Portugal

Muito barulho por nada

O leitor já há de saber que, ao longo dos últimos dias, estabeleceu-se uma obtusa polêmica entre a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e o Real Madrid – tudo por causa da possibilidade de Cristiano Ronaldo ser utilizado nas duas partidas contra a Bósnia-Herzegovina, pela repescagem européia para a Copa de 2010. O jogador havia se lesionado no tornozelo direito no último dia 30 de setembro, numa partida do Real com o Olympique de Marselha, pela Liga dos Campeões. Entrou em campo dez dias depois pela seleção Portuguesa, para enfrentar a Hungria, em partida das eliminatórias para o Mundial da África do Sul. Só que atuou pouco mais de 20 minutos, pois voltou a sentir a lesão.

De lá para cá, passaram-se 30 dias, e Ronaldo ainda não está apto para voltar a jogar. Pior do que isso, foi o comunicado divulgado pelo seu clube na semana passada, informando que a lesão do jogador não havia regredido em nada. A notícia foi recebida com certa incredulidade em Portugal, em virtude das suspeitas de que o Real Madrid estaria “escondendo” a verdadeira situação clínica do jogador, de modo a não permitir que ele atuasse pela seleção lusa. A suspeita não era tão descabida assim: o Real enfrenta o arquirrival Barcelona no final deste mês, e Ronaldo custou o que custou para estar apto a atuar pelo clube.

A desavença acabou provocando uma situação incomum: a FPF desconfiando das declarações do Real Madrid sobre o jogador, e o Real Madrid desconfiando de que seu jogador não seria bem tratado pela seleção. Cabe, entretanto, a pergunta: por que Ronaldo não foi ouvido para saber se ele mesmo se sentia à vontade para atuar? E se o atleta foi ouvido, por que suas declarações não foram amplamente divulgadas junto à opinião pública, a fim de se aclarar a questão de vez?

A conclusão foi um tanto quanto patética: o técnico Carlos Queiroz incluiu Ronaldo no elenco convocado para as partidas contra a Bósnia – e o Real reiterava que o jogador estava incapacitado. Mais do que isso: Ronaldo deslocou-se de Madrid a Lisboa (por sorte, apenas 1 hora de vôo), para ser examinado pela equipe médica da FPF. O exame foi simples e conclusivo: o jogador, de fato, não está totalmente curado. Retornou a Madrid no mesmo dia – quando tudo poderia ter sido evitado por meio de um diálogo franco e direto.

O que explica a convocação de Ronaldo?

Num primeiro momento, imaginei que a convocação de Ronaldo por Carlos Queiroz fosse uma grande jogada estratégica, a fim de desviar o foco das atenções de sua equipe e concentrar tudo nos ombros do CR-9. Queiroz chegou até a aventar a possibilidade de que Ronaldo poderia ser utilizado no jogo de volta com os bósnios. Mantendo as luzes sobre o atual melhor do mundo, seria mais fácil ter tranqüilidade para trabalhar com o resto do elenco.

No entanto, essa possível estratégia deixou de fazer sentido a partir do momento em que o jogador foi dispensado pela equipe médica da FPF – um dia depois de sua convocação. Resta saber se esse corte foi bem assimilado pelos jogadores lusos. E resta saber qual o tamanho da falta que Cristiano Ronaldo fará nessas duas partidas da repescagem da Copa. É óbvio que, mesmo recuperado da lesão, ele estaria fora de sua melhor forma física. Mesmo assim, seu talento sempre poderia fazer a diferença – para não dizer do peso simbólico que sua presença sempre provoca diante dos adversários.

Cabe agora à seleção lusa equacionar a ausência de sua maior estrela. Sob o comando de Carlos Queiroz, Cristiano Ronaldo anotou apenas um gol – e de pênalti, num amistoso, com a Finlândia. Pelas eliminatórias, de um total de 10 partidas realizadas por Portugal, Ronaldo esteve presente em 7, nas quais foram anotados apenas 7 gols. Só que, nos três jogos em que ele não pôde jogar, os Tugas anotaram 10 gols. Não restam dúvidas de que, com Carlos Queiroz, Ronaldo não encontrou seu melhor futebol na seleção. Na próxima semana, veremos se a seleção encontrou seu melhor futebol sem a presença de seu mais midiático talento.

Golo de Letra

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que e bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!

(Poema “Nevoeiro”, de Fernando Pessoa, na obra Mensagem)

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