Momento da consagração

Um ponto. É o que o Benfica precisa – e terá dois jogos para isso – para garantir o que, desde o começo da temporada, parecia premeditado. Mesmo que o resultado não venha contra o Porto, no clássico de domingo, é difícil crer que os Encarnados não pontuarão em casa contra o Rio Ave, que, além de bem mais limitado tecnicamente, não tem mais o que fazer no campeonato. O título, por sua vez, vem para marcar o “renascimento” do mais popular clube de Portugal, em uma campanha extremamente regular, e que, mesmo quando o time figurou no segundo lugar, já aparentava ser questão de tempo o “bote” rumo à liderança.
Mas por que se fala aqui num ressurgimento? De fato, o Benfica nunca deixou de disputar os títulos nacionais. No entanto, investimentos excessivos e longe das necessidades da equipe ou da comissão técnica, a busca quase que única por treinadores sem experiência na liga nacional, mas cuja vinda trazia algum impacto, e a enorme pressão da torcida, que, mais do que ver o time ganhar, queria que a vitória chegasse com imponência, mostraram-se empecilhos duros a serem batidos pelos vermelhos. Mesmo na conquista de 2004/05, a primeira depois de mais de uma década, o time campeão não possuía a badalação e a segurança do elenco atual.
Muitas foram as mudanças da última temporada. A primeira medida foi trazer Jorge Jesus, excelente técnico que então comandava o Braga, e levara os bracarenses à conquista da Taça Intertoto. Isso porque, duas temporadas antes, levou o Belenenses (!) à Copa da UEFA. Mesmo no comando de um time médio, conseguiu instituir uma mentalidade vencedora, de que era possível dar passos mais alongados se houvesse vontade para tal. Em suas devidas proporções, um pensamento semelhante ao que Pinto da Costa desenvolveu no Porto nos últimos 27 anos, e que, há pelo menos 16 anos, estava em falta na Luz. E Jesus era “o cara” para resgatar isso.
Novamente, é verdade, o Benfica voltou a gastar muito na janela de transferências. Mas, se em temporadas anteriores, torrou dinheiro na aquisição de nomes questionáveis e na má obtenção de atletas emprestados, desta vez, os euros foram muito mais bem aplicados. As vindas de Javi Garcia, Javier Saviola e Ramires foram os exemplos mais claros de que os Encarnados. Além disso, conseguiu manter nomes como Oscar Cardozo, que mesmo sem ser tecnicamente primoroso, é goleador nato, e principalmente Angel Di Maria, apagado na última temporada, mas que seria fulcral na atual época, com jogadas e passes maravilhosos.
A preparação também foi muito acima das expectativas. Jesus e o Benfica disputaram diversos torneios de pré-temporada e surpreenderam em muitos, conquistando títulos. A mentalidade de que mesmo campeonato de bolinha de gude precisava ser vencido contagiou o elenco e a torcida, que já no começo da temporada, demonstrava uma confiança que há muito não pairava na parte vermelha de Lisboa. E os resultados foram fazendo jus às expectativas. Goleadas acachapantes, com os 8 a 1 no Vitória de Setúbal e 6 a 1 no Nacional, indicavam que o Benfica que estava em campo não era o dos últimos 16 anos.
Em campo, o esquema bastante ofensivo não só surpreendeu como ganhou até destaque em sites internacionais. Além dos dois atacantes (Cardozo e Saviola), quando se mandava ao ataque, também avançavam os meias Ramires, Carlos Martins e Di Maria. Além dos laterais Maxi Pereira e Cesar Peixoto (ou Fábio Coentrão). Uma verdadeira blitz, que até o momento já fez 75 gols só no campeonato nacional e 110 na temporada (em jogos oficiais). A segurança na frente também se deveu à surpreendente evolução da dupla Luisão-David Luiz no desenrolar da temporada. Em especial do segundo, que é sondado pelo Real Madrid.
A regularidade da equipe só não impressionou mais porque encontrou um rival surpreendentemente encardido pelo caminho: o Braga, time que mais tempo liderou o campeonato (19 rodadas), e que por muito tempo, conseguiu segurar o Benfica na vice-liderança. Curiosamente, a impressão era justamente a contrária. A confiança passada pelos Encarnados inviabilizava qualquer possibilidade de se pensar em um Braga campeão no fim da temporada, ou mesmo de que o Porto iria arrancar, como sempre, rumo ao título. E no fundo, a tal expectativa procedeu: da 20ª rodada em diante, ninguém mais parou o Benfica.
Mas um grande diferencial desse atual time foi também o desempenho europeu, mesmo esse não sendo a prioridade benfiquista. Há tempos uma equipe portuguesa não entrava numa competição como uma das favoritas, como se deu com o Benfica. O time da Luz entrou na fase final como um dos principais candidatos ao título, ao lado de Liverpool, Juventus e Atlético de Madrid. Mesmo a goleada sofrida para os Reds, que culminou na eliminação, não manchou a caminhada no Velho Continente. Até porque, em vários momentos, viu-se que, de fato, a cabeça encarnada estava voltada à recuperação do topo nacional.
O desempenho da atual temporada enche o torcedor benfiquista de esperança para a retomada de uma hegemonia em Portugal, já a partir desta época. Com o Porto fora da Liga dos Campeões (ao que tudo indica), a tendência é que os Dragões formem um elenco mais modesto para 2010/11. O Sporting, por sua vez, precisa primeiro se arrumar internamente para depois dar saltos mais condizentes com sua tradição. Ou seja: cenário propício para que, mantido o bom trabalho — e, claro, balanceando o caixa —, o país fique “no vermelho”, como muito tempo ficou, quase meio século atrás.
Respeito é bom
A temporada benfiquista, porém, não pode nem deve apagar o que fez o Braga. O time amarelou? Não. A campanha do Benfica é que foi quase perfeita. Dotado de mais recursos, mais mídia e de um elenco tecnicamente superior, o natural seria mesmo que os Encarnados, mais ou menos hora, iriam tomar a liderança. Exceto na partida contra o Porto, em que claramente os bracarenses recuaram (e foram goleados por isso), os minhotos não baixaram a guarda, e, diferentemente do que muitos imaginavam, o Braga brigou (e ainda briga) pelo título. Aliás, não só segue na disputa como praticamente desbancou o Porto da próxima LC.
Pensar na conquista inédita é difícil. Mesmo que os Dragões superem o Benfica, os arsenalistas também precisam vencer o Paços de Ferreira, em casa, para levar a decisão ao último jogo —que é uma verdadeira barbada para os lisboetas. Até por isso, o grande foco agora é assegurar a vaga na Liga dos Campeões, algo que pode ser garantido com uma vitória simples sobre os Castores. Mesmo que não venha o título, o vice-campeonato deve ser muito comemorado no Minho. Sinal, inclusive, de um próprio sinal de evolução do futebol português. Prova de que um trabalho planejado, mesmo com parcos recursos, dificilmente não se destaca,



