Portugal

Linha vermelha

 O ano de 2010 começou com dois vermelhos dominando a tabela da Liga Sagres. De um lado, o tradicional Benfica, com sua melhor equipe nos últimos anos, vindo de uma inquestionável vitória sobre o Porto na competição, mesmo desfalcado de Fábio Coentrão, Aimar e Di Maria. Do outro, o inesperado Braga, que lidera o certame com o mesmo número de pontos dos encarnados (mas à frente pelo confronto direto) e que ficou na primeira posição em 13 das 14 rodadas até o momento jogadas.

 Com isso, é natural que uma rivalidade, ao menos, temporária, surgisse entre os dois clubes. Só que, na verdade, o choque entre bracarenses e lisboetas teve início bem antes do momento em que ambos dispararam nas primeiras colocações. Para entender, é necessário voltar à reta final da temporada 2008/09, quando as Águias anunciaram Jorge Jesus, então treinador do Braga, como seu novo treinador. Isso porque o campeonato ainda se encaminhava e os minhotos brigavam por vaga na Liga Europa. Para esquentar as coisas, o próprio Jesus confirmou o interesse benfiquista (e o próprio) na transação.

Evidentemente, isso não caiu bem no Braga, que endureceu o quanto pode a transferência do treinador, obrigando o Benfica a pagar a (cara) cláusula de rescisão contratual de Jesus, como retaliação. A dificuldade imposta pelos bracarenses, por sua vez, desagradou aos benfiquistas, e, em especial, ao presidente Luis Felipe Vieira, antes amigo próximo e pessoal de Antonio Salvador, mandatário do atual líder do campeonato lusitano.

O novo “round” se deu após o lateral Cesar Peixoto, então no Braga, ser sondado justamente pelo Benfica na pré-temporada. A nova investida encarnada irritou a direção minhota, que criticou publicamente a diretoria das Águias, alegando que se estava “fazendo a cabeça” do jogador. À ocasião, vale lembrar, Peixoto afirmou que só jogaria, dali em diante, pelo Benfica, e já havia rejeitado uma ida para o Sporting. Os bracarenses pressionaram novamente e obrigaram o Benfica pagar a rescisão completa. E ao longo da atual temporada da Sagres, a rivalidade ganhou nova intensidade.

Primeiro, pela natural concorrência pela liderança. Em segundo ponto, o reforço na amizade entre as diretorias de Braga e Porto, rival encarnado. Mas o ponto-chave do clima em que bracarenses e benfiquistas pôde ser visto no duelo entre ambos pela nona rodada. Em um jogo cujo ambiente já não se mostrava amigável, jogadores de ambos os times se desentenderam de maneira até vergonhosa no caminho para o intervalo, com participação de dirigentes das duas equipes, que, durante o jogo, não deixavam de lado as oportunidades para provocar um ao outro.

Para completar, além das vias de fato e das picuinhas sobre quem eram os reais culpados da confusão — que, a bem da verdade, são todos, desde os provocadores aos primeiros agressores —, a vitória foi bracarense (2 a 0), gerando um clima de desforra por parte do Braga e a espera ansiosa pela revanche pelo lado do Benfica. Algo curioso, especialmente por não se tratar de uma rivalidade histórica (em tempo: o rival tradicional do Braga é o Vitória de Guimarães).

A rusga tende a se manter por um bom tempo, ao menos até o final da temporada. E, dificilmente, mantidas as administrações de Salvador e Vieira, ela se curará tão cedo. Os torcedores também tomaram as dores, e os minhotos já são aguardados com uma “recepção especial” na Luz em 28 de março, pela 24ª rodada, quando a dupla vermelha voltará a se encontrar, provavelmente, em um daqueles jogos de seis pontos em que o derrotado pode ver o título escapar por entre os dedos. Nessa linha vermelha, resta saber quem vencerá essa “guerra” de nervos.

Vai chegar?

É importante ver se o próprio Braga chegará ao duelo contra o Benfica ainda sonhando com a glória máxima. Há quem possa recordar do bom início, na última temporada, do Leixões, que não resistiu à pressão e terminou o campeonato distante dos líderes. Porém, há também outra possível comparação a ser feita. Afinal, como não recordar do surpreendente Boavista, de 2000/01. E, no fundo, os arsenalistas têm características mais próximas a dos axadrezados do que o time de Matosinhos.

Antes de levar o título há nove anos, o rival local do Porto já vinha de boas campanhas nos campeonatos nacionais e, diferente do Leixões, não é, nem de longe, um time pequeno. Pelo contrário: o Boavista é, ao lado dos Belenenses e dos três grandes, do seleto grupo de campeões nacionais. Além disso, tal como o Braga, não largou as primeiras posições em quase nenhum minuto do campeonato, enquanto o minúsculo Leixões, nesse mesmo estágio, no último certame, já se distanciava da ponta da tabela.

Ainda que tenha encontrado mais dificuldades nas últimas partidas (o próprio Benfica também encontrou), o presente líder da Liga Sagres vem emplacando um jogo bem trabalhado e sóbrio, contando com as boas atuações do decisivo Meyong, dos incansáveis Mossoró e Alan, de um Hugo Viana determinado a recuperar espaço em Portugal e dos até agora seguros Evaldo e Moisés, na defesa, além de Eduardo, que assumiu a titularidade na seleção portuguesa e deve manter o posto até o Mundial.

O desafio, porém, será mais intenso. A vitória benfiquista sobre o Porto deu ainda mais moral ao time da Luz. Não bastasse, o Sporting, além de arrebatar o lateral João Pereira, um dos principais destaques do Braga na temporada, já sonda Evaldo. Meyong estará ausente no princípio do returno, em virtude da Copa Africana de Nações. São desfalques que testarão de vez a qualidade arsenalista.

Manter a regularidade apresentada contra os rivais diretos Benfica e Porto, fora de casa, e voltar a superar o Sporting, agora no Minho, estão entre os pontos-chave desse caminho. Sem esquecer, claro, de que as boas exibições contra os grandes devem ser repetidas contra os pequenos. Afinal, nem sempre gols nos acréscimos contra Leixões e Olhanense, por exemplo, não cairão do céu toda hora.

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Equipe Trivela

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