Portugal

O adeus de Mourinho Félix, um personagem além do filho: Goleiro e treinador, pai e mentor

No futebol, o sobrenome ‘Mourinho’ costuma ser uma referência óbvia para o banco de reservas. José se transformou em um dos treinadores mais vitoriosos da história graças ao seu perfeccionismo. A paixão do garoto pela bola, entretanto, nasceu motivada por outro Mourinho. O Mourinho que realmente foi o melhor dentro das quatro linhas, sinônimo das “balizas” entre os portugueses ao longo das décadas de 1960 e 1970. Félix atuou por clubes tradicionais do país. Goleiro de Vitória de Setúbal e Belenenses, também chegou à seleção nacional. Depois, foi treinador. E, assim, vivenciando o jogo na essência, inspirou o filho a sua obstinação. Referência que o técnico do Manchester United perdeu neste domingo: aos 79 anos, seu pai faleceu.

José Manuel Mourinho Félix é uma verdadeira lenda do Vitória de Setúbal. Formado nas categorias de base, o goleiro profissionalizou-se em 1958, aos 20 anos. Defendeu a meta dos sadinos por mais de uma década, em um dos períodos mais vitoriosos do clube. Além de troféus internacionais e de copas nacionais de menor importância, as conquistas mais notáveis vieram na Taça de Portugal. Era o camisa 1 no triunfo sobre o Benfica de Eusébio, Coluna e Béla Guttmann em 1964/65, ajudando a assegurar o título. Além disso, também compôs o elenco novamente campeão em 1966/67. Na época, pôde disputar a Recopa Europeia e a Taça das Cidades com Feiras. Oportunidades para encarar gigantes continentais, como Juventus e Bayern de Munique.

Em 1969, Mourinho Félix deixou o Vitória de Setúbal. Assinou com um dos maiores clubes do país, o Belenenses. Não conquistou taças de primeira grandeza no Estádio do Restelo, mas ajudou os azuis a terminarem na segunda colocação do Campeonato Português em 1972/73, melhor classificação desde os anos 1950. Na mesma época, fez sua aparição pela seleção nacional. Convocado para a Taça Independência, disputada no Brasil em 1972, o arqueiro entrou durante o jogo contra a Irlanda. A Seleção das Quinas acabou com o vice-campeonato, derrotada pelos brasileiros, com um tento de Jairzinho.

Em 1974, aos 36 anos, Mourinho Félix pendurou as luvas. E acumulou trabalhos como técnico. Não foi tão bem-sucedido quanto o filho, mas também construiu uma carreira de respeito. Passou por clubes como União de Leiria, Rio Ave, Varzim e União da Ilha da Madeira, além dos próprios Vitória de Setúbal e Belenenses. Conquistou a segunda divisão em três oportunidades, além de ter sido vice da Taça de Portugal em 1984. Desligou-se da função justamente no momento em que seu filho ascendia, antes de atuar também como diretor esportivo.

felix

Durante os últimos anos, José Mourinho falou algumas vezes sobre a influência de Félix. O menino, que só queria saber de presentes relacionados ao futebol, estreitou os seus laços com o pai futebolista durante a transferência ao Belenenses. Foi difícil para o garoto se adaptar longe de Setúbal, sua cidade-natal, e por isso passou a vivenciar de maneira mais constante o dia a dia no Restelo. Assim, descobriu muitas de suas bases para a carreira futura. Também atuou como assistente do pai, além de ter sido seu jogador na frustrada tentativa de se profissionalizar. De qualquer maneira, o destino seria bem mais prodigioso com o rebento.

Nos últimos meses, Mourinho Félix convivia com sérios problemas de saúde. Inclusive, sofreu dois AVC’s. Em 2015, José comentou sobre o episódio, tentando observar o lado positivo: “Meu pai está vencendo sua luta, e de uma maneira muito segura. Ele chegou a níveis que ninguém esperaria. Eu penso que ele é um lutador. A evolução tem sido fantástica e a recuperação é uma ótima notícia. Eu sei como a vida é. E, no fim, sei que o que importa é a família. A força de uma família é o que te permite focar no trabalho. Obviamente, seu coração sente, mas seguimos a vida normalmente. Somos uma família forte”.

Curiosamente, Mourinho Félix não assistia aos jogos do filho. Desde que passou mal em uma derrota do Porto sob as ordens de José Mário, preferia evitar o tormento. Ia a uma partida ou outra, mas não às mais importantes. Inclusive, marcava no relógio o horário do apito final e saía para espairecer, até que pudesse saber o resultado. Cuidados de quem impulsionou um especialista.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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