Na beira do precipício

Apesar da derrota para o Benfica no final de semana, o Beira-Mar faz uma campanha acima das expectativas. É apenas o décimo colocado, com 15 pontos, é verdade, mas já se vê relativamente tranquilo naquela que é sua principal missão em 2010/11: manter-se na Liga Zon Sagres, já que está 7 diante do Portimonense, primeiro da zona de rebaixamento. Vem também de alguns bons jogos no campeonato nacional, e tem mostrado bons valores, como o goleiro Rui Rego, o zagueiro Yohan, o meia Renan e o atacante Wilson Eduardo (emprestado pelo Sporting).
O esforço dos aveirenses, porém, serve mais para tentar camuflar a grave crise financeira que vive o time aurinegro. Especula-se que as dívidas estejam em torno de 2 milhões de euros (algo próximo a R$ 4,5 milhões). Pode, à primeira vista, parece algo plenamente administrável. No entanto, não nos esqueçamos que há um abismo entre as condições de clubes como os três grandes, ou mesmo times como Vitória de Guimarães, Braga, Nacional ou Marítimo, para um Beira-Mar ou um Olhanense, cujos salários médio giram por volta de 8 mil euros por jogador. Ou até menos.
A coisa está tão feia que a agremiação de Aveiro corre risco até mesmo de não encerrar a época, em virtude das deficiências de caixa, e está atualmente sem presidente, desde que Mario Costa, eleito para comandar o clube em junho, pediu demissão em outubro, pedindo inclusive que fossem convocadas novas eleições, agendadas para este sábado. A saída de Costa foi provocada pela pressão da dificuldade de negociação da penhora da bilheteria dos jogos da equipe em casa para pagamento de parte das várias dívidas do clube. E pagar o time é um desafio cada vez mais difícil.
Os responsáveis pela cobrança são os antigos dirigentes Artur Filipe (ex-presidente) e José Cachide. A alegação é de que colocaram dinheiro no Beira-Mar quando assumiram, em 2005 (mandato seguiu até 2008) para evitar a falência da equipe, e aguardam o ressarcimento ao qual “teriam direito”. O caso começou a ganhar destaque em março do ano passado, e em agosto, foi efetivada a penhora, com a alegação de que a diretoria, comandada por Costa, não estava colaborando para que a dívida fosse abatida. E além da renda dos jogos, também foram penhorados o ginásio e a antiga sede.
Não é preciso ir muito longe para entender que os aveirenses ficaram praticamente sem nenhuma fonte de renda para os próprios cofres. Nem mesmo para organizar as partidas em casa. Para se ter uma idéia, o jogo do final de semana contra o Benfica saiu em torno de 40 mil euros (quase R$ 90 mil) ao bolso beiramarense, à ponto de o presidente “temporário”, Antônio Regala, colocar em dúvida a própria realização da partida. Sem contar, claro, que o clube já falhou em um mês com o pagamento de salários e das contribuições à Segurança Social de Portugal.
Como desgraça pouca é bobagem, a partida contra as Águias, embora tenha se realizado, rendeu menos do que o esperado. Aguardava-se um público de 25 mil pessoas, mas somente cerca de 15.500 estiveram presentes no estádio de Aveiro. Os 230 mil euros da bilheteria do jogo foram, naturalmente, para compensação da penhora. No final de novembro, diretoria e credores até chegaram a um acordo para renegociação das dívidas – o que permitiu a organização do jogo ante os Encarnados. No entanto, Regala foi claro: só ganhando na loteria o clube conseguirá pagar algo a mais nesta temporada.
E em meio ao assustador cenário vivido pelo Beira-Mar, dirigentes antigos e atuais trocam farpas via imprensa com frequência. Os situacionistas acusam Filipe (que cobra cerca de 150 mil euros) e Cachilde (cuja cobrança, conforme a imprensa portuguesa, é de quase 1 milhão de euros) de estarem agindo de má fé e de serem mentirosos. Os credores, por sua vez, insistem que “não são inimigos do Beira-Mar” e que só querem o ressarcimento por suas aplicações. Em suas totais e devidas proporções, uma briga semelhante a que passa hoje o Santos, com Marcelo Teixeira e Luis Alvaro Ribeiro.
A torcida ao menos tem tentado fazer sua parte. Em que pese o conhecido baixo público dos estádios portugueses, o Beira-Mar desponta como o de sexta melhor média na temporada, com 38.265 espectadores tendo frequentado o estádio de Aveiro nos seis jogos em que foi mandante – uma média de pouco mais de 6 mil pessoas/jogo. Sim, é baixo, especialmente se comparado ao quinto (Braga), que tem mandado ao AXA mais de 11 mil torcedores em média por partida. Mas deve-se considerar que os aurinegros estão a frente de rivais tradicionais, como Acadêmica ou Vitória de Setúbal.
O pesadelo administrativo que vive o Beira-Mar é a bola da vez no tocante às equipes em grave crise financeira. Já no ano passado, foi a Naval ficou em situação delicada e chegou a ser ameaçada de rebaixamento caso não regularizasse os salários. E não é preciso nem apontar aqui os exemplos tradicionais, como os campeões Boavista e Belenenses. Realidades que necessitam com urgência de maior atenção por parte da própria Liga, haja vista que a sequência de casos como os de figueirenses e aurinegros emperra qualquer tentativa de exposição do produto futebol oferecido pelo Campeonato Português para o exterior.



