Portugal

Lisboetas embalados

O Benfica foi eliminado da Liga dos Campeões e o Sporting classificou-se para as semifinais da Liga Europa. Um olhar cru sobre deste cenário leva à dedução de que somente os Leões têm razões de estar embalados para o clássico de segunda-feira contra as Águias. Mas o fato é que os encarnados chegam para o jogo – e para a reta final do Campeonato Português – tão empolgados quanto os rivais. Após uma série de partidas em que a equipe – mesmo quando vencia – praticava um futebol aquém do mostrado na primeira metade da época, o Benfica deixou muito boa impressão nas duas derrotas para o Chelsea (principalmente no duelo em solo londrino). E o principal: o time sabe que foi bem. Uma retomada de confiança crucial às pretensões vermelhas no atual momento da temporada, em que ainda briga pelo título nacional.

Na partida de ida, na Luz, a atuação encarnada já fora boa, ainda que sem eficiência na conclusão – o que poderia mudar a história do confronto e que acabou “punida” com o gol sofrido na segunda etapa, após uma falha juvenil de Emerson. Para sonhar com a vaga, o Benfica teria que ter, em Londres, uma de suas melhores atuações na temporada (quiçá a melhor). Seria preciso peitar, frente a frente, um time que mesmo com Didier Drogba no banco, era mais forte e completo em todos os setores do campo. Isso tudo sem a dupla titular de zaga (Luisão e Ezequiel Garay), o que obrigou Jorge Jesus a surpreender, recuando Javi Garcia para o miolo e colocou a seu lado… Emerson – ele mesmo. No meio, dois volantes com saída de jogo (Alex Witsel e Nemanja Matic) e três armadores, mais Oscar Cardozo a frente. Ofensiva? “Suicida”? O fato é que a estratégia começou dando certo.

Fala-se “começou” porque com quase metade do primeiro tempo transcorrido e o Benfica com mais presença ofensiva, uma das raras investidas do Chelsea culminou em pênalti de Javi Garcia em Ashley Cole (Frank Lampard converteu). Para complicar, perto do fim da etapa inicial, as Águias ainda perderam Maxi Pereira, expulso. Contudo, apesar da sequência de “bombas”, o Benfica não abriu mão do jogo. Sentiu o cansaço de ter que acompanhar a velocidade dos Blues com um homem a menos – ainda mais por este ser um lateral – mas não abdicou do que parecia ser uma remota possibilidade de ficar com a vaga. Tanto que ao invés de reforçar a defesa, Jesus lançou três atacantes (Nelson Oliveira, Rodrigo Moreno e Yannick Djaló) na etapa final e deixou o time em uma espécie de 3-3-3 – só que sem zagueiros (Joan Capdevilla, Javi Garcia e Emerson eram os três que ficavam mais atrás).

O “suicídio” – no bom sentido – demorou a engrenar, é verdade. Pelo menos dos cinco aos 25 minutos do segundo tempo, o Benfica sofreu, viu o Chelsea perder pelo menos dois gols incríveis e ainda foi salvo por Artur Moraes uma outra vez. Mas a partir dalí, as Águias começaram a fazer jús à formação ofensiva bancada por Jesus. Com a armação “reduzida” a Pablo Aimar, a equipe trocou a bola de pé em pé pelos lançamentos e cruzamentos. E por cima, o Benfica estava bem – e o Chelsea, mal. Não à toa, foi assim que os portugueses arrancaram um empate que parecia inacreditável, restando seis para o fim do jogo, com Javi Garcia. E dois minutos depois, Nelson Oliveira teve a bola do jogo. Mas pesou no pé do garoto a inexperiência e a possibilidade de virar o herói. Ao invés de rolar para Yannick, livre, conferir para as redes, Nelson chutou para fora. E no contra-ataque, Raul Meireles matou o duelo.

Não dá para dizer que “o resultado não importa” – é evidente que importa. No entanto, o Benfica mostrou não estar tão abaixo do Chelsea como se desenhava. “Mas é o pior Chelsea da era Roman Abramovich!”. Sim, mas isso não minimiza o fato, especialmente pelos milhões que separam ambos os orçamentos e salários. E as Águias deixaram Stamford Bridge conscientes desse avanço. Não só pelo que se viu na quarta, mas porque já no sábado a equipe travara um ótimo duelo contra o Braga (rival direto pelo título), decidido nos acréscimos. Encarou um concorrente motivado por 13 vitórias seguidas, venceu e deixou a sensação de que o time havia se reencontrado – sentimento que costuma só vir à tona em triunfos que vêm mais na vontade do que na técnica. Diante do Chelsea, o Benfica confirmou que voltou a jogar bem. Resta saber se o “reencontro” com o bom futebol é “definitivo”.

À caminho da afirmação

Já o embalo do Sporting não se dá somente pela classificação. Mais do que o caneco da Liga Europa, o que os Leões realmente buscam é a autoafirmação. A atual e as duas últimas temporadas, em especial, não têm sido fáceis ao clube. São três épocas longe da disputa de títulos relevantes, e o quinto lugar na atual tabela da Liga Portuguesa, atrás até do surpreendente (mas de grande campanha) Marítimo, dá essa letra. Mas se nos pontos corridos a coisa parece não andar, o Sporting de Ricardo Sá Pinto tem sabido jogar para matar. Em partidas eliminatórias, não é brilhante, mas eficiente. Joga sempre do mesmo jeitinho. Até por isso, o sofrimento para despachar o Metalist Kharkiv da Liga Europa não foi muito diferente de quando superou os euros do Manchester City. E é exatamente esse sofrimento que, a cada jogo, abastece a moral do agora único português vivo no Velho Continente.

Mesmo diante de um rival mais fraco que o da fase anterior, o Sporting manteve a postura precavida e a marcação forte atrás e pelo meio, confiando no oportunismo de Ricky Van Wolfswinkel (que marcou um belo gol nesta quinta) e na velocidade dos pontas para chegar ao ataque. No fundo, nada muito diferente do que os Leões se propuseram a fazer (e em dados momentos, até conseguiram) ao longo da temporada. A questão é que Sá Pinto conseguiu instituir no grupo um aspecto coletivo que Domingos Paciência não foi capaz – e que, ironicamente, foi um dos pontos fortes do Braga nas duas épocas anteriores. O desenho tático atual é quase o mesmo da “era” Domingos, mas Sá Pinto conseguiu fazer a engrenagem funcionar, em especial nas disputas em solo europeu – que desde o começo se configuraram como a prioridade do treinador.

Este Sporting tem limitações mais visíveis que em seus dois principais rivais nacionais, ainda que o atual elenco tenha bem mais opções que na última temporada. Falta um meia com capacidade de armar o jogo e fazer com que o time não dependa dos lançamentos para Diego Capel, Jeffren, Marat Izmailov ou Van Wolfswinkel. Atrás, apesar da melhora com a afirmação de Daniel Carriço na volância, dando suporte a Xandão e Anderson Polga, os espaços ainda existem. E é nessas horas que brilha o principal jogador da equipe: Rui Patrício. Até pouco tempo, o goleiro chamava atenção justamente por sua irregularidade. Na atual temporada – em especial, na Liga Europa – porém, o camisa 1 tem sido decisivo. Salvou o time de Alvalade contra o City, e ante o Metalist, não bastou fazer quatro grandes defesas: Rui Patrício ainda salvou um pênalti, cuja perda derrubou psicologicamente os ucranianos.

A vaga que dá ainda mais valor ao trabalho de Sá Pinto – se a saída de Domingos foi precipitada pelo momento e a falta de continuidade do projeto, os Leões se “redimiram” acertando a mão no substituto. E a forma (suada) como ela veio ocorreu na melhor hora possível, às portas de um clássico onde o Sporting tem a chance de complicar seu maior rival na briga pelo título e, de quebra, confirmar sua reafirmação na atual temporada. Vitórias ante União de Leiria ou Olhanense provavelmente em nada influenciariam a empolgação da equipe para o difícil confronto contra o Athletic Bilbao na Liga Europa, mas um triunfo sobre o Benfica – algo que não ocorre há um bom tempo, diga-se – seria o combustível que pode impulsionar a confiança do elenco (que tem crescido gradativamente) e inflamar a torcida. Com Sporting e Benfica embalados, Alvalade pode esperar um grande clássico para esta segunda…

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Equipe Trivela

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