Não deu pro cheiro

Portugal sofreu antecipadamente à toa. Em duas partidas contra a Bósnia-Herzegovina pela repescagem das eliminatórias européias, os Tugas simplesmente não tiveram adversário. As duas vitórias por um magro 1 a 0, tanto no jogo de ida como no jogo de volta, não traduzem com fidelidade o que foi o domínio luso nos 180 minutos de disputa. E, contrariando as apostas e prognósticos, o jogo disputado na última quarta-feira (18 de novembro) em Zenica, na Bósnia, foi muito mais fácil do que o disputado em Lisboa no último sábado (14 de novembro).
Cansei de ler comentários aqui no site, escritos por leitores nos posts do blogue da Trivela, de que a Bósnia tinha um ataque arrasador e mortal, capaz de aterrorizar qualquer seleção do planeta – e que a vaga antecipada não tinha sido alcançada porque a superpoderosa Espanha estava na mesma chave. Pois aqui mesmo, neste espaço, eu havia ponderado que o escrete bósnio era muito frágil defensivamente e que tinha um estilo de jogo bastante acessível para a Seleção Portuguesa. Além disso, Portugal tinha jogadores muito mais experientes. Recebi alguns comentários discordantes. Mas não deu outra. O futebol bósnio não deu pro cheiro – e o ataque arrasador passou em branco. E se Portugal tivesse Cristiano Ronaldo em campo e um treinador de verdade no banco de reservas, teríamos duas goleadas retumbantes a favor dos Tugas.
Já comento as qualidades e deficiências de Carlos Queiroz, técnico de Portugal. Antes ficam algumas palavras para a organização do futebol na Bósnia: os jogadores portugueses foram insultados e receberam cusparadas na chegada ao aeroporto local – com a complacência do policiamento. Receberam pressão nos dois dias em que permaneceram em solo bósnio. Durante o jogo, a equipe de arbitragem foi atingida por objetos atirados ao campo. Era a seleção desse país que grande parte do público brasileiro queria ver no Mundial de 2010? Bem, quem se acha entendedor de futebol internacional sempre acaba encontrando algum futebol exótico para torcer em momentos de Copa do Mundo. É provável que esses mesmos torçam agora para a Eslovênia a partir de hoje.
Um problema chamado Carlos Queiroz
Alguém pode dizer que a Bósnia chutou três bolas na trave (em dois ataques) no jogo disputado em Lisboa. Respondo que Portugal perdeu três chances claras de gol nessa mesma partida e que dominou as ações com relativa tranqüilidade. O leve sufoco que o time sofreu se deveu às três substituições infelizes feitas por Queiroz na segunda metade do segundo tempo (entradas de Coentrão, Tiago e Hugo Almeida para as saídas de Simão, Deco e Nani). Na partida disputada na Bósnia, a equipe da casa não levou perigo em nenhum momento. Portugal, ao contrário, teve pelo menos mais três ou quatro chances claras de gol.
O problema de Queiroz está em insistir com fórmulas ineficazes na montagem do time titular. O lateral-direito Paulo Ferreira teria dificuldades para jogar na segunda divisão do Brasil – o mesmo acontecendo com o lateral-esquerdo Duda. Pepe – o melhor em campo no jogo de Lisboa – não atua como volante no Real Madrid, e segue nessa posição no selecionado luso de forma improvisada. O que absolve Pepe dessa escolha é a incrível garra e força de vontade que o jogador demonstra em campo – por vezes tudo de forma ataboalhada. No meio-de-campo, Deco tem atuado de forma desigual e ressente-se de alguém mais voluntarioso ao seu lado (algo que era desempenhado por Maniche e Figo até o Mundial de 2006). No ataque, bem, não dá para analisar o que não existe – em que pese o fulgor de alguns lances do ainda tímido Liedson.
O problema é que, depois dessa classificação para a Copa – algo impensável meses atrás – fica difícil Carlos Queiroz não permanecer no comando da equipe até a África do Sul. Já defendi a saída dele do cargo por duas vezes nesta coluna, com textos cujos títulos eram “Fora, Queiroz” e “Fora, Queiroz – II”. Agora não tem mais jeito, e o professor fica com a seleção até 2010. Sejamos, entretanto, justos: Queiroz acertou o miolo da zaga portuguesa, com o quase sempre imprevisível Bruno Alves e o quase sempre correto Ricardo Carvalho. No gol, a escolha do quase sempre discreto Eduardo também se mostrou razo[avel. Esse bom arranjo defensivo explica por que Portugal não sofreu gols nos últimos jogos das eliminatórias européias. E, na repescagem, foi a única equipe que venceu os dois confrontos – além de ser a única – ao lado da Grécia – que não levou gols.
O que fazer a partir de agora?
Com a classificação para a Copa de 2010 garantida, Portugal deveria preocupar-se agora em: 1) montar uma equipe competitiva para o Mundial; 2) começar a pensar no grupo que irá disputar as eliminatórias para a Copa de 2014, no Brasil. Seria lamentável os Tugas ficarem de fora do torneio a ser realizado em sua ex-colônia, nação com a qual mantêm tantos laços e onde contam com um número significativo de imigrantes e descendentes. Hoje, Portugal não tem um time para projetar para 2014, quando muitos dos atuais titulares já estarão envelhecidos. Portanto, é preciso pensar numa renovação e numa formação de jovens desde já.
Para esse trabalho junto à base, penso que Carlos Queiroz seria a pessoa ideal. Ele estaria mais à vontade nessa função. Para o cargo de treinador principal, seria melhor alguém com alma vencedora – como foi o caso de Felipão nos seis anos em que ocupou o comando da seleção. A boa fase do futebol português deve ter continuidade: os Tugas vão para o seu terceiro mundial consecutivo, depois de disputarem quatro Eurocopas seguidas. Na Europa, só outras quatro seleções conseguiram isso: Itália, Espanha, Alemanha e França. Prognósticos para a Copa? Por enquanto, eles são pouco animadores. Portugal não será cabeça-de-chave e, à exceção da África do Sul, terá que enfrentar algum peso-pesado já na primeira fase. Vejamos o que será feito até lá.
Golo de Letra
Pátria
Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.
Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a bicar estrelas verdadeiras…
Poema de Miguel Torga.



