Portugal

Mau gosto de organizada do Porto faz o ‘impossível’: unir rivais em respostas

A vitória do Benfica por 3 a 0 sobre o Marítimo, na última sexta-feira (14), no estádio da Luz, teve vários significados. Dentro de campo, o time manteve a liderança do Campeonato Português, agora com cinco jogos por cumprir. Fora dele, o verde se misturou ao vermelho e branco nas arquibancadas, numa demonstração de solidariedade à Chapecoense, após o triste episódio causado por torcedores do Porto ao longo da semana.

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Foi em um clássico Porto x Benfica, mas de handebol, que a torcida organizada Super Dragões soltou o canto que virou notícia no mundo todo: “Quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica”. Uma música que já havia sido “ensaiada” duas semanas antes, ainda que de forma tímida, quando do trajeto dos portistas até o estádio da Luz, para o clássico pelo campeonato nacional.

O evidente mau gosto do coro provocou reações de todos os lados. O próprio Porto reagiu rapidamente e, em publicação no Twitter, fez questão de separar a instituição da torcida. “O FC Porto demarca-se de todos os cânticos ofensivos e apela que os adeptos se concentrem no apoio às nossas equipes”, escreveu. Além disso, o clube ainda emitiu nota pedindo desculpas à Chape. Uma atitude que provocou algo raríssimo no futebol português: um elogio público do Benfica.

Em nota no seu site oficial, os encarnados destacaram a rapidez com que o rival se manifestou. E foram além: “Que este triste episódio, que a todos nos envergonha e que estamos certos em que ninguém se pode rever, sirva para todos refletirmos sobre as nossas responsabilidades e contribuirmos para parar este clima de tensão.”

A própria Chapecoense também lamentou o fato, classificando o cântico como “agressivo e de desrespeito à memória dos mortos e do clube”. Atual goleiro do time de Santa Catarina e ex-atleta do Benfica, Artur Moraes pediu punição aos envolvidos: “Isso não pode passar em branco. É inadmissível usar uma tragédia como esta para insultar ou agredir qualquer um, seja por rivalidade ou pelo que for”.

O assunto foi um dos temas mais discutidos em Portugal nos últimos dias. Rui Vitória, técnico do Benfica, chegou a abrir uma entrevista coletiva dizendo que fazia questão de afirmar que todos no clube estavam “vivos e bem vivos”.

Tamanha polêmica fez a Super Dragões também se pronunciar. Mas, embora tenha prometido não voltar a entoar o coro, a torcida organizada decepcionou ao afirmar que a música tratava-se de uma sátira sem quaisquer consequências.

No jogo contra o Marítimo, cachecóis e camisas da Chapecoense foram utilizadas por torcedores ao redor e até mesmo dentro do estádio da Luz. Por coincidência, até o diretor de tecnologia de informação do clube catarinense, Darlan Segalin, compareceu à partida com a família, todos devidamente uniformizados de verde e branco – a viagem a Portugal e a ida ao jogo já estavam programadas antes da polêmica.

Ainda que haja alguma punição aos envolvidos (o mais provável é a aplicação de multa pela federação de handebol), não há como apagar ou consertar a enorme bobagem feita por quem cantou o que não devia. Mas, ao menos, fica o consolo pela reação da sociedade portuguesa. Afinal, quando o Benfica elogia uma atitude do Porto e aceita adereços verdes (cor do rival Sporting) nos torcedores em seu estádio, é possível acreditar num mundo melhor.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).
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