Memórias de 2008

Não é possível dizer que o Sporting está em crise, tal como é exagero dizer que o Benfica está em total desespero. Os Leões, apesar do futebol fraco até o momento, estão na parte de cima da tabela e embora o Porto já tenha dado uma leve disparada, não se pode dizer que está muito longe. Sem contar que não há muito tempo, conquistou uma classificação heróica na Liga Europa. As Águias, por sua vez, fazem péssimo campeonato até o momento, mas vêm de boa vitória em casa na Liga dos Campeões sobre o Hapoel Tel-Aviv e tecnicamente contam com um time superior ao arquirrival.
Ainda assim, é certo que é o derby de domingo será disputado em um cenário atípico no clássico: com as duas equipes em momentos não lá muito atraentes para os torcedores. Cenário raro em um clássico em que, geralmente, se um está por cima, outro está por baixo (ou não tanto assim por cima). O que não necessariamente significa que o duelo tende a ser daqueles duros de assistir. Pelo contrário: a última vez em que os dois times estiveram em situações desconfortáveis é de boas lembranças para quem gosta de futebol – e em especial para o torcedor sportinguista.
Foi há dois anos, nas semifinais da Copa de Portugal, e o jogo ficou marcado como um dos melhores jogos – senão o melhor – entre ambos desde a temporada 1993/1994. O Sporting levou a melhor, em um 5 a 3 emocionante, indefinido até o último minuto. Em linhas gerais, os Encarnados chegaram a abrir 2 a 0 na primeira etapa (Rui Costa e Nuno Gomes), mas em um segundo tempo incrível, o time de Alvalade virou (Yannick, Liedson e Derlei), levou o empate (Rodriguez) mas conseguiu marcar mais duas vezes no fim do jogo (Yannick e Vukcevic). Uma grande partida, onde – quem diria! – até mesmo o goleiro Quim brilhou.
Daquele jogo, pelo menos cinco remanescentes são esperados em campo do lado leonino (Rui Patrício, Abel, Vukcevic, Yannick e Liedson), além de mais três com a camisa do Benfica (Luisão, Maxi Pereira e Cardozo). Oito nomes, portanto, que já conhecem bem o que representa o embate, sabem como aquele jogo ficou marcado, e entendem que mesmo esta partida sendo válida apenas pela quinta rodada do campeonato nacional – que ainda terá mais 25 jornadas em vista -, ela se mostra crucial, tal qual aquela, para que engatar uma afirmação na temporada, antes que fique tarde para uma reabilitação.
Na época passada, sabe-se, quem vivia sérios problemas era apenas o Sporting, enquanto o Benfica voava em campo e detinha pleno favoritismo. Dessa vez, porém, o time vermelho só leva uma pecha de teoricamente ter mais chances por possuir uma equipe tecnicamente melhor, ainda que não tenha mostrado isso ao longo da temporada. Só por isso. Até agora, a perda de Di Maria e principalmente Ramires não foi assimilada pelo grupo de Jorge Jesus. Gaitán não desagrada mas ao mesmo tempo também não empolga na esquerda e Carlos Martins é apenas esforçado, estando longe do nível do brasileiro pela direita.
A dificuldade de se acertar os meias – e a irregularidade de Pablo Aimar – é proporcional à pouca qualidade na armação – algo bastante destacável no Benfica de 2009/10 – que se vê na Luz. Com isso, um dos principais artífices da criação da equipe tem sido Fábio Coentrão, que acaba intercalando funções defensivas e ofensivas quase que simultaneamente, subindo constantemente com seus cruzamentos pela esquerda. E é aquela história: não que Coentrão esteja mal, mas é humanamente impossível render como rendeu na Copa se tiver que fazer as vezes de protetor e armador.
É compreensível, portanto, que o Benfica esteja apresentando, além de um futebol menos plástico, um jogo mais nervoso, principalmente quando os resultados insistem em não aparecer, como vinha ocorrendo até a vitória contra o Hapoel. E mesmo ante os israelenses, não se viu uma apresentação convincente. O time está taticamente bem armado – justificável, já que Jesus, após testar, sem sucesso, a equipe com dois pontas e um centroavante, voltou ao conhecido esquema como dois atacantes, um volante e três meias -, mas sem a mesma qualidade.
Um dos diferenciais acabou sendo mesmo o supracitado irregular Aimar, que dessa vez soube conduzir bem a armação da equipe, desafogando os demais meias. Resultado: Gaitán (depois Ruben Amorim, quando puxado da lateral para a ala, com a entrada de Maxi Pereira) e Carlos Martins, se não foram excepcionais, tiveram uma atuação melhor, e até mesmo Cardozo, em péssima temporada e sobrecarregando demais Saviola, conseguiu deixar a sua marca – ainda que após uma partida bem ruim, onde ao invés de comemorar seu gol com a torcida, preferiu mandar a plateia se calar.
Do lado do Sporting, a cada dia, confirma-se a tese de que o clube de Alvalade vai caminhar na temporada mais pela raça do que efetivamente pela técnica – e mesmo pela tática. Apesar do bom rendimento quando juntos e com liberdade para puxar a bola, Paulo Sérgio insiste em não usar Vukcevic e Yannick ao mesmo tempo, optando por um ou outro com o ascendente Matías Fernandez na equipe. Não seria impossível vislumbrar inclusive o trio junto. Algo que, tendo em vista a ausência de um armador como era João Moutinho, seria importante para se criar mais chances para um Liedson que, hoje, não busca mais a bola como antes. A lesão de Maniche abre ainda mais essa possibilidade do trio Vuk-Yannick-Matías.
Antes do derby, como se sabe, o Sporting vai até Lille encarar os franceses em uma partida da Liga Europa em que as bolsas de apostas dão o favoritismo à equipe de Gervinho e Eden Hazard. Um jogo, por sua vez, em um cenário bem diferente do que deverá ser visto contra o Benfica. A começar pelo próprio anúncio do técnico de que deverá poupar alguns atletas para o derby. Paulo Sérgio terá que tomar alguns cuidados, como o de conter os avanços dos velozes atacantes rivais. Uma possibilidade é a escalação de dois volantes mais contidos, como André Santos e Zapater, com Vukcevic e Matias (embora tenha-se cogitado o bom Diogo Salomão para o onze) abertos e Yannick e Postiga à frente.
Se quiser arriscar, o treinador pode ainda tentar ir com Valdés e jogar com apenas um volante – improvável, tendo em vista a velocidade dos franceses. Mas independente disso – talvez, ao Sporting, fosse melhor que o jogo de quinta se desse após o derby – é difícil não imaginar que o resultado na França poderá ter impacto no que se verá em campo, da parte leonina, no domingo. Tanto na forma como o time atuará (se mais contido ou mais aberto), como na própria motivação para encarar um rival cujo sucesso em 2009/10, inclusive nos clássicos entre as duas equipes, visivelmente abalou emocionalmente o “balneário” da equipe.
Obs.: Para ver os gols do citado encontro de 2008, basta conferir aqui. Já o supracitado clássico da temporada 1993/94, em que o Benfica de João Pinto atropelou o então fortíssimo Sporting de Cadete e Figo por 6 a 3, em pleno José de Alvalade, pode ser visto aqui.
Bem vindo à realidade
Há quem diga que o massacre que o Braga sofreu em seu “batismo” na fase de grupos da Liga dos Campeões deve ser esquecido o mais rápido possível. Não é bem assim. Claro, o impacto do placar deve ser logo deixado de lado, já que no final de semana já há um encontro complicado contra o Paços de Ferreira pela Liga Zon Sagres. No entanto, é a oportunidade adequada para que aquele ímpeto sonhador dê uma freada e o time possa localizar com mais eficácia erros e identificar melhor quais as reais limitações que terão, especialmente porque realmente quase ninguém efetivamente se salvou no fracasso dos Arsenalistas – um desses poucos foi Moisés, zagueiro que teve que se desdobrar para evitar uma tragédia maior.
Felipe deve rever suas saídas de bola. Fez um pênalti infantil em Nasri, no lance do primeiro gol dos Gunners, e já não passa a mesma confiança de outros jogos com a camisa bracarense. Os então regulares Rodriguez e Vandinho tiveram noite péssima, e nomes como Sílvio e Matheus acabaram ficando mais no esforço do que qualquer outra coisa. Elderson fez mais falta por ter obrigado Sílvio a ir para a esquerda (e o tétrico Miguel Garcia voltar à equipe) do que por qualquer outra coisa. E, quem diria, Leandro Salino fez falta, ante Hugo Viana e Mossoró claramente sem ritmo. Do outro lado, o Arsenal fez um jogo irrepreensível, recordando o que já fizera contra o Porto na última LC (5 a 0 no Emirates), com Fábregas, Chamakh e Arshavin inspirados. Um choque de realidade talvez além do esperado por Domingos Paciência.
Só para não dizer que está em cima do muro, o colunista explica que não compartilha da ideia de que os bracarenses são um time com nível de Série B. Sim, conta-se com jogadores tecnicamente limitados (ainda que haja nomes cujas lembranças dos tempos em que jogavam por aí diferem bem do que apresentam hoje), mas são nomes experientes e muito bem organizados por Paciência, como se viu contra o Sevilla. Tal organização, porém, não funcionou contra os ingleses, tanto porque realmente o time não foi bem como (e principalmente) porque a equipe é bem inferior aos londrinos. Imagina-se que em uma boa noite, o Braga talvez desse mais trabalho, mas pensar em algo além de uma derrota magra dependeria muito de uma partida bem ruim do Arsenal. Algo que passou longe de acontecer.
Bola da vez
Pela semana ter sido uma de várias notas interessantes e quentes a serem discutidas, uma mais aprofundada discussão sobre o sucesso atual do Porto de André Villas-Boas, outro tema em voga atualmente no futebol português, fica para a próxima semana (salvo alguma bomba que possa aparecer).
Até lá, o colunista convida os leitores a visitarem os blogs Comunicagolo, com análises da bola que rola em terras tugas; e o Esporte Clube 8-Bit, acerca de games esportivos.



