rebaixamento poderia ter vindo em 2019/20. O Casa Pia terminou na lanterna da segundona, mas não caiu porque Vitória de Setúbal e Desportivo das Aves tiveram problemas de licenciamento. Já em 2020/21, a equipe subiu ao nono lugar e ganhou novas possibilidades de investimento – em fevereiro de 2021, o clube foi adquirido pelo empresário americano Robert Platek, também proprietário do Spezia. Isso até que o surpreendente acesso viesse em 2021/22.

O Casa Pia não começou tão bem a campanha atual, mas se consolidou no fim do primeiro turno. Durante a segunda metade da competição, os Gansos passaram quase todas as rodadas no G-2 e inclusive permaneceram na liderança por oito semanas. Na antepenúltima rodada, entretanto, a derrota para o Rio Ave custou a ponta da tabela e jogou os casapianos para a terceira colocação. A recuperação veio com duas vitórias nos dois últimos compromissos, incluindo os 5 a 1 diante do Leixões no domingo, para selar a festa.

O Casa Pia contou com sua legião brasileira na segunda divisão. Oito jogadores do país participaram da campanha, embora apenas o lateral Lucas Soares (ex-Cruzeiro) e o volante Neto (ex-São Caetano) tenham sido regularmente titulares. O destaque ofensivo da campanha foi o ponta Jota Silva, de 22 anos. De qualquer maneira, a defesa liderada pelo capitão Vasco Fernandes foi mesmo o ponto alto e terminou como a menos vazada da liga. No banco de reservas, os méritos ficam com Filipe Martins, treinador de 43 anos que conseguiu o grande feito de uma carreira até então restrita às divisões de acesso.

“Tive a felicidade de ser o escolhido por um grande clube, com uma história ímpar no futebol português, e por um grupo investidor que acreditou no que viu. Hoje estamos a colher frutos de tudo aquilo que muita gente trabalhou. Horas e horas para que isto acontecesse. Criámos uma equipe muito boa a nível técnico, mas também humano. Faltam-me as palavras para descrever isto. A alegria daqueles homens, muita gente achou que não íamos ter estofo. Levamos muita daquela gente que nunca imaginou sair do Pátio da Bandeira rumo à primeira”, comentou Filipe Martins.

Já o capitão Vasco Fernandes falou sobre o acesso em contraponto a um escândalo de pedofilia revelado no início do século, que ocorreu na instituição que deu origem ao clube: “Sinto satisfação pelo trabalho realizado e acima de tudo, orgulho. Não representamos só uma equipe de futebol, representamos uma instituição. Muitas vezes esta instituição foi manchada por outros casos. Através do futebol, conseguimos mostrar os valores verdadeiros do Casa Pia. O Casa Pia é muito mais que 50 pessoas que pensam em futebol. É muito mais do que isso. Ajuda muitas pessoas. Através do futebol, conseguimos sensibilizar as pessoas. Somos muito mais do que isto. Esse é o melhor troféu, a melhor medalha que podemos ter”.

O acesso do Casa Pia demandará uma adaptação. O Estádio Pina Manique passará por reformas e, a princípio, os Gansos atuarão no Estádio Nacional do Jamor. A restruturação tende a ser ampla, considerando o tempo que os casapianos passaram fora da divisão principal e o salto que a promoção significa. É ver se Robert Platek conseguirá reproduzir em Portugal o que faz bem na Itália à frente do Spezia. Por história, ao menos, os novatos valorizam a competição e resgatam seu próprio protagonismo dentro das estruturas da liga nacional.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo