Portugal

O adeus a Chalana, o craque dos dribles imprevisíveis venerado no Benfica e tratado como gênio em Portugal

Uma figura peculiar pelo bigode e pela baixa estatura, Chalana fez mágica em vários títulos do Benfica e brilhou na Euro 1984 com a seleção

O Benfica não usará a camisa 10 ao longo da atual temporada. A homenagem póstuma anunciada nesta semana dimensiona a grandeza de Fernando Chalana no Estádio da Luz. O meia de apenas 1,65 m e um bigode famoso era um craque genuíno, dono de duas pernas habilidosíssimas, a ponto de ser considerado por muitos como o melhor jogador benfiquista depois de Eusébio. Esbanjava qualidade técnica, tinha um drible imprevisível, adorava deixar seus companheiros na cara do gol. Assim, conquistou diversos títulos pelos encarnados e também fez sucesso na seleção, gravado como um símbolo na campanha até as semifinais da Euro 1984. Era ídolo de torcedores dos clubes rivais, inclusive. Fenômeno desde a adolescência, Chalana teve uma carreira relativamente curta, abreviada pelas lesões. Mesmo assim, dedicaria toda uma vida ao Benfica, a ponto de trabalhar na base e revelar outros grandes talentos do clube. Sofrendo com uma doença degenerativa, o Pequeno Genial faleceu na última quarta-feira, aos 63 anos. Sua história viverá em Portugal por muito mais tempo.

Nascido em 10 de fevereiro de 1959, Chalana cresceu na cidade de Barreiro, em uma família operária – e benfiquista. Era daqueles aficionados pelo jogo desde pequeno, passando pelo futebol de salão. E quando não tinha idade para ser inscrito nas competições federadas, resolveu se aventurar no atletismo e se deu bem. Foi campeão lisboeta dos mil metros no início da adolescência, além de quinto colocado no nacional. Mas faltava um elemento: a bola para correr atrás. “Eu só olhava para a bola, só corria com a bola, levava a bola para a sala de aula. Eu só pedia uma coisa ao Papai Noel: uma bola, nada mais”, contaria, em entrevista à Benfica TV.

A carreira de Chalana começou no Barreirense, time local que então figurava na segunda divisão. O adolescente queimava etapas nas categorias de base e atuava em níveis acima. Quando tinha 15 anos, já no time principal, foi observado pelo Benfica. O lendário Mário Coluna esteve entre os que se encantaram com seu talento e chamaram a atenção da diretoria, diante do interesse que o prodígio também despertava no Sporting. Para o técnico encarnado Milorad Pavic, bastou ver um jogo para pedir sua contratação. Convencidos, os benfiquistas fizeram uma proposta para que ele partisse a Lisboa. Não titubeou.

Contratado pelo Benfica em 1974, Chalana passou dois anos nas categorias de base – campeão nacional com os juvenis e também com os juniores. Sua estreia na equipe principal aconteceu em março de 1976, substituindo o capitão Toni. Logo depois de completar 17 anos, tornou-se o mais jovem a entrar em campo pelo Campeonato Português até então. O meia disputaria apenas duas partidas naquela temporada de 1975/76, que teve os encarnados como campeões.

Ainda assim, não demorou para Chalana deslanchar: o camisa 10 explodiu de vez em 1976/77, brilhando no tricampeonato dos lisboetas. Foram 10 gols do garoto em 28 aparições na liga, com tentos decisivos para vitórias contra Sporting e Porto. Caía de vez nas graças da torcida e dos próprios companheiros. Segundo Toni, a palavra de ordem nos vestiários era de que “passassem ao miúdo, porque ele resolve”. Aquela temporada também marcou a estreia do fenômeno na Copa dos Campeões, apesar da eliminação precoce diante do Dynamo Dresden. “Apaixonei-me pelo ruído que ouvia no Estádio da Luz causado pela expectativa de verem o que iria fazer. Os adeptos criaram um sentimento especial por mim, também porque me estreei muito novo”, refletiria anos depois, ao Sábado.

Chalana chegou a defender três níveis diferentes da seleção de Portugal em 1976. Foi quando aconteceu sua estreia pela equipe adulta, em novembro. Foi bancado pelo técnico José Maria Pedroto para ser titular diante da Dinamarca pelas Eliminatórias. E na partida seguinte, antes mesmo de fazer 18 anos, anotou seu primeiro gol e abriu uma vitória por 2 a 1 sobre o Chipre. Já era chamado pelos jornais da época de “Pequeno Genial”, o apelido que o marcaria para sempre. O seu lugar na Seleção das Quinas estava garantido, embora os tempos fossem difíceis e os lusitanos não tenham disputado a Copa do Mundo de 1978 – superados pela Polônia em seu grupo qualificatório.

A admiração por Chalana se espalhava naquele momento. O diminuto craque desfilava sua genialidade pelos gramados portugueses. Ocupava a meia esquerda do Benfica, quase sempre tratando bem a bola com sua canhota, ainda na verdade fosse destro – e consagrou-se como um dos mais competentes ambidestros do futebol. A qualidade era tamanha que o Pequeno Genial não tinha problemas para finalizar ou cruzar com qualquer perna. Graças a isso, deixava os marcadores malucos por poder fintar em qualquer direção. E nada encantava mais que seus dribles. A facilidade era imensa para aplicar canetas e outros tantos truques atordoantes, aliados à sua velocidade.

“As pessoas pensam que sou canhoto, mas sou destro. As pessoas é que diziam e continuam a dizer que eu tinha um magnífico pé esquerdo, mas não sou esquerdino, nunca fui. Eu sou destro, talvez também por isso enganava muitos adversários. Mas as pessoas, incluindo jornalistas, nunca viram isso. Eu jogava mais vezes do lado esquerdo, fazia o corredor ofensivo, mas também fletia muito para o interior. Tanto assim é que as grandes penalidades que marquei ao longo da minha carreira foram sempre com o pé direito e nunca com o esquerdo. Dá-me vontade de rir, mas é verdade”, contaria Chalana, ao site do Sindicato dos Jogadores de Portugal.

Durante as temporadas seguintes, o Benfica perdeu sua hegemonia no Campeonato Português para o Porto. Nada que atrapalhasse a magia de Chalana. Um episódio emblemático aconteceu em 1978/79, quando os encarnados golearam o Sporting por 5 a 0 no primeiro turno da liga – com três assistências do craque. O lateral Artur, que tinha o trabalho de marcar o camisa 10, chegou a pedir para que ele “parasse o baile”. As anedotas sobre o Pequeno Genial, aliás, eram muitas. Dizia-se que, quando ele achava que um drible não havia sido executado da maneira correta, voltava para ultrapassar de novo o adversário. Era a sua coleção de humilhações, de quem ludibriava até sem tocar a bola.

E a imposição contra o Sporting aconteceu num momento em que os leoninos tentavam contratar Chalana. Fizeram uma proposta suntuosa pelo meia. Benfiquista desde a infância, ele recusou e renovou seu vínculo com os encarnados. “O Sporting oferecia-me muito dinheiro. Fui a casa do presidente João Rocha, na Lapa, e ele mostrou-me uma mesa cheia de dinheiro. Nunca vi tantas notas na minha vida. Propôs-me um salário de 25 mil contos (125 mil euros) divididos por um contrato de três anos, mais um apartamento e uma reforma para o resto da vida se ficasse quatro anos no clube”, rememorou, ao Sábado.

As lesões começaram a atrapalhar a carreira de Chalana em 1979/80, quando disputou apenas dez jogos na temporada por conta de uma fratura e viu de longe os companheiros conquistarem a Taça de Portugal. O camisa 10 voltou com tudo para 1980/81, quando o Benfica reconquistou o Campeonato Português depois de três anos. Contribuiu ativamente para a campanha e ainda auxiliou os encarnados na caminhada até as semifinais da Recopa Europeia, com a derrota para o Carl Zeiss Jena. A equipe ainda garantiu a dobradinha nacional na Taça de Portugal, em decisão vencida contra o Porto. Entretanto, o Benfica não conseguiu repetir os títulos em 1981/82 e sucumbiu diante do Bayern de Munique na Champions. Nesta época, o Barcelona chegou a sondar Chalana. Preferiu levar outro baixinho habilidoso, chamado Diego Armando Maradona.

O Benfica voltou a deslanchar em 1982/83. Chalana fez uma das melhores temporadas de sua carreira e liderou a célebre equipe dirigida por Sven Göran Eriksson. De novo, o Sporting sofreu com o camisa 10. Quando os encarnados já eram campeões nacionais outra vez, na penúltima rodada da liga, o Pequeno Genial desatou a festa com o golaço na vitória por 1 a 0. Também marcou no clássico da Taça de Portugal, em outra caminhada vitoriosa dos benfiquistas no torneio, para a dobradinha. O lamento ficou apenas para a Copa da Uefa. O Benfica fez uma campanha excelente, deixando pelo caminho adversários fortes como a Roma de Falcão. Naquele duelo, aliás, Sebastiano Nela deu uma cusparada em Chalana de tão irritado que estava. O craque respondeu gritando “olé” a cada novo drible que aplicava, o que tirou até Eriksson do sério. Na decisão, porém, os lisboetas deixaram o troféu escapar nos dois jogos contra o Anderlecht.

A resposta do Benfica em 1983/84 viria com novas conquistas. Sem passar por um poderoso Liverpool na Champions, os encarnados celebraram o bicampeonato português naquela temporada. Chalana, que desequilibrava mais com seus dribles e suas assistências, teve uma campanha mais goleadora e somou oito tentos na caminhada. O elenco dos benfiquistas era bastante respeitável, reunindo nomes como Manuel Bento, Diamantino, Nené e Glenn Strömberg. Não à toa, o clube seria uma das bases da seleção portuguesa na disputa da Euro 1984 – a primeira vez dos lusitanos no torneio, que encerrava um hiato de 18 anos longe das grandes competições, desde a histórica caminhada na Copa de 1966 (sem contar a Taça Independência de 1972).

Chalana teve idas e vindas na equipe de Portugal no início dos anos 1980, algo explicado também pelos problemas físicos. Chegou a ficar dois anos sem atuar pela equipe nacional e disputou apenas uma partida na campanha de classificação para a Eurocopa. Foi exatamente a decisiva, uma vitória por 1 a 0 sobre a União Soviética na qual esteve entre os destaques. Desta maneira, o Pequeno Genial chegou com moral à França para disputar a competição continental. Era titular e usava uma peculiar camisa 4, na bagunçada numeração dos portugueses. Seria uma participação bastante marcante, tanto para a Seleção das Quinas quanto para o meia cerebral.

O início da campanha de Portugal teve empates contra Alemanha Ocidental e Espanha. Chalana atormentou seus oponentes já naqueles dois compromissos. A classificação para os mata-matas viria apenas na terceira partida, com uma vitória sobre a Romênia, na qual Chalana saiu com dores logo no início. Já a noite mais lembrada daquela empreitada aconteceu na semifinal, diante da anfitriã França. Apesar da derrota por 3 a 2, os lusitanos tiveram grande atuação, chegando a forçar a prorrogação. Ficaram a um triz de um resultado memorável.

Rui Jordão anotou ambos os gols de Portugal, mas com auxílio da precisão de Chalana. O craque cruzou com perfeição de canhota para o primeiro, no tempo normal. E serviu de direita, em outro cruzamento cirúrgico após duas fintas, para a bonita batida do companheiro no segundo tento. A Seleção das Quinas, no entanto, tomaria a virada nos seis minutos finais do segundo tempo extra. O consolo para Chalana viria com um lugar na equipe ideal da Euro, bem como o prêmio de jogador português do ano, repetindo a honraria que já tinha recebido em 1976. Foi o quinto mais votado para a Bola de Ouro de 1984.

Chalana abriu portas com seu alto nível por Portugal. Atual campeão francês, sob as ordens de Aimé Jacquet, o Bordeaux contratou o camisa 10 do Benfica para a temporada 1984/85. Era o negócio mais caro feito por um clube francês até então, com um dinheiro que financiou as obras do terceiro anel do Estádio da Luz. Nos girondinos, Chalana seria companheiro de quatro titulares da França naquela semifinal da Eurocopa, podendo formar um meio-campo sensacional ao lado de Jean Tigana e Alain Giresse. Com uma grave lesão no joelho, contudo, o Pequeno Genial disputou apenas 14 partidas naquela temporada.

Chalana teria o gosto de ser campeão francês e bateu o pênalti que selou a classificação sobre o Dnipro nas quartas de final da Copa dos Campeões, numa batida famosa por enganar a todos que imaginavam um chute de esquerda – inclusive o próprio Aimé Jacquet. O problema é que Michel Platini surgiu de novo em seu caminho e o lusitano não evitou a eliminação para a Juventus na semifinal continental. Apesar disso, o reforço era uma atração, a ponto de aumentar a média de público no Estádio Chaban Delmas, graças à numerosa colônia portuguesa em território francês que ia prestigiá-lo.

A combinação do bigode espesso com a baixa estatura garantiu na França o fantástico apelido de “Chalanix”, uma clara referência a Asterix. Entretanto, as mostras de talento de Fernando Chalana pelo Bordeaux foram bastante pontuais. O craque atravessaria seu drama com as contusões e atuou em apenas duas partidas na temporada de 1985/86, quando os girondinos conquistaram a Copa da França. Também não esteve presente na Copa de 1986, a primeira de Portugal em duas décadas. Já em 1986/87, o Pequeno Genial sequer conseguiu entrar em campo. Ainda compunha o elenco de Aimé Jacquet na reconquista do Campeonato Francês, mas nada suficiente para ser citado entre as principais figuras daquele esquadrão.

A volta de Chalana para Portugal aconteceu em 1987/88. Retornava ao Benfica num momento em que o time era o atual campeão português, ainda que o Porto tenha levado seu inédito título da Champions. E o camisa 10, se já não tinha físico para ser tão preponderante, se valia de seu talento para permanecer como uma referência dos encarnados. Chalanix disputou 18 partidas naquela temporada, três delas pela Copa dos Campeões. Era um reserva útil no time que terminou como vice-campeão continental, superado pelo PSV na final. O craque participou das duas semifinais contra o Steaua Bucareste. Já em 1988/89, Chalana acumulou 14 jogos na reconquista do Campeonato Português, no sexto (e último) título de sua carreira. Pontualmente, ainda brilhava. Foi nesse período que ressurgiu na seleção portuguesa após quatro anos de ausência, em outubro de 1988. Disputou apenas mais um jogo, o último dos 27 pela equipe nacional, com dois gols anotados.

O adeus de Chalana com a camisa do Benfica aconteceu em 1989/90, num momento de atritos com Eriksson, de volta ao comando. A equipe não levantou novas taças, mas de novo deixou boa impressão na Champions. Os encarnados lamentaram mais uma derrota na final, agora para o poderoso Milan. O Pequeno Genial participou apenas dos primeiros duelos no certame, sempre saindo do banco. Já não tinha mais forças para liderar os benfiquistas rumo a novas façanhas. Despediu-se com 410 partidas pelos lisboetas, além de 64 gols e incontáveis dribles estonteantes. O veterano rumou ao Belenenses para o Campeonato Português de 1990/91, mas pouco conseguiu contribuir. O adeus aconteceu em 1991/92, pela Estrela da Amadora, na segunda divisão. Aos 33 anos, o corpo pedia um descanso, depois de tão exigido pelas contusões. Um final de casamento conturbado com uma cantora famosa também marcava certa melancolia nesse período e inclusive dificuldades financeiras.

Após a aposentadoria, Fernando Chalana não se afastou do futebol. E nem poderia. O velho craque ainda teria muito a contribuir e treinou a base do Benfica a partir dos anos 1990. Chegou a indicar um tal de Cristiano Ronaldo, benfiquista de pequeno, mas o clube não quis e ele estourou no rival Sporting. Chalanix foi bicampeão nacional com os juniores, antes de assumir interinamente os encarnados em 2003, mas sairia para uma curta passagem pelo pequeno Oriental.

Quando Chalana voltou ao Estádio da Luz, permaneceu por quase duas décadas nas comissões técnicas benfiquistas. O Pequeno Genial trabalhou como assistente de figuras célebres como Fernando Santos, Giovanni Trapattoni e Ronald Koeman, assim como teve outra oportunidade como interino. Por fim, a partir de 2009, o ex-meia voltou às categorias de base e foi por oito anos o assistente do sub-17. “Não queria treinar, mas sim ensinar”, segundo suas palavras. Pôde aprimorar uma série de revelações, com menção especial a Bernardo Silva, com quem construiu uma relação de grande carinho.

Um episódio emblemático aconteceu em 2012, quando Chalana recebeu do Benfica o Prêmio Carreira por sua história na agremiação. Ídolo do Porto e talvez o mais habilidoso sucessor do Pequeno Genial na seleção, Paulo Futre se ajoelhou diante do ídolo e agradeceu por servir de inspiração. A reverência era compartilhada por muitos outros. Tanto é que, em 2019, a torcida benfiquista levou um enorme bandeirão ao Estádio da Luz para celebrar os 60 anos de Chalanix. Uma maneira de exaltar o pequeno gigante que tanto fez a alegria das arquibancadas – parte delas construída com sua contribuição direta.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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