Missão cumprida

Esta coluna, em duas oportunidades, falou mais destacadamente sobre a campanha do Braga. Na primeira vez – aliás, no texto de estreia deste escriba -, elogiou-se o bom momento bracarense, mas alertou-se para a necessidade de se manter a regularidade contra os principais rivais (Porto e Benfica) no returno, e de se atentar a prováveis empecilhos, como vendas, lesões e suspensões. Circunstâncias, como se sabe, que se mostraram presentes.
Em outra ocasião, na semana que antecedeu o jogo contra os Encarnados, discutiu-se a queda de rendimento da equipe, especialmente após a surra sofrida para o Dragão, fora de casa, em que os bracarenses mudaram totalmente sua forma de jogar, atuando quase que totalmente atrás da linha de meio de campo, no aguardo do ataque portista, e foram punidos não somente com a derrota por 5 a 1, mas a perda da liderança, até hoje nas mãos dos vermelhos de Lisboa.
Colocava-se aí que, para seguir no sonho de chegar ao inédito título, o Braga precisaria mudar a postura demonstrada contra o Porto e adequar-se à infelicidade de perder jogadores importantes, como (e principalmente) Vandinho, sem que caísse a qualidade. Pois bem. Mais uma vez, o assunto aqui será o atual vice-líder da Sagres, mas não para se dizer o que será necessário ou não para se chegar ao título. Pelo contrário. O campeonato ainda tem mais uma rodada, o título é matematicamente possível, mas, no fundo, a missão bracarense foi cumprida.
Na verdade, os arsenalistas já realizaram o mínimo a que se propuseram, em virtude da campanha realizada, e foram até além. Não foram uma brisa passageira, como muitos caracterizavam. Encararam o Benfica de igual para igual na Luz, assumiram de vez a condição de candidatos ao título – o que mexeu positivamente com o brio do próprio time e dos adeptos -, voltaram a mostrar o bom futebol do início da temporada e motivaram a vibrante torcida bracarense a se locomover por todo o país, quase sempre dividindo os estádios com os rivais.
A mobilização, em todas as frentes, trouxe resultado. Na pior das hipóteses, o time do Minho terá “somente” uma vaga na Liga dos Campeões, desbancando Porto e Sporting. E o principal: sem nunca dar a entender que a equipe iria amarela e ceder a vaga aos portistas, rivais mais próximos. O hino da Champions, tocado logo após a vitória da equipe sobre o Paços de Ferreira, em casa, quando o passaporte a LC foi assegurado, emocionou torcedores e jogadores, mas principalmente ao presidente Antônio Salvador, que não conteve as lágrimas.
Panorama
Matematicamente, o título é viável, claro. Com 70 pontos, o time precisa vencer o Nacional, fora de casa, e torcer para que o Benfica perca, em Lisboa, para o Rio Ave. Como se vê, portanto, é possível, mas muito improvável. Nada, porém, que possa impedir os arsenalistas de serem amplamente aplaudidos pelo inesperado e incrível desempenho. Especialmente ao se recordar que a temporada começou da pior forma possível, com a perda de Jorge Jesus e Cesar Peixoto ao Benfica, e a rápida eliminação na Liga Europa para o Elfsborg.
Os números bracarenses impressionam, especialmente por este não fazer parte do hall de grandes do país. Em 29 jogos, foram 19 na liderança e 10 no segundo lugar – sim, a pior colocação dos minhotos no ano foi a vice-liderança. A defesa foi um dos pontos fortes, ao lado do criativo meio-campo, com somente 19 tentos sofridos – o mesmo número do Benfica. Só o ataque não teve grande destaque, com 47 gols feitos e uma média de apenas 1,62 bolas na rede/jogo.
Os números são compreensíveis. O peruano Alberto Rodriguez e o brasileiro Moisés, um dos melhores do campeonato, formaram uma bela e segura dupla na zaga. Destaque também para o lateral esquerdo Evaldo, que chegou até a ser sondado para defender a seleção portuguesa, e, naturalmente, ao goleiro Eduardo, titular de Carlos Queiroz. Andres Madrid conseguiu, enfim, ser o substituto de Vandinho, e a queda de rendimento de Hugo Viana também foi suprida pelo bom retorno de Luís Aguiar.
À frente, porém, a equipe encontrou problemas, mais especificamente pela falta de um bom homem de área. Afinal, jogadores como o próprio Aguiar, Hugo Viana, Paulo César e o excelente Alan, facilmente um dos destaques da Liga Sagres, não falharam em armar lances para os centroavantes. Renteria e Meyong, porém, são inconstantes, e da mesma forma que marcaram gols decisivos (especialmente o camaronês), falharam diversas vezes em outros momentos cruciais.
Outra característica que se mostrou importante no time bracarense foi a valorização à experiência de campo. A aposta em nomes com cancha em Portugal, como os supracitados Alan, Meyong, Vandinho, além do próprio Hugo Viana, jogadores com rodagem e as “manhas” de como jogar na liga lusitana, foi essencial para auxiliar o trabalho do novato Domingos Paciência, treinador com grande potencial, é verdade, mas que ainda precisa amadurecer decisões (haja vista a retranca fracassada contra os portistas) e ser mais corajoso.
Há quem possa dizer que, mesmo assim, o Braga “amarelou” ao perder para o Benfica na Luz e ver o rival direto ao caneco abrir seis pontos na frente. Mas há aí um equívoco. Primeiro que, se houve algum princípio de refugo, este se deu na goleada sofrida para o Porto, próxima ao empate com o Vitória de Setúbal em 0 a 0, há dez rodadas atrás. Contra os Encarnados, pelo contrário: o time jogou precavido, mas não se limitou à defesa e sofreu um gol fruto de uma confusão na grande área. Além disso, tal pensamento leva a crer que as Águias, com o grande time que montaram, só ganharam pelo erro arsenalista.
Com “grandes poderes”…
… surgem grandes responsabilidades. O caminho para um time se firmar como grande, especialmente em um país como Portugal, onde a diferença entre os três gigantes e os demais é astronômica, sob as óticas estruturais, financeiras e políticas, é difícil. Outros já tentaram, e dois deles (Belenenses e Boavista) sem equilíbrio, afundaram-se na ânsia pela grandeza. Atualmente bem organizado e estável economicamente, o Braga soma trunfos importantes para quem quer dar saltos maiores em casa, mas terá isso realmente testado na próxima temporada.
Independente do que ocorrer no domingo, os arsenalistas sofrerão grandes “ataques” de clubes do país e do exterior a seus destaques. Alan, Evaldo, Moisés e Eduardo estão na mira da “tríade”, enquanto Meyong é cotado para o futebol cipriota. A permanência de Paciência também é um mistério. E tendo em vista a “falta de banco” presenciada em momentos como no intervalo entre a saída de Vandinho (suspenso) e a afirmação de Madrid, é fato que, além de tentar manter o máximo de atletas para a LC e a longa temporada 2010/11, o Braga precisará ir ao mercado em busca de reforços e mesmo substitutos.
Nessa ida às compras, a diretoria deverá, ao mesmo tempo, manter o caixa relativamente em ordem, aproveitar-se bem dos ganhos com a Liga dos Campeões, e formar um time comedido, mas capaz de manter a equipe brigando pelas primeiras posições. Um desafio. Naturalmente, deve-se pensar sempre em ir além do que já se conseguiu. No entanto, a enorme ascensão do clube desde o fim dos anos 90, com participações até constantes em torneios europeus e até uma conquista internacional (Taça Intertoto), deu-se com paciência e equilíbrio. Algo que, nesse momento próximo da bonança, não pode faltar.



