Nos detalhes

Não parecia um jogo entre duas seleções de ponta, mas um embate entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. O pensamento até tinha alguma razão de existir, tendo em vista a própria “campanha” feita para convocar os espectadores à partida. Na imprensa portuguesa, isso não foi diferente. Ao longo da semana (e, à bem da verdade, de forma costumeira), declarações favoráveis a Ronaldo, vindas de companheiros de equipe ou ex-técnicos (essencialmente o também português José Mourinho), e outras que, no máximo, igualavam os dois jogadores (geralmente proferidas por atletas do Barcelona) ganhavam constante destaque.
Faz sentido: CR7 é ídolo nacional, uma referência de Portugal fora do país, motivo de orgulho da nação, pelo sucesso com a bola no pé. O jogo com a Argentina, portanto, era ideal para que esse orgulho fosse exaltado, com um triunfo ante a seleção daquele que é o maior “rival” de Ronaldo. É, mas não foi bem assim. O atacante fez sua parte. Correu, fez seu gol e enquanto esteve em campo, manteve a equipe das Quinas em equilíbrio com a Albiceleste. Até melhor que os rivais sul-americanos. No entanto, aos 15 minutos do segundo tempo, foi substituído, tal qual Nani — melhor homem português no jogo. E a casa tuga caiu.
O técnico português não promoveu grandes mudanças na seleção, em comparação à goleada sobre a Espanha. João Pereira, titular ante a Fúria, seguiu com a confiança de Paulo Bento e começou atuando pela direita, mandando Bosingwa para a reserva. Na esquerda, Fábio Coentrão, que esteve de fora do último jogo tuga por lesão, retornou à equipe. Na zaga, a ausência de Ricardo Carvalho, indisposto, levou Rolando ao onze, ao lado de Bruno Alves, revivendo a dupla campeã no Porto. De resto, a diferença foi apenas a volta de Hugo Almeida à função de “9”, em substituição a Hélder Postiga, goleador ante os espanhois.
Em tese, poderia até se fazer algumas considerações mais críticas. Bosingwa tem mais qualidade que Pereira na contenção e no próprio avanço ao ataque, deixando menos espaço que o atleta do Sporting. Pelo meio, em que pese a atuação de gala de Carlos Martins contra a Espanha, o armador do Benfica vem perdendo espaço no time encarnado, e está longe do ritmo de quando deu trabalho à Fúria. Uma entrada de Quaresma, para atuar aberto com Nani, e Ronaldo à frente com Hugo Almeida, poderia ser uma opção interessante, mas o comandante preferiu não inovar e manter o padrão de jogo que vem estabelecendo desde que chegou.
Não se esperava uma atuação como aquela presenciada contra a Espanha, que fora, realmente, acima do normal da seleção. Mas aguardava-se uma apresentação que mostrasse o Portugal corajoso, que vem se caracterizando desde que Paulo Bento assumiu a equipe. No papel, o time era realmente ofensivo, visto que o “médio defensivo” do onze tuga era Raul Meireles, que é, para falar o mínimo, um segundo volante. Em campo, porém, a equipe começou pressionada e com dificuldades. Os avanços de Ángel Di Maria e principalmente Messi davam trabalho a Meireles (que tentava ajudar a defesa) e aos laterais Pereira e Coentrão.
Com os três ocupados atrás, a Argentina dominou as ações e não demorou a inaugurar o placar, em jogada nas costas de João Pereira, tramada de Messi para Di Maria. O gol, porém, não desanimou os portugueses, que, aos poucos, começaram a ganhar espaço, em especial com Nani. O jogador do Manchester United foi, mais uma vez, nome imprescindível à equipe das Quinas — e o melhor homem tuga em campo. Infernizou Marcos Rojo e organizou o gol de Ronaldo, que se não fazia um jogo tecnicamente brilhante, movimentava-se bem, mas encontrava dificuldades em receber a bola nas boas condições vistas contra a Espanha.
O rápido empate deu moral a Portugal, que com Nani e Ronaldo — que seguia sem ser “mágico”, mas, aproveitando-se do recuo argentino, começava a receber o jogo —, assumiu às ações do primeiro tempo e nos primeiros minutos da etapa final. Pesou, porém, a noite ruim de Hugo Almeida. O atacante do Besiktas até apareceu para concluir, mas perdeu pelo menos duas boas chances de gol, confirmando sua irregularidade como homem de área. Mais móvel, Postiga talvez fosse uma opção melhor para o ágil ataque português, inclusive para após o intervalo. Paulo Bento, porém, segurou o grosso das mudanças para os 15 da segunda etapa.
As mudanças, porém, derrubaram o ímpeto português. Ronaldo, que era uma das razões para o recuo argentino, e principalmente Nani, eram as cabeças do time. Quaresma foi a campo com Danny, mas a dupla não acrescentou muita coisa. O primeiro foi mal. O segundo, ainda ganha ritmo (está em pré-temporada no Zenit). Pior: a Albiceleste ganhou confiança, enquanto o time de Paulo Bento perdeu controle das ações e se viu em dificuldade de armar, já que os meias João Moutinho e Carlos Martins vinham discretos. Basta dizer que, daí até o fim do jogo, o grande lance tuga foi um chute de Martins, a dez minutos do fim.
Com Portugal confuso, sem uma referência técnica que pudesse chamar o jogo e um homem de frente (Postiga, que substituíra Hugo Almeida na leva de Ronaldo e Nani) que embora buscasse a bola, não a encontrava, a Argentina se aproveitou, e Messi fez o que sabe. O pênalti bobo de Coentrão em Juan Martinez, convertido por La Pulga, comprometeu um resultado que parecia mais honesto do que a derrota. Sim, apesar de ter atuado quase 60 minutos em melhor nível que o rival, o empate seria um placar justo à partida, visto que nos 30 minutos finais, a equipe das Quinas se enrolou e foi dominada pela Albiceleste.
Já é hora de cornetar Paulo Bento? Não. Portugal esteve melhor que a Argentina durante boa parte do confronto e, além disso, é sempre necessário ponderar: tratava-se, apesar de toda aura criada, de um amistoso, em que substituições variadas não são raras — muito embora fosse bastante possível (e justo) que Nani e Ronaldo permanecessem mais tempo em campo, até para testá-los com Quaresma em campo. Todavia, já era a hora de Bosingwa voltar à titularidade, bem como se observar, para convocações futuras, uma nova opção a Carlos Martins para o onze, caso este siga perdendo espaço no Benfica.
Apesar da derrota, a primeira desde que Paulo Bento assumiu e mudou a cara da seleção portuguesa, não há razão de pânico. O resultado veio mais por questões pontuais, de jogo (leia-se substituições e Messi) do que por limitações técnicas. O que não deixa de ser uma mensagem positiva, visto que o time voltou a se apresentar de igual para igual ante potências internacionais (Espanha e Argentina), como não fazia há muito tempo. Um cuidado, agora, dirá respeito à postura da equipe, que claramente recuou, sob o impacto das saídas de Nani e Ronaldo, e se preocupou mais em defender do que atacar. Experiências, porém, que só derrotas como essas permitem observar. Fica o consolo.
Adeus, Levezinho
Ele não esteve em campo por Portugal — e não deve voltar tão cedo —, mas Liedson, desde já, faz falta. Fez falta porque seria o teórico titular na vaga de Hugo Almeida (claro, em um cenário utópico, já que dificilmente seria mantido no grupo, devido à sua idade). E fará muita falta ao Sporting. Bem disse o narrador da tv portuguesa, ao término do empate entre Sporting e Naval, de que “agora, as coisas serão muito mais complicadas” aos Leões sem o Levezinho. Mesmo não estando em sua melhor temporada, a presença de área de Liedson era um dos (poucos) trunfos que o alviverde lisboeta possuía.
A despedida poderia ser melhor. O Sporting teve mais uma atuação pífia em casa. Viu-se pressionado pelo então lanterna do campeonato. Rui Patrício falhou feio no gol de Godemeche, um dos melhores em campo. O meio-campo encontrava dificuldades em armar. O próprio gol salvador de Liedson saiu em um bate-rebate, que a bola sobrou nos pés do atacante, que invadiu a área e tocou na saída de Salin. Tento esse que levou o Alvalade e Liedson às lágrimas. Nos últimos sete anos e meio, o Sporting viveu alguns de seus momentos mais tensos. Nesse tempo, o Levezinho foi justamente quem deu as poucas razões, à torcida, para sorrir.



